dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Dizem por aí: Carne Crua Salón Comedor Observador Catarro Verde |
30.4.04
Entre as 4h10 da tarde, hora em que foi publicado, e agora - 6 e meia -, o Mini 32, logo abaixo, manteve um pequeno defeito de fabricação que prejudicava bastante sua compreensão, um mau uso do pronome "" ele". Problema sanado, se você já tinha lido o pequeno, por favor, faça o sacrifício de ler outra vez, agora clareado. Caso não tenha lido ainda, ainda é tempo de ficar sem ler e se abster de aborrecimentos. | Mini 32 "Manjer al mateix lloc". Escreveu no guardanapo o máximo que seu catalão precário permitiu. Se fosse jovem, iria aprender o idioma, quatro horas por dia, mais até. Admirava o catalão, sobretudo por sua capacidade de sobrevivência: tinha sido condenado à morte, tinha vivido escondido por décadas e tinha renascido, renovado, fresco. "Manjer al mateix lloc". Comer no mesmo lugar. Almoçara onde um dia Miró provavelmente havia comido, possivelmente na mesma mesa. E no entanto tudo tão vivo, tão contemporâneo. Entendeu, duramente, de uma vez. Ao som daquela língua viva, cantada em todo canto, ele percebeu o quanto era latim. | 29.4.04
Blog novo a conferir e freqüentar: Depois do Tiro, da Teresa Eça, redatora de linhagem e talento congênito. Teresa conta como transformou a experiência negativa com a violência urbana em uma usina criativa que resultará em um filme ou mais. Passem lá. | 28.4.04
Putz, estou me sentindo estranho. Acho que é ele de novo. Sim, sou eu: Martagão Gesteira polindo os verbo! O dono do lugar Cabra macho ocupa o espaço Do outro que é enrolador É isso que agora faço Tomando o lugar do autor Que diz que escreve novela História mais demorada Mas pra publicar protela, Na hora não entrega nada. Parece missa do Daime O conto que não termina. Diz o autor, o tal do Jayme, Que vai sair coisa fina. Eu mesmo não acredito E chego a ficar aflito Só creio no tal do conto No dia em que estiver pronto. | Está lá o "Sobrevivência", próximo conto, mais longo, sendo gestado. Vai chegar aqui, mais cedo ou mais tarde, sem introdução. Enquanto isso, mando escritos paralelos, fáticos uns, experimentais outros. Este espaço oferece o prato principal, sem negligenciar o pãozinho. E se o esperado pernil não chega, mandamos bem as azeitonas, as torradinhas e as bolinhas de manteiga. Fino ou não, mantemos algum sabor. *** Você pode perguntar: por que não minis enquanto seu conto não vem? Os minis, na verdade, não saem assim tão fácil. Na verdade, só o primeiro saiu fácil, de supetão. Os outros deram trabalho. E quando tentei colocar minis para cumprir tabela, saíram ruins - são uns 4, dos 31, que eu retirarei de qualquer coleção que faça. Quais? Descubra, ora essa, não vou me entregar assim tão fácil. | 27.4.04
É assim: enquanto não tem conto pronto ("Sobrevivência", o próximo, está saindo devagar, como é próprio dos bons pratos - e das gororobas, também), nem mini publicável, entra mais uma vez em cena o poeta nordestino que mora em mim. Martagão Gesteira é o nome dele. Estou inclusive pensando em deixar um chapeuzinho de couro sobre a mesa para viver mais intensamente estes momentos de possessão lírica. Desta vez, o versejador da caatinga faz uma singela homenagem à poesia em geral e ao maior poeta português, em particular. Fala, Martagão: Quadras ao gosto popular Poeta é um cabra esquisito Que vive pedindo afago Quebra no meio os escrito Falando, parece um gago Recita o que tem vontade Fala do frio e do morno Com a mesma habilidade Vai de comedor a corno Se come, é com mais carinho. Se traz na testa a galhada, Compensa na talagada E na mulher do vizinho Diz o sábio português Que o poeta é fingidor Finge mesmo: vez por mês Come a mulher do senhor. | 22.4.04
Mini 31 Décimo segundo andar. O barulho parecia ao lado da janela. Não suportava mais: jogou o vaso antigo de boa porcelana e um metro de altura em direção aos sons lá embaixo. Refestelou-se na poltrona, fechou os olhos, deixou a memória despertar sozinha e trazer de volta, como um filme, a rua sem prédios. Sem asfalto. As casas sem jardim, janelas sobre a calçada. Alta, a calçada. Carroça de leite. "Trabalhadores do Brasil" no rádio vizinho. Imenso o terreno de seu pai, cheio de fundo. Fundo onde cresceu aquela pilha de apartamentos até chegar à altura em que ele estava sentado. Em que soavam agora a campainha estridente e os murros na porta. Que acabou se abrindo para que ele, arrastado pelos visitantes, saísse de uma vez. Que alívio. | 20.4.04
Mini 30 Ele era mais chato que um dueto formado pelo Arnaldo Antunes e o Osvaldo Montenegro cantando as obras completas do Fagner. Mas não era por mal. Ao contrário, o que agravava sua condição era a extrema preocupação com o bem-estar do próximo. Se hovesse alguém a menos de três metros com um ar mais taciturno, logo se aproximava e bafejava um consolo ou uma piada, invariavelmente acompanhados de um agarrão no braço e perdigotos. Conseqüência previsível: cada vez menos gente chegava a menos de três metros dele. Foi ficando só, castigo dobrado para quem amava o próximo. Um dia, descobriu uma forma de canalizar seu amor. Entrou como voluntário para um grupo de apoio telefônico a pessoas solitárias e deprimidas. Passou a dedicar quase todo o seu tempo acordado às ligações. Atendia com o mesmo carinho a velhos e jovens, drogados e caretas, ingênuos e aproveitadores. Sua perseverança era admirada pelos colegas, ninguém conseguia acolher em tal volume as mazelas do próximo. Era um titã do apoio moral. Um dia, foi chamado pelo diretor geral da instituição. Sem delongas, o homem disse que, face ao constante e alarmante aumento dos índices de suicídio entre os atendidos pela instituição, lamentava, mas era obrigado a demiti-lo. | 16.4.04
Peço que me desculpem, mas estou em combate com o próximo conto, que, como acontece vez por outra, está me dando um vareio. Paro no meio, rasgo papel, começo de novo e ele não passa do mesmo lugar. Pode ser um bom sinal, mas tem atrasado a produção. É só por isso que estou cometendo o texto abaixo. Poesia. Sim, é contra os meus princípios colocar versos por aqui, não por nada, apenas porque têm uma leitura visual que recorta mal na tela, e fica como que uma gestalt de babaquice. Mas hoje eu resolvi me atrever, feito o carola que foge de casa no feriado, deixando a madame que, então, bate à janela do jardineiro, que por sua vez aproveita o intervalo da missa e cria. Corneando, pois: Quem fala de rima rica E fica exibindo os cobre, Posando de raça nobre, Na hora que a corda estica, Não sabe se vai, se fica: De medo, é capaz que obre. Mas se o sujeito é ladino, Às vezes salva a cueca, Agüenta e não se meleca, Enquanto espera o destino Que pode lhe ser mofino E acena sempre co'a breca. Eu digo, e pareço tosco, Mas digo que não tem jeito, Que o cabra que mete o peito Acaba enfiado no enrosco E o que se esconde conosco Tampouco tira proveito. O jeito é contar co'a sorte Quem sabe c'o Presidente, Que mostra gostar da gente. Ainda que não se importe Com quem ficou lá no norte, Aqui parece contente. Ok, foi mal, mas prometo que as próximas maltraçadas já trarão de volta os contos e, quem sabe, o Mini 30. Quanto ao cometido acima, falta muita coisa, sobra mais ainda, mas é o que é: poesia, pois é, poesia. | 14.4.04
| 12.4.04
Deu no Blue Bus este texto da Andréa Cals, filha do Fernando, criadora e editora do Banheiro Feminino, carioca perplexa, como de resto estamos todos nós, apenas não sabendo nos expressar com tanta propriedade. Mandou bem, Muié. Prefiro o 1o mundo, com terrorismo (leitora) 15:13 Leitora escreve - "Desisti do Rio apesar de adorá-lo de longe e lamentar. Hoje preferiria estar em um país do 1o mundo com direito a terrorismo a estar na situaçao do carioca, onde a violência é vista como uma espécie de superstiçao. Alguns acreditam, outros nao. Nosso crime nao é mais organizado, muito pelo contrario, nossos bandidos cariocas sao os mais cruéis e amorais, matando por nada, sem ideologia, sem apelo. O Brasil nao se manifesta através do presidente que ignora solenemente a autoridade que demos a ele. Alguns sugerem a construçao do muro que destrói a identidade carioca representada pela praia que democratiza os espaços e a convivência entre ricos e pobres, como sempre foi. Mas no Brasil e mais ainda no Rio que é onde acontece o cúmulo de todos os absurdos brasileiros, a violência nao é um assunto sério. Eu adoraria ser treinada, ter Exército nas fronteiras e assumir que na minha cidade existe o terror. Pelo menos assim teríamos uma chance de nos defender. Nao tenho nenhuma esperança deste país melhorar e planejo firmemente a ida de minha filha um dia para algum país onde a cidadania exista e as autoridades levem a sério os problemas que devem ser enfrentados". 12/04 Andrea Cals | Mini 29 Apertou o passo. Sabia que estava sendo seguido. Suava. Como podia ter-se metido naquilo? Tudo por curiosidade. Mórbida curiosidade. Tinha matado a sede de ver. Não ia escapar de ser visto. | 7.4.04
Idioma - Eu devia me lembrar sempre de ouvir música assim. Tocava "Surfboard" do Tom Jobim, na versão de Roberto Menescal, e eu só não aumentei ainda mais o volume por causa dela. Parecia bobo para um homem de cinqüenta anos, mas eu me sentia um super-herói ali, dirigindo aquele carro sob um céu azul, ante um mar lilás, sobre um Rio mandante. O mais pueril dos clichês. Vivido, no entanto, era quase uma experiência de elevação. Como um pôr-do-sol visto em comparação a um fotografado. - E por que não se lembra? Tocava uma música antiga do Tom Jobim, era "Wave" ou "Surfboard", e ele tinha colocado num volume que tornava difícil a conversa. Acho que ele não queria mesmo conversar, o dia estava lindo, a noite tinha sido linda, talvez ele quisesse conservar a impressão até ali. Como se a conversa apressasse a areia a correr por entre os dedos. Ou talvez não houvesse areia nenhuma - ele não via a hora de me deixar em casa. - É tudo tão corrido que eu acabo me esquecendo. Eram os últimos acordes, a flauta e o piano em terças, eu queria voar antes que acabasse. Que lindo. Três segundos de silêncio. Longo silêncio. Abaixei preventivamente o volume. Talvez fosse bom conversar. Ela tinha um expressão enigmática naquele momento. Onde as mulheres aprendem a ser enigmáticas? - Por que abaixou? Você tava adorando o Tom. Que tipo de satisfação ele quis me dar? Não, ele não podia estar com pena. Fazia de mim uma figura patética, ali a seu lado, quase na porta de casa. Pena, condescendência. Ora essa, tínhamos tido uma noite e tanto - eu tinha tido uma noite e tanto. E então, aquela cara, aquele jeito. Ele parecia achar que eu queria uma aliança - e ficava apavorado com isso. Disfarçava com a expressão de compreensão. Filho da puta. - É que às vezes eu me entusiasmo e acabo aumentando o volume além da conta. Estávamos chegando à porta do prédio dela e eu não sabia bem o que fazer. Estava feliz como há muito tempo não havia estado, aquela felicidade sincronizada, coordenando a cor do céu, o ângulo do sol, o brilho certo do mar, a rua amanhecendo, "Surfboard" envolvendo tudo. Um filme. Não sei se ela entendia. Não pude explicar. Tenho achado tão difícil me explicar a uma mulher. Ali, temia ser excessivo no calor e na doçura, como temia também ser rarefeito, antipático, salgado. - Além da conta? Que conta, meu querido, relaxa, esquece a conta. Meu querido. Eu tinha perfeita consciência da crueldade dessas duas palavrinhas naquele contexto. Meu querido, dito por uma mulher a um homem, pode significar amor, mera cordialidade ou irônico desprezo. É indecifrável. Mesmo que se faça um gesto que penda para um lado ou outro, o mistério permanece. Com isso, dá para criar uma proteção em situações de emergência, uma cortina de fumaça a preservar um mínimo de dignidade. - Eu nunca esqueço uma conta. Que resposta ridícula. Eu não sabia, de fato, o que fazer ali. Sabia, mal-e-mal, o que queria deixar: uma ponta de continuidade, sem parecer grudento. Ela era uma mulher inteligente, interessante e com a dose certa de sorriso. Eu parecia ser um cara atraente para ela. Mas ela estava me olhando com um ar entre severo e enfastiado. Isso tudo estava ficando mais difícil. Eu não podia deixar nada muito claro - acho que desde Humphrey Bogart e Lauren Bacall homem nenhum se declara abertamente a uma mulher - e não sabia o que esperar. Melhor ficar desligado. - Tanta coisa melhor para lembrar, não é? Riso no fim da frase, bolsa no colo, chega. Mais um babaca, agora entrando na fase de cara de carente, indeciso, bobo enfim. Por que é que esse meu mapa astral só me reservava homens assim? Hora de sair. Já tinha dado a canelada necessária. Não sei o que mais ele podia querer, mas ia lembrar daquele dia. De um jeito ou de outro. - Nâo sei não. Acho que pouca coisa é melhor do que lembrar de você. Bom, melhor mesmo era ir embora, sem entender as mulheres. - O que você disse? Ia começar tudo de novo. | 6.4.04
Esta semana tem sido atolada de trabalho, o que me impediu de terminar adequadamente o próximo conto, que vive a angustiante condição de quase. Por favor, tenham paciência com este exausto escriba, que, amanhã, com a ajuda de Tutatis, Belenos e do próprio Vercingetorix, fará publicar as maltraçadas. Modéstia à parte, uma peça com algum engenho na estrutura. Como estrutura sozinha não faz o bangalô, preciso de mais algumas horas para compor os adereços literários. | 2.4.04
Relendo agora o Mini 28, abaixo, que eu escrevi há algum tempo mas não havia publicado, me vem à mente um título. Não vou pôr, porque nenhum dos textos aqui tem título definitivo e especialmente os minis não precisam ter título algum. Mas aí me vem a curiosidade: se você, querido freqüentador, querida freqüentadora destas maltraçadas, tivesse da dar um título para o contito, qual seria? | Mini 28 Karposi, sarcoma de. Mancha na testa. Oportunista, infecção. Cadê mamãe? Infectologia, mestres em. Ia tudo voltar. Tudo voltar. Noiva, casar, quem sabe filhos? Noiva, mulher, ela. Como voltar, como filhos? De novo os livros. Sintomas de. Voltar, é possível voltar. Útero, deve ter algum jeito. Deve ter. Mas não para alguém gordo assim. | Mini 27 Nas primeiras vezes, ficava impressionado com o ambiente e culpado pelas circunstâncias. Não era fácil ver a própria mãe não apenas fora de casa, mas acima de tudo em um lugar daqueles, um sanatório. Ia visitá-la, domingo sim, domingo não. Foi-se acostumando. Ela o recebia com um sorriso, sem palavras. Ele a abraçava. Se perguntasse se ela sabia quem ele era, placidamente balançava a cabeça. Sorrindo. Com o tempo, não se impressionava mais, e a culpa era residual, quase nada. Tornou-se prazeroso encontrar a velha mãe e ser recebido com um sorriso que ficava mais largo a cada visita. E, a cada visita, uma semente de dúvida ia virando árvore: o que é que ela havia esquecido que a aliviava tanto? | Mini 26 Despediram-se carinhosamente e com o mesmo alívio que se tem nas despedidas de aniversários, batizados, primeiras comunhões. Dona Amélia garantiu a todos que ficaria bem - e todos rapidamente acreditaram. Sozinha, afinal. O ato de agradecer, constrita, os pêsames mal-ensaiados cansava. Sentou-se na bergère puída - a preferida. Recostou a nuca, fechou os olhos. Trinta e oito anos de casada. Uma vida junto a um homem tão reconhecido na comunidade e tão bom com ela. Que alívio. Será que ainda sobrava algum tempo para recomeçar? | |