dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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31.3.04

Cicatriz

Tenho 45 anos. Tinha 5 naquele dia em que corria alegre por um gramado meio grosseiro junto a uma obra, na fazenda, que viria a ser um matadouro de frangos. Mais um dos muitos planos de meu pai. Ele, aliás, não estava por ali. Apenas vagamente eu sentia sua falta, crianças de 5 anos não acham estranho o pai sumir durante o dia. Mas o meu parecia não ter chegado na noite anterior.

Corria pela grama, alegre e alheio às advertências de minha mãe, "olha onde pisa", "não corre tanto", "cuidado". Tec! Tropeço em algo que estala bem no peito do meu pé. Nem caí. Logo vi ali espetado um pedaço de madeira, bem naquela curva onde a perna vira pé. Tentei tirar. Não consegui. Os grandes iam chegando perto - mamãe, duas empregadas e o capataz da fazenda. Este, com mão firme, tentou puxar o corpo estranho. Inútil. A ponta de madeira quebra e o que sobra está lá, sangrando, dentro do meu pé. Não doía. Eu chorava pela expressão de pavor dos adultos em volta.

A conversa tensa não era para onde me levar, mas como me levar. "Não tem gasolina." Não tinha também o carro grande, sumido junto com meu pai. O velho jipe, um Candango, estava quebrado. "Tem diesel, dá para ir com o trator". O Massey 50X podia me levar em tempo razoável à vilazinha mais próxima da fazenda, três quilômetros. A sede do município ficava a inatingíveis trinta. Não havia, no vilarejo, hospital, ambulatório, posto de saúde. Havia uma farmácia. Milagrosamente, aberta. Apesar de ser uma quinta-feira, estava quase tudo fechado por ali.

Chegamos à farmácia de trator e carreta, a pouco mais de três quilômetros por hora. O farmacêutico (era assim que se chamava o atendente, independente de sua formação acadêmica) tomou um susto ao ver o meu pé. Talvez não esperasse movimento naquele dia estranho. Mas lá estava eu, um garoto de cinco anos, filho do dono da fazenda Santo Antônio, com um estrepe incrustado no peito do pé esquerdo. Nervoso, disse que não tinha bisturi. Em compensação, tinha anestesia local e algumas pequenas cirurgias em sua folha corrida. Tirou aquele pedaço de madeira com gilete e pinça, anestesiando o local do ferimento e terminando a intervenção com ponto falso, feito com tiras de esparadrapo, uma vez que não tinha sutura.

Dois dias depois, meu pai apareceu. Ali no interior, pareciam ter cessado as ameaças a ele. Me abraçou e disse, bem-humorado: "Filhão, parece que tu és o único ferido de guerra dessa tal revolução".

Infelizmente, não era, e os anos mostrariam isso.



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26.3.04

Mini 25

Maria Alice ali do lado parecia ter saído de um interrogatório da polícia federal. Arredia, arisca, mal-humorada. Feliciano, ao contrário, era pura e excessiva alegria, chato até, com seus assuntos aleatórios, suas balinhas e sua risada meio tom acima. Maria Alice e Feliciano trabalhavam lado a lado. Ela bufava, ele sorria, ele puxava assunto, ela bufava. Fuzilava o colega com seu olhar de maior calibre. Todo dia, na hora de ir embora, ele dizia "ainda é cedo" e ela respondia "eu já vou é tarde, que pra mim já deu". No dia em que coincidiu de irem juntos embora, não tiveram como justificar o que faziam seminus e agarrados dentro do elevador.



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24.3.04

Mini 24

É provado que quem manca é mais forte do que quem não manca. Na média. Quem manca compensa a diferença malhando a parte da musculatura que é sã. Fortalece, olha só: bração, tórax, abdômen desenhado que a molecada por aí não tem. Tem, se é atleta. E eu cansei de ganhar de atleta no braço-de-ferro. Encara? Não? Então toma a saideira. Não? Eu falei, quem manca é mais forte do que quem não manca.



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Um pensamento malvado que me acossa: o que é o 11 de março senão um Hiroshima sem recursos? Quem inventou a lógica da violência dissuasória deve ser o nó de pinho do fogo do inferno. No álbum de figurinhas do mal, em que a de Osama é premiada, a de Harry Truman está na página 1. Só que Truman está na historiografia dos vencedores.



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Mini 23

Lugarzinho horroroso. Primeiro andar. Antes fosse no térreo, não tinha de subir a escada. Vista da janela para a rua: dois outdoors do outro lado da avenida nobre, um vazio e outro com anúncio de puteiro. A calçada. A calçada.

A calçada recebe o passar em câmera lenta dela linda, um passo outro, mais outro. Linda - crack. Quebra o salto. Alto. Perdi por um minuto a respiração. Ela se equilibra. Não cai. Avalia o estrago. Mantém o encanto. Olha um segundo para o chão. Tira um pé da sandália - o quebrado -, depois outro - o inteiro - e continua, descalça e altiva, cabeça empinada e passos largos, seguros, talvez até sorrindo, para a cena ficar perfeita. Foi, fading out.

Lugarzinho lindo. Primeiro andar. Inesquecível.



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22.3.04

Como eu sempre digo, é preciso pôr mais critério por aqui. O texto abaixo não combina com a linha editorial da casa. Mas fazer o que, se a permissividade editorial impera? Bom, amanhã tem dois minis, que eu tava com saudade de escrever os pequeninos.



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Todo mundo fala dos juros do Meirelles, do superávit do Palocci, do armário do Dirceu. Onde está a consagrada argúcia da imprensa nacional? Foco, por Belenos e por Tutatis, foco! O governo já mostra há tempos os alicerces de seu projeto de reforma para a Nação. Será que ninguém vê?

A palavra-chave é recadastramento. É com ela que o governo do PT está começando a mudar o Brasil. Pelas bordas, no começo, é claro que não se pode fazer tudo de uma vez, com essa pressa açodada que tantos detratores reivindicam. Mas vejam só: se há suspeita de velhinhos fraudando a previdência, haverá maneira mais fácil de deslindar a tramóia do que recadastrando? Simples, objetivo, direto, duela a quién duela: coloca-se todos os velhinhos em uma fila. Os que não estiverem lá são fraude. Perceberam? Resolve-se a querela em 48 horas.

Nova armação, outra vez envolvendo esses velhinhos safados, useiros e vezeiros na contravenção: suspeita-se de que alguns deles estariam emprestando suas carteiras de motorista para que rapagões sarados de músculos e multas descarregassem ali seus pontos oriundos de infrações de trânsito. Num governo solerte como os que tivemos antes, alguém iria pedir uma investigação ao órgão competente. Nada disso, chega de nhém-nhém-nhém. Ponham-se os velhinhos de novo na fila. Vocês não imaginam o que é capaz de revelar um octogenário com um simples recadastramento. Mostra tudo, o falso. E a solução vem como no outro caso: o velhinho que não entrar na fila é o mordomo, ou melhor, o culpado.

Isso é apenas o começo. É recadastrando que se constrói um país. Duda Mendonça já prepara o novo slogan oficial: "Brasil. Governo do Recadastramento". Os primeiros passos firmes na marcha das mudanças já foram dados. Já podemos esperar os próximos. Vislumbro programas inteiros a revolucionar o país, a chacoalhar a nação.

Um dos próximos deverá ser o PEREBA - Programa Emergencial de Recadastramento dos Eleitos Brasil Afora. Com o PEREBA, o Brasil poderá recadastrar os eleitos para o Executivo e o Legislativo, além de seus nomeados. Assim: todo mundo que foi eleito em 2002 - ou nomeado por conseqüência - será chamado a comparecer a um guichê no qual terá de preencher uma ficha de recadastramento online. As perguntas básicas serão: "nome", "cargo" e "o que tem feito?" As fichas serão confrontadas com dados recuperados de 2002. Funciona como no caso dos velhinhos: quem não comparecer ou quem puser na ficha uma informação discrepante será imediatamente excluído, descadastrado, transferido para o limbo.

Pode haver problemas mais ou menos constrangedores, principalmente na fila:

- Gushiken!
- Sim, presidente!
- O computador tá com pobrêmam.
- Como, presidente?
- Essa porra dessa ficha, tô tentando preencher e não vai.
- Lembra o que eu ensinei, "L" de laranja, "U" de...
- Eu fei, cafilda, não é ifo!! O pobrema é quando eu acabo de preencher.
- ?
- Quando eu ponho "cargo", "o que tem feito?" e aperto o "enter", aparece a foto do Fernando Henrique!

É. Só recadastrando.



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19.3.04

Finalmente um texto altamente elucidativo sobre o caso Zeca Pagodinho-cervejas. Publicado no Muié do Mei do Mato, tomo a liberdade de colocar um trecho aqui. Mas vale a pena ler inteiro .

"(...) Se há gente que acha que a imagem do pagodeiro não foi abalada só reforça que ainda há quem ache legal o sujeito ser escroto para se dar bem. Muita grana justifica tudo, até pra quem não ganhou! Tudo bem que ELE deve estar feliz, tranqüilo, gastando na vidinha simples que escolheu levar lá em Xerém (deve ser tão maravilhoso quanto o Andaraí), mas o nosso povinho que não ganha nada com isso não tem nem a capacidade de se indignar com porra nenhuma. Que legal esse jeitinho carioca de achar tudo bom, tudo bem, tudo vale. Ahhh mas pelo menos o Bin Laden não joga bomba aqui. 'Grandes Merda'."
// posted by andrea @ 11:54 AM



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18.3.04

(Continuação do texto de ontem. Se você não esteve por aqui ontem, leia, antes deste texto, aquele imediatamente abaixo)

Cena (parte 2)

Como no colégio, fui, na faculdade, sempre um bom aluno. Mas, diferente que era, foi na faculdade que descobri - talvez pelo peso que há ali de lugar onde a gente decide a vida - que eu podia ser mais.

Desde as primeiras semanas, passei a freqüentar, além das salas de aula, a sala apertada do centro acadêmico, até alguns anos atrás um ruidoso caldeirão a misturar o combate à ditadura em extinção à disputa acirrada entre as tendências de esquerda ressuscitadas. Quando cheguei, a ditadura não existia mais e a disputa política era menos barulhenta e dava muito menos audiência no peculiar ibope local.

Mas havia algo no lugar do fervor político que logo me atraiu. Aquela salinha abrigava, na verdade, três agrupamentos muito diferentes. O mais coeso e talvez menos assíduo era era o dos fortões da AAA, sigla que por si só intimidava e que queria dizer apenas "Associação Atlética Acadêmica". O segundo grupo, organizado e eloqüente, era o da diretoria do centro, a esta altura nasa mãos de uma tendência ligada ao PC do B. O terceiro agrupamento era completamente heterogêneo, formado por gente que tinha em comum apenas o fato de ser original e querer manifestar essa originalidade. Eram, de longe, as pessoas mais divertidas e, para mim, as mais inteligentes e interessantes. Naquele ano, havia nascido ali a idéia de se formar um grupo de teatro. Era, na verdade, um bando - sem objetivo claro, sem liderança clara, sem referências. Tudo o que eu queria.

Em menos de um ano, eu havia montado, a partir do exército de Brancaleone que encontrei, o Núcleo Ionesco, um grupo coeso e organizado que estudava teatro e trabalhava com a meta de montar uma peça até o meio daquele ano, agosto ou setembro. Nem usávamos mais o espaço do centro acadêmico, a escola havia arranjado uma salinha para nós. A peça a ser montada era o grande debate entre os doze entusiasmados renitentes que formavam o grupo. Eu queria montar Ionesco. Não conhecia quase nada de teatro, mas ia aprendendo rápido, e o romeno era o autor que mais me havia impressionado. No meio da trupe, havia uma voz que discordava com toda a força e magnetizava o pequeno exército: Lucila, estudante do terceiro ano, bonita, alta e segura de si. Para ela, deveríamos começar com Brecht. Dava carradas de razões para isso, linguagem, inteligibilidade, temática, engajamento. Eu não conseguia argumentar simplesmente porque não sabia nada do assunto. Mas sabia bufar e, se preciso, ter um chilique. Ionesco era mais legal.

Levamos Ionesco.

***

Recém-formado, recém empregado, me defrontei com dois problemas; o primeiro, como conciliar o trabalho novo - bom emprego, multinacional americana - e o velho teatro. - o grupo continuava, ainda estimulado pelos sucessos relativos dos tempos de faculdade. O segundo problema era mais difícil de resolver: queria sair de casa e ainda não ganhava o bastante.O grupo de teatro havia encolhido, éramos apenas cinco, agora, mas estávamos convencidos de que os que haviam ficado tinham qualidades especiais. Poucos mas bons. Lucila era a única mulher. Ficamos muito amigos e era a isso a que eu atribuía a atenção especial que ela me dava. Até o dia em que ela me convidou para uma ceia. "Um jantar depois do ensaio", esclareceu.

Me surpreendi ao descobrir que o convite não incluía o resto do grupo. Ela havia deixado tudo preparado. Seu apartamento era lindo, destoava das casas das outras pessoas da nossa geração que moravam sozinhas. Tinha três quartos, uma sala grande, um terraço de onde se via todo o Jardim Europa com suas árvores exibidas. Lucila abriu uma garrafa de vinho branco e eu perguntei o que estávamos comemorando. "Não sei, temos a noite toda para decidir". Surpreso, ponderei que tinha de trabalhar no dia seguinte. "Eu acordo cedo, você acorda comigo". Mencionei meu terno, a preocupação de meus pais. "Hoje, temos decisões muito importantes a tomar".

Foi um jantar delicioso. Ela serviu-se e a mim de conhaque antes de começar a conversa que coroaria a noite. Olhando-me bem fundo nos olhos, me contou que tinha certeza de que eu era o homem. Eu era sua receita de felicidade. E que, portanto, se au achasse a mesma coisa, tanto melhor. Se não, ela saberia como me fazer achar. Rimos muito, embora ela falasse profundamente sério. Depois do terceiro conhaque, ela me deu um longo primeiro beijo.

Dormimos juntos. Foi a primeira noite de um homem.

***

O homem em que me transformei era muito diferente de mim. Usava agora uma barba elegante, tinha uma dezena de ternos muito bem cortados e apenas sutilmente diferentes um do outro. Ocupava um cargo alto no grupo empresarial do sogro, morava com Lucila em uma casa na Rua Sófia grande o sificiente para acomodar a família de um barão do café libidinoso. Gostava muito da vida de nababo, gostava muito de mandar, gostava demais do poder que de repente lhe havia caído ao colo.

O homem em que me transformei exibia uma tirania teutônica com seus subordinados, uma supeficialidade antártica com Lucila e uma subserviência indiana com o sogro. O velho deixava muito claro que queria netos, o que trazia um fio de tensão a Lucila e uma leve repugnância ao homem em que me transformei.

Descontava nos subordinados. Chegava mais tarde em casa. Fazia pantomimas para enrolar Lucila. Passou a precisar ir a Miami todo mês. Voltava mais alegre por ter ido, mais tenso pelo tempo que teria de ficar. Lucila deixava claro que o útero estava à disposição. Os subordinados sofriam mais. E mais tarde ele chegava em casa.

Não bebia. Não fumava. Não engordava. Parecia ser um homem feliz, se visto do ângulo apropriado. Não teve o tão esperado filho. Teve a sorte de o câncer linfático chegar antes. Também não era exatamente o que ele queria. Mas o que ele queria havia sido esquecido, era do tempo em que o homem em que me transformei ainda era eu.



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17.3.04

Cena (parte 1)

Sou um homem feliz. Pode-se ver nos meus ternos.Pode-se ver no meu carro. Pode-se ver em Lucila. Sou um homem morto. Pode-se ver na etiqueta.

***

Cheguei a São Paulo, vindo do Recife, aos 16 anos de idade. Meu pai tinha sido nomeado para um cargo importante na matriz da firma. Veio a contragosto - na verdade, voltava. No Recife, vivera plenamente a experiência de ser elite, coisa que em São Paulo sempre havia sido mais difícil, fosse pela farta concorrência, fosse por não ser dono de nada grande o suficiente. Eu adorei a mudança desde o início. Ia sair da província para a metrópole. Ia finalmente achar espaço para o talento que eu sabia ter e sabia impossível vender por lá.

Meus pais conseguiram me matricular em um dos bons colégios da cidade, tido como rígido e de conteúdo farto. Lá tive, pela primeira vez, a sensação de ser estranho. No segundo dia, já me apelidaram de Baiano. Nos outros todos, nunca metrataram como igual. Fosse por isso, fosse porque eu não era mesmo igual, não cheguei a me incomodar com a estranheza que causava a aqueles meninos crescidos, com suas espinhas indiscretas, seus corpanzis dois números maiores do que o cérebro, suas vozes malformadas e estridentes, seus assuntos sem assunto, seguidos de risadas sem graça. Eu não era um deles. Com algumas das meninas, era um pouco diferente, elas eram mais crescidas, ou pelo menos mais bem proporcionadas. Durante quase todo o tempo no colégio de elite, tive não mais que cinco amigas. Talvez três.

Em compensação, colecionei problemas. Não, nada que me traumatizasse ou deprimisse, ao contrário: inventei cada um dos problemas que criei, sofri as conseqüências, todas calculadas, e consegui, combinando as encrencas a um insuperável desempenho curricular, ser um cara conhecido. Querido pelas minhas três amigas. Respeitado pelos professores, que não queriam encrenca e apreciavam uma boa performance. Temido pelo resto. Famoso, enfim. Desde logo, deixei crescer o cabelo e adotei um figurino sombrio, camisas escuras, sempre de manga comprida, mesmo com sol de rachar, calças largas, rotas, pretas ou marrons, quase sépia, botas. Até aí, não muito diferente de alguns outros garotos por ali. Mas eu, e só eu, usava delineador preto nos olhos. Eu, e só eu, pintava olheiras. Eu, e só eu, usava, descaradamente, baton. Cheguei a fazer um jornalzinho que juntava, em caótico xerox, idéias desencontradas, comentários sobre filmes e uma ou outra fofoca do lugar.

Na formatura, os cochichos maldosos tinham adaptado o meu infeliz apelido. Eu já tinha me tornado, então, "A Falsa Baiana". Já sabia, a essa altura, que tinha entrado na faculdade, Economia na USP, sonho e consolo dos meus pais, alforria para mim, pelo menos no que tangia ao apelido.

***

O que era aquilo? De onde veio aquela gente bonita e apaixonada, alguns pelas liberdades democráticas, outros pelos encantos da ciência, alguns pela pura e simples expressão livre? Entrei diferente na faculdade, como havia entrado diferente em São Paulo - só que, agora, havia espaço para a diferença. Enquanto no colégio o diferente era eu, ali havia uma pequena multidão de diferentes. A universidade me trazia o espaço que eu buscava desde que, sem querer, tinha me mudado para São Paulo.

(continua)



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16.3.04

Deu certo! Ao que interessa: amanhã entra outro longo, primeira parte sendo digitada agora (eu escrevo a mão, não sei se lhes contei, e só depois de muito rabiscar é que digito). Entrem na nova sala e fiquem completamente à vontade!



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Juro que tentei. Pode ser que os amigos encontrem aqui um novo canal para mensagens. Pode ser. Como que fez a tentativa fui eu, pode também não ter acontecido nada. Ou sumido tudo. Tentem se comunicar, por favor. Ommmmmmmm.



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15.3.04

Este blog está precisando de tratamento. Depois do monte de janelas de erro e do estado de coma dos comments, descubro que, neste fim-de-semana, um leitor entrou aqui indicado por um site de busca onde colocara o query "Tudo sobre Santa Hilária". Não sei onde isso vai parar. Bem, a semana passada foi coroada por um agradabilíssimo encontro de três bloggeiros no bom e velho Pandoro (visite antes que acabe). Fernando Cals, Alberto Lima e este que vos fala pusemos a conversa em dia.



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12.3.04

Sei que erros terríveis de programação estão impedindo as mensagens de aportarem aqui. Repito: quero dicas de socorro, bóias salva-vidas. Câmaras de ar podem ser enviadas por e-mail. Grato (blubl).



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11.3.04

Meus caros leitores, especialmente os versados nas entranhas do bloguismo: HELP! Sumiram todos os comments do Dito Assim! Sei que alguns de vocês já passarm por essa experiência desgradável e alguns reverteram a tragédia. COMO?? Uma luz, por favor. Ah, não deixem de ler o final do conto só por causa disso.



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(Continuação do texto de ontem. Se você não esteve por aqui ontem, leia, antes deste texto, aquele imediatamente abaixo)

Riso (parte 2)

Foi a primeira vez que a toquei. A primeira vez em que ela mostrou sentir alguma coisa que destoava daquele cinismo primitivo. Ou era medo ou era tesão. Medo de mim? Difícil. Ela tinha a faca e o queijo na mão, eu não tinha como sair dali, não podia sumir com ela sem ter de sumir comigo mesmo. Já tinha namorado o Pelanca, não ia ter medo de mim. Tinha era medo de ter tesão. Fui para o meu quartinho fora da casa e dormi profundamente. Sonhei com meu quarto em São Paulo, uma puta de cada lado.

Acordei com murros na porta. Era ela. Estava com a cara amarrada e lia-se ali que tinha sede do meu sangue.

- Levanta, levanta. Tu tem passado tempo demais sem fazer nada, cabeça ociosa descuida da língua e das maneira. Levanta. Ademais, eu quero que tu ponha no papel tudo o que eu tenho e por que não tenho o que não tenho mais. Tu falou que arrumou as finança, agora mostra.

Foram dois dias juntando números, inventando aqui e ali, adivinhando um pouco, relembrando despesas e o tanto de terra posto nos cobres para cobri-las. No fim do segundo dia, tudo me parecia estar pronto. Empilhei os papéis sobre minha cama e fui me lavar. Ia mostrar tudo a ela à noite. Voltando da bica, me lembrei das roupas que ela havia tirado da mala. Estavam empilhadas em um catrezinho junto à cama, dobradas com cuidado.

Ela ficou surpresa e, pela segunda vez. mostrou sentir alguma coisa. Nada claro. Surpresa, choque ou admiração, qualquer deles cabia em sua expressão quando entrei vestido com meu terno preto, camisa preta e gravata preta - um clássico da noite dos meus tempos. Era descabido, desproporcional, naquele fim de mundo, ante aquela mulher. Fiz uma exposição do meu levantamento como se fosse um auditor da Price Waterhouse e ela, Madame Sukarno.

Jantamos a gororoba de sempre, em silêncio. Tentei me comportar com certa solenidade. Ela estava quieta. Quieta demais. O olhar era quase de criança, se visto pela ambigüidade do medo e do fascínio.

- Fizeste tudo isso sozinho?
- Com quem mais?
- E por que te vestiste assim?
- Eu achei que era um momento especdial.
- Especial pela má notícia?
- Não é má notícia, está tudo sob controle. Sem sobras, mas sob controle.
- O que eu tenho dá para viver?
- Dá.
- Terminaste a comida?
- Terminei.

Levantou-se e tirou a mesa, devagar, me olhando de vez em quando, um olhar exploratório, interrogativo, infantil. Terminou, chegou perto de mim. Após um momento de silêncio, propôs:

- Vamos dormir mais cedo.Vou pensar em tudo.

No dia seguinte, ela parecia mais leve.

- Vou à cidade.

Voltou só no fim do dia - mais tempo do que a distância faria supor. Me trouxe um presente, um livro, que me deu sorrindo, um sorriso que até então eu não tinha visto. Me dei conta do tempo que fazia que eu não lia um livro, não comprava um disco, não mudava de canal.

- Tu merece mais que um presente, tu merece mudar de vida.

Não tive tempo de ficar surpreso: ela disse a frase e me beijou na boca, longa e avidamente. Conduziu tudo. Me levou à minha cama, tosca, estreita, e, no meu colchão de palha, me comeu. Comandante. Entregue. Incansável. Brusca. Amante. Dormi quase apaixonado.

Acordei com murros na porta. Ela não estava mais ao meu lado. Murros na porta por que, se eu já havia entregue tudo, inclusive eu mesmo? Mais murros na porta. Levantei, nu, e abri. Era um destacamento da Brigada Militar, com todos os seus coletes e valentes.

Saí algemado. Ao passar pela casa grande, a vi. Ela olhou bem para mim, desceu os degraus do terraço e veio em minha direção, sorrindo:

- O amor é lindo, mas se é demais, é muito perigoso. Tu entende, não é?

É, eu entendia.



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10.3.04

Riso (parte 1)

Não há frase mais detestável em português do Brasil do que "O amor é lindo". Dita a sério, é de uma miséria centro-africana. Dita como ironia, é um degrau mais pobre: além de ser um clichê ululante, tem a insídia dos covardes porque ironiza o que já é esfarrapado. Bate em cachorro morto.

O amor é lindo, o amor é lindo, o amor é lindo - lá vinha ela de novo. Ria depois, três fragmentos de gargalhada, reh, reh, reh, ai-ai. Gorda, embora lépida, achava que era dona do mundo. Era mesmo, pelo menos do meu. Toda de branco. Vagabundo, suado, mas branco.

- Que foi, tá com cara de banana verde?
- Não, eu só estava com o pensamento longe.
- Em São Paulo, não é? Esquece, tu não volta para lá nunca mais, queimaste as ponte.
- Não, não, coisa de trabalho, daqui mesmo, coisa pequena.
- Então te anima, que o trabalho sai mais bem feito.
- Está tudo bem.
- Isso, ânimo. O amor é lindo! Reh, reh, reh, ai-ai.

Eu tinha me transformado em um cão sarnento, adotado por aquela mulher. Ela deveria ter sido apenas um bom esconderijo, temporário, quando eu saí às pressas de São Paulo, com metade da polícia de lá atrás de mim. Era um antigo caso do Pelanca, vinte anos antes, quando ela ia gastar em São Paulo sua parte no dinheiro que a fazenda dava, tempo do marido corno ainda vivo. "Se for para o sul e precisar, bata lá e fale de mim", dizia sempre o Pelanca, amigo velho da Vila Buarque, pecuarista à sua maneira, a criar seu rebanho de putas. Jamais achei que precisaria. Afinal, andava por cima da carne seca, advogando para uma turma forte, conectada a oeste na Colômbia, a leste na Nigéria, ao norte em Bangu 1 e ao sul na banca do Uruguai. Eu podia tudo, ganhava uma grana preta - risco paga bem -, acordei onipotente. No trabalho, testava com descaramento crescente os limites da lei e, mais ainda, os de seus agentes, tão fáceis de conduzir, tão baratos. Na vida pessoal, noturna sempre, me dedicava aos três bês: bebida, boceta e baralho. Ganhava o suficiente para que sobrassem todo dia. Me custavam o orçamento de três famílias - sem a aporrinhação, era barato.

- Tu é um homem datado, um personagem.
- Por favor.
- Vi tua mala, teus terno, tu te esqueceu de passar o ano, paraste lá por mil novecentos e setenta, setenta e dois.
- Você mexeu na minha mala. Por favor.
- Alguém precisava mexer antes das traça e dos rato. Camisa de voal preta. Tu levava as boate do Pelanca a sério, não é? Enterraste quanto por lá? Real não, dólar: quanto?
- Isso agora não interessa. Por favor.
- Tu é bastante educado no por favor, te falta um pouco no obrigado, tu não acha?
- Eu faço meu trabalho para você, quando eu cheguei, você nem sabia o que tinha e o que gastava. Não está melhor?
- Com o que tenho? Tá igual: uma bosta. Tu era amigo do Pelanca?
- Era. Acho que era.
- Que homem. Nunca vi igual. E olha que era feio. Tu é bonito, já tentaste ser homem?
- Olha aqui...
- Reh, reh, reh, ai-ai. Te amansa, que o amor é lindo.
- Obrigado pelo bonito.
- Reh, reh, ei! Tome tenência, sai, sai!
- Você nunca tinha dito que me achava bonito.
- Pera lá, eu te chamei de veado, tu não viu? Sai pra lá.
- Eu entendi a piada, mas eu quero que você pense em mim de um jeito diferente.
- Penso que tu precisa ir dormir. Vai, me deixa.

(continua)




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8.3.04

Sobre o bjokês

Sigo aqui um debate que começou no Catarro Verde:

"(...) Lá vai o texto do email. É sobre um comentário que deixei no blog dela:

'Ai, segiu, vlw pelu comentariu lah nu mew blog!!! adorei!! essi tp di gnti naum presta msm!! mol pata, meew, mas fmz!!! tp ki eu fui lah nu seu blog pah respondr, mas naum dava pah comentah i eu resolvi eskrevr msm!!! boum, intom eh ixu!! vlw msm tah??? seu blog tah mt loko, kra!! tah mt td!! intom axu ki eh ixu!! bjinhusss da olivia'

Alguém aí não entendeu? Ora, trate de usar os neurônios. E observe como a Olivia sabe colocar as vírgulas no devido lugar. Olha o vocativo perfeito. Coisa rara hoje em dia. Vão dizer que ela não domina o Português? Uma porra."
Sergio Faria...9:10 PM

e continuou o debate no Observador, do Fernando Cals:

"DISCORDANDO DO SERJONES

"O texto (???!!!) abaixo foi enviado ao Sérgio Faria, do Catarro Verde que o publicou e defendeu essa nova linguagem, oriunda dos chats da Internet, como algo válido.
Diz o prezado que o texto está correto, do ponto de vista da pontuação, virgulas bem colocadas, vocativos, e que a linguagem (???!!!) pode ser o início de um novo idioma.
"Eis o texto:
'Ai, segiu, vlw pelu comentariu lah nu mew blog!!! adorei!! essi tp di gnti naum presta msm!! mol pata, meew, mas fmz!!! tp ki eu fui lah nu seu blog pah respondr, mas naum dava pah comentah i eu resolvi eskrevr msm!!! boum, intom eh ixu!! vlw msm tah??? seu blog tah mt loko, kra!! tah mt td!! intom axu ki eh ixu!! bjinhusss da olivia'

"Esforço-me pra entrar na onda, mas não consigo! Na verdade, nem quero.
Dessa coisa, TÔ FORA, MEU ÍDOLO!!!"

Por ser freqüentador e apreciador dos dois sítios, vi os posts logo que saíram. Acredite quem quiser, consegui concordar com os dois. Ora, direis, mineirice da porra. Pode ser, mas vamos ver.

Concordo com Fernando pelo gosto - eu também tenho uma repulsa primária por esse táti-bitáti grafado que é o bjokês. Não gosto, como não gosto das pixações que emporcalham a minha São Paulo cada vez menos minha ou cada vez mais de outro alguém. Fernando e eu temos a arquitetura em comum, ele mestre, eu rábula, o que levado à palavra, nos faz gostar de coisas como fundamento, equilíbrio, lógica, estética. Mas também de evoluções, revoluções, balanços, espirais. Só que tudo com fundamento.

E é por isso que eu também concordo com o Sérgio Faria, que fundamenta como poucos - ainda outro dia postou um comentário irretocável sobre a arquitetura da Avenida Paulista e as "enfeitações" de dona Marta por ali. Ao ler o referido texto em bjokês, nota-se, de fato, depois do primeiro estranhamento, domínio dos fundamentos da estrutura da língua e de seu escrever. Só que com uma radical interferência ortográfica ou lexical, não sei bem, alguém me socorra. A pessoa que escreve, Olívia, parece saber o que fala - mesmo que o que fale doa em nossos ouvidos. Parece haver uma intevenção deliberada em algo que se domina. Portanto, criação.

Se vai ser literatura ou arte um dia, não sei. Mas lembremos das fraturas criativas de Joyce, e.e. cummings ou José Agripino de Paula. Nas primeiras páginas dos livros de Guimarães Rosa, o editor se eximia da culpa sobre o português escrito ali. Gosto de lembrar também do Keith Harring e do Basquiat, extremos da pintura nascida da pixação-lixo.

Para mim, o bjokês parece mesmo ser lixo ou brinquedo. Mas o piano também era brinquedo. E o Zé Agripino de Paula também era lixo. Vamos esperar o bixo q dah.



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3.3.04

(Continuação do texto de ontem. Se você não esteve por aqui ontem, leia, antes deste texto, aquele imediatamente abaixo)

Saúde (parte 2)

Decidi dar asas a minha vocação de empreendedor, aquilo estava no sangue. Havia uma parte da herança de mamãe que me cabia, e resolvi usá-la para montar o meu negócio. Muitos negócios, aliás, coisa grande. Rinque de patinação, loja de roupa masculina, pré-escola bilíngüe, spa. Em cada empreitada, eu punha todo o meu talento e uma fatia larga da herança.

Depois que fechei o boliche, nao havia muito mais o que fazer. Papai me recebeu com um sorriso de humilhante compreensão. "Você pode começar de onde parou. Onde foi mesmo?", tripudiou. E eu voltei a sua órbita. Tinha um cargo figurativo, diretor de relações internacionais. Como ele tocava de fato as tais relações internacionais, eu era pouco mais do que uma secretária bilíngüe a fazer ligações, imprimir e-mails e passar recados para lá e para cá.

No dia em que ele me chamou para falar sobre saúde, gastou meia hora espinafrando meu excesso de peso. Sé depois me contou que estava nas últimas. Não parecia, o que foi mais assustador. Sua severidade ao me dizer exatamente o que eu deveria fazer como seu único herdeiro - "é o que temos" - para não pôr tudo a perder era a de um homem são, quase um atleta. "Deixe tudo na mão do Amaral, delegue a ele toda a gestão do escritório. Pegue seu pró-labore no fim do mês e suma até o mês seguinte. Para o seu bem, não destrua o que eu construí. Usufrua, já não é bom assim?"

Tia Célia precisava de mais um estoque hospitalar da farmácia. Eu sabia o que isso significava. Ao voltar com o imenso pacote, ela veio com a notícia inevitável. Eu quis
sumir, quis virar uma mosca e voar pela janela. Fechei os olhos por alguns segundos, depois encarei a tia prestativa e fui direto como nunca: "Tia Célia, sou inútil aqui, não sei o que fazer além de ficar paralisado. Sou mais útil em casa, no escritório, no arquivo morto, em qualquer outro lugar fora daqui". "Meu filho, vá para casa, eu providencio tudo".

Não fui. Fui direto ao escritório. Fiz questão de comunicar pessoalmente a morte do patriarca. Sentia-me leve o suficiente para isso, talvez aliviado por não ter de lidar com a dura realidade da burocracia post-mortem, os atestados, as opções de caixão, a roupa do defunto - "ele adoraria esta gravata" -, o estado do túmulo da família, as eventuais exumações.

Leve, comuniquei primeiro a velha secretária, que não conteve umas poucas lágrimas, logo interrompidas por mim. Pedi a ela - não, não pedi, mandei, pela primeira vez em minha vida, mandei, ordenei - ordenei a ela que chamasse os quatro diretores da empresa, os braços direitos de papai, o Amaral à frente. Não chegaram a se sentar. Rapidamente, comuniquei-lhes a morte do chefe e a demissão dos quatro - o Amaral à frente. Ato contínuo, chamei os jovens advogados que de fato tocavam o escritório. Gastei algumas horas de conversa com eles, primeiro em grupo, depois, conforme o caso, individualmente. Antes do início do velório de papai, havia enterrado sua empresa e começado a minha. Burguês morto, burguês posto.

Deixei para depois da missa de sétimo dia a comunicação à velha secretária de que ela estava se aposentando. A primeira tarefa de sua linda sucessora de um metro e oitenta - e trilíngüe - foi avisar sua colega que trabalhava no maior cliente da casa que seus chefes precisavam conversar. Em um mês, eu havia perdido um terço dos clientes. Os dois terços que ficaram aceitaram pagar de trinta a oitenta por cento a mais por nossos serviços. A receita da empresa cresceu uns vinte por cento, praticamente sem custo adicional.

Na missa de um ano da morte de papai, fiquei no último banco da pequena igreja. Queria apenas lhe dizer alô, não suportava as pessoas que estavam ali para me cumprimentar. Queria lhe contar que, em um ano, eu havia construído o império que ele tanto cobiçara a vida toda. Queria, sobretudo, lembrar que o império era meu. O dele não existia mais. Eu sabia - e tinha um gosto especial por isso - que ele não gostaria das novidades. Mas onde quer que ele estivesse, sabia também que que eu tampouco gostava. Eu queria apenas comprar doces e remédios para tia Célia. Quem sabe algumas revistas. Exatamente como ele queria que eu fizesse.



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2.3.04

Saúde

Adorei quando tia Célia me apresentou uma lista de compras que me levaria à farmácia e ao supermercado, duas ou três horas de afastamento da cena bem levada da agonia. O velho hospital tinha um novo estacionamento. Faixas amarelas recém-pintadas sobre o asfalto, placas anunciando a comodidade do Health Park, iglus amarelos com cobradores gelados e implacáveis dedilhando assépticos computadores. Para sair a pé, como eu, era necessário seguir o percurso dos carros, tudo pelo remodelamento que a empresa concessionária havia imposto à área externa do hospital para obter o maior número de vagas. Quase não havia calçadas, os antes generosos canteiros haviam sumido.

Saí a pé dali e fiz questão de passar ao lado da guarita-iglu e fazer uma reverência ao cobrador. Tia Célia me pedia um rol de disparidades, uma gincana. Da farmácia, uma lista digna de um episódio inteiro de E.R., talvez faltando só o desfibrilador. Do supermercado, as coisinhas para atender às visitas poderiam echer a pâtisserie do Fasano e uma geladeira grande da confeitaria Nova Carinhosa. No fundo, tia Célia queria me afastar. Puro carinho.

Voltei quase duas horas depois. Badulaques, guloseimas e revistas, muitas revistas, artigo de primeira necessidade em lugar onde se espera. É preciso receber bem quem nos vem velar. Tia Célia aprovou tudo, me fez um afago e, é claro, seus olhos me comunicaram novos problemas. Rins, mais pulmões, havia ali um quadro que que não ia evoluir para alta. Eu achava que tinha voltado fora de hora. A fronteira estava na frente e eu não sabia cruzar. Nunca soube, de fato. Foi sempre difícil para mim passar de um estágio para outro na vida, decidir o que ser, o que querer, o que rejeitar. Na dúvida, valia o que ele mandasse. "Imagine, corte esse cabelo". "Futebol? Meu filho, você é o tipo acabado de um jogador de vôlei". "O melhor jeito de ser o que quiser na vida é ser advogado". "Se eu fosse você, passava um ano nos Estados Unidos. Thunderbird: é fácil e lhe dá amigos valiosos e um diploma".

Quando voltei dos Estados Unidos, com uma extensão no Arizona, sem ter passado antes pelo exame da Ordem, fiz o que um rábula com inglês fluente podia fazer: fui trabalhar com ele. Ou melhor, para ele, porque poucas vezes o vi no tempo em que fiquei na empresa. Ele mesmo evitava. Tinha vergonha, acho. Já mamãe, conciliadora, dizia que ele queria me preservar, daí a distância. A mesma distância qua a fazia sofrer e que, tenho certeza, ajudou-a a definhar.

Depois que mamãe morreu, nossa relação foi azedando e, em poucos meses, eu saí de casa, alegando que já era hora, que era algo natural, nada contra ele. Disse-me apenas que finalmente eu havia saído da barra da saia de mamãe - pena que, no caso, o mérito era dela. "Que Deus a tenha".

Usei meu nome - que era dele - para fazer alguns negócios. Era o cacife que eu tinha e me serviu para começar uma carreira. Empreguei-me como corretor de imóveis em um dos melhores escritórios da cidade. Tudo teria ido muito bem se não fosse uma sucessão de circunstâncias desfavoráveis que acabaram minando meus planos para aquele lugar. A primeira é que ninguém ali queria ouvir meus planos. A segunda era a insistência com que me sabatinavam sobre a capacidade de compra dos amigos de papai. Aquilo não era lugar para mim.

(continua)



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1.3.04

Democraticamente decidido, então. A partir de amanhã, às 13h, primeira parte do primeiro inédito do ano.



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