dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
27.2.04
Pronto! Pari. O primeiro conto de 2004 está devidamente escrito. Ele tem mais ou menos o dobro do tamanho (um pouco menos) dos contos de sempre, o que, se dá mais espaço para tratar as situações, corre o risco de ficar um pouco inadequado para o meio internet. Daí a dúvida: publico tudo de uma vez, sob o risco de enfastiar o querido leitor e afastá-lo definitivamente deste espaço? Ou divido em dois capítulos, um saindo na segunda-feira e o outro na terça? Não há uma trama que gere suspense na passagem do capítulo 1 para o 2, portanto, a divisão será meramente aritmética. Você, querido leitor destas maltraçadas, tem algo a sugerir? Publico tudo de uma vez ou divido em duas? Insisto nas maltraçadas ou desisto e monto um site de piadas? Opiniões por favor. 16.2.04
Cosecha O capacho felpudo na porta da importadora tinha uma beiradinha levantada. O suficiente para que eu e a sacola com quatro garrafas de Don Melchór nos estatelássemos no chão. Don Melchór 96. Que vontade de chorar. Tinha prometido ao pai de Vera que levaria os vinhos. Agora, estava ali, atrasado, aturdido e observado por uma dezena de sádicos com suas sacolas intactas na mão. O chão parecia o oceano de Moby Dick tingido de sangue. Rapidamente apareceu um funcionário, com seu avental listradinho, solícito. Tentou ajudar-me a levantar, o que acabou de me matar de vergonha. A loja era chique e eles também não deviam se sentir bem com aquela cena. Problema deles. Em pé, comecei a recobrar a confiança. Pedi o gerente. Não estava. Quem, então, responderia pelo prejuízo? "Olhe, moço, o senhor caiu já do lado de fora", defendeu o rapaz. Argumentei que não teria caído se o imenso capacho estivesse esticado. "Olhe, moço, desculpe, o senhor não teria caído se olhasse onde pisa." Que sujeitinho atrevido. Pedi o seu superior imediato, já que o gerente não estava. "Olhe, moço, quando não está o seu Osvaldo, fica o seu Chico. Só que hoje não veio nenhum dos dois, então não tem superior hoje não." Mas alguém teria de assumir o prejuízo. "Olhe, moço, acho que é o senhor mesmo, o vinho que o senhor derrubou era seu, era não?" Crueza. E eu atrasado no plano de fazer sucesso com o pai de Vera. O rei da pontualidade. O chato de galocha. O entendido de vinhos. Ponderei ainda que tudo tinha começado por uma falha da casa, o capacho mal colocado. "Moço, a gente coloca o capacho assim todo dia e nunca que caiu ninguém." Nunca que caiu. No seu português particular, ele dizia que nunca que eles iam me devolver o vinho derramado. Aquilo não ia andar e eu já estava mais de meia hora atrasado para o almoço, além de falido na conta corrente, depois de quatro Don Melchór 96. Só tinha um jeito: voltar lá e comprar quatro argentinos baratinhos e tentar levar o velho no bico. Entre os argentinos, havia um de seis reais a garrafa, Marqués de qualquer coisa. Comprei quatro. Já estava uma hora atrasado. Senti um certo desprezo da moça do caixa ao registrar os meus vinhos. A essa hora, Vera já devia estar me matando à distância. Uma hora e quinze de atraso. Entrei com a majestosa sacola na mão, as quatro garrafas dentro. O pai de Vera não perdoou: "A sacola é bacana, mas o vinho deve ser o Marqués de qualquer coisa", brincou, para meu desespero. Sacola na mão, foi decidido em direção à cozinha e, na presença de todos os meus santos, escorregou no ladrilho e caiu de costas, inundando a cozinha com o vinho vagabundo. As empregadas em segundos limparam tudo, a mãe de Vera prestou um socorro rápido ao chato e em menos de dez minutos, tudo estava restabelecido. A começar por minha reputação. Já com roupa trocada, o velho lamentou. "Que pena. Deu ainda para sentir o bouquet do Don Melchór. Inconfundível." Não pude deixar de consolá-lo: "Não se preocupe, de onde saiu isso tem muito mais. Não sei se 96." 10.2.04
Estou nos finalmentes de um conto que, por diversos motivos, entre eles o de ser mais longo, está demorando a sair. Enquanto isso, resolvi contrariar meus hábitos e publicar uma reprise, um textínho versando sobre o uso da língua. Talvez eu volte ao tema ainda mais uma vez. Voilà: Um termo de posse De tempos em tempos, aparece na língua portuguesa falada no Brasil uma novidade qualquer que se espalha como doença e se afirma como verdade incontestável. Foi assim com a abolição do risco de vida e sua canhestra substituição pelo esquisitíssimo "risco de morte", foi assim com a entrega a domicílio que, de uma hora para a outra, virou "em domicílio". Ninguém mais espera, todo mundo "aguarda", ao obrigado não segue mais o de nada, mas um enfeitado "por nada". A última onda, agora, é a progressiva extinção do verbo ter. Sim, cada vez menos se usa ter, substituindo o tão básico verbo por "possuir". Este caso é mais sério, porque, a rigor, ter e possuir não são exatamente sinônimos, se considerarmos o campo semântico de cada um, mais amplo no ter, mais restrito no possuir. Possuir é ter posse de, ter é ter. No entanto, na linguagem escrita que o computador recolocou em pauta, quase todo ter vira "possuir". Assim, lemos que "fulano não possui filhos", "beltrana não possui o direito a férias", "é preciso possuir cargo de confiança" e assim por diante. É quase sempre impossível determinar de onde vêm estas ondas. A Folha de S.Paulo mudou unilateramente a regência do verbo assistir, e embarcou rapidamente na onda do "risco de morte", ajudando muito a difundi-la. Mas esta não é a regra. Na verdade, estas ondas revisionistas parecem ter a mesma origem dos boatos, produto industrial mais farto e eficiente desta nação. Alguém corrige alguém que corrige mais dois alguéns em um elevador cheio e aí, a novidade grassa. Não sei não, mas não colocaria minhas fichas na sobrevivência de duas corriqueiras expressões: a simpática e cortês "pois não" e a azeda e quase irônica "pois sim". Os implacáveis corretores da língua não suportarão por muito tempo tal contradição. Acredito que antes da década de 20 deste século, pois não terá sido substituído por alguma excrescência como "pois claro", "pois sempre" ou qualquer empolamento equivalente. Antes disso, veremos cenas como a do malandro que, colocado na parede pelo delegado, contraporá: "Imagina, doutor, eu não possuo nada a ver com isso, não". Salve-se quem puder. |