dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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27.1.04

Mini 22

Veio de Minas cedo, querendo pouco, qualquer ordenadinho minguado - sendo todo mês, era boa a conta. Tem sempre um tio para os primeiros dias, uma vaga de contínuo no mês seguinte e uma pensão, ajeitadas as coisas. Para o ano, ajudar o guarda-livros. Mais um tanto, cair nas graças de um gerente. Pela noite, escola de contar em livros pretos. Vai assim o trajeto vira romance, ficam as vitórias e as tragédias, apagam-se a chatice e a rotina, o ajudante agora é vice-presidente. No meio do caminho tinha um casamento, tinha filhos do meio do caminho: o agora roqueiro, o desde-pequenino veado e a sucessora. Não parecia o desfecho mais cartesiano para uma epopéia, tinha um pequeno desvio na curva. Mas pondo na ponta do lápis, dava um saldo sem parênteses.



22.1.04

Eu mesmo me surpreendo ao abrir o Dito Assim e ver tão pouco texto novo, em comparação ao que havia aqui até um mês atrás. Janeirite, talvez. Sempre usei esta palavra para designar a moléstia que, nesta época do ano, acomete garçons, guardas, caixas, todos aparentando ser vítimas de de alguma espécie de mosca tsé-tsé.

Pode também ser pura preguiça. Mas eu sou um preguiçoso com foco, o Dito Assim não faz parte do meu campo abaianado, dedico-me coreanamente a ele. Passa-me pela cabeça uma explicação mais plausível: o Dito Assim entrou no maravilhoso mundo das férias. Sim, férias. Não, não fui a Bertioga nem à Disneylandia; não saí de São Paulo. São Paulo é que saiu de mim: as filhas foram aproveitar o mês no interior, o trabalho é intenso e novo, mudanças nos afetos, no domicílio e mesmo em alguns conceitos.

Duas palavras em nossa língua traduzem tudo isso: caos e férias. Como eu prefiro a segunda, sem necessariamente abandonar a primeira, voilà: o que se passa é que tirei férias sem perceber.

E o que fiz nestas férias? Além de perder o emprego, trombei com a possibilidade de ler mais. Isso, sei, tira um pouco da agilidade e produtividade (pelo menos aparente) deste Dito Assim. Mas devolve - ah, sim: devolve. Para começar, devolveu Sagarana. Guimarães Rosa é de se lembrar sempre, meio assim: "Menino Jayme, se você acha que escreve, passa lá em Sagarana para ver o que é bom".

Nestas férias do Dito Assim, passei pelos livros, acho que busquei cimento e areia para juntar meus blocos novos, para assentá-los com liga boa. O problema das férias é voltar. Ainda mais quando Rosa deixa de ser fruição e se coloca como uma inatingível possibilidade de ser influência. Ô: difícil.



19.1.04

Mini 21

"Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança." O melhor começo que eu já li. Poe. Me inspirou meios diversos, de crueldade vária. Miolos de redenção, vendetas românticas, justiças cabais. Mas, ao cabo, ao fim, o melhor que consegui foi: "Não tive filhos, não trasmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria". Implacável Machado.



15.1.04

Mini 20

Era tudo uma farsa, mas ia-se levando. Eu fingia que era rico, ela se fazia de bonita. Brindávamos com água tônica, degustávamos salsicha. Chegamos a discutir literatura, dissecando José Mauro Vasconcelos e Paulo Coelho. Falávamos de museus, viagens e emoções - tudo em fascículos. Gemíamos juntos, como mandava a Marie Claire. Nunca sofremos. Tudo terminou quando, no mesmo dia, ela foi conquistada por um amante e, ato contínuo, me pediu um carro novo.



14.1.04

Minis, estava com saudade de escrevê-los.




Mini 19

Ela sabia de tudo. Colecionava gravações telefônicas e planos de vingança. "Ele me paga" era o seu mantra. Ele e as rameiras, com seus risinhos cheios de umidade e aromas. Gravava tudo. Todos os dias acrescentava fartos minutos de traição à sua caixa de fitas. Já estava faltando espaço para esconder tantas. Já estava faltando tempo para ouvi-las todas. Ainda bem que o marido fazia hora extra - mentiroso, pulha -, sobrava mais tempo para ouvir os sussurrinhos, os risinhos, as gargalhadas depois de uma frase licenciosa. Fala mais, rameira, fala mais.



10.1.04

Como vocês podem notar, já dura uma semana o "Derme" como conto mais recente. Pois é, eu estou em um momento em que juntam-se mudanças diversas em minha vida a uma evolução que eu quero imprimir a esses textos. Tudo isso em janeiro. Portanto, tenham um pouco de paciência com este escriba em formação e aproveitem para me dar alguns palpites. Um ponto importante: estou imaginando colocar contos mais longos por aqui. Há duas maneiras: simplesmente publicá-los inteiros, a intervalos maiores do que os que eu vinha praticando, ou fazê-los como folhetins, em capítulos. Um capítulo a cada dois dias, por exemplo, ou mesmo um capítulo diário. Por favor, emitam suas opiniões. Eu, deste lado da tela, estarei decidindo o que fazer.



3.1.04

Derme

- Não, não faz o menor sentido.
- Mas doutor, a medicina tem avançado tanto, será que uma cirurgia como essa é tão difícil assim? Já se faz transplante de coração e pulmão, já se faz homem virar mulher, já se faz até transplante de rosto. Eu não estou pedindo para virar o Robert Redford, eu só quero voltar a ser eu mesmo.
- Mas você não entende...
- Não, doutor, se eu entendesse não estaria aqui. Quem entende é o senhor, é por isso que eu estou nesta sala lhe pedindo uma solução.
- Mas é uma coisa, me perdoe, sem muito cabimento, eu não sei por que tanto sacrifício.
- Doutor, eu já lhe contei.
- Mas não me convence.
- Está bem, vou lhe contar outra vez.

"Nem preciso descrever minha família, o senhor a conhece desde antes de eu nascer. Talvez não conheça detalhes. O fato de eu ser o terceiro filho me dava uma sensação ambígua de liberdade e abandono. É assim em família de médico: o primogênito já nasce médico, da mesma especialidade do pai; o segundo pode escolher outra especialidade; o terceiro - quem é o terceiro?

"Como ninguém prestava muita atenção em mim, enquanto meus irmãos se ocupavam das notas altas, encantando papai e mamãe com seus boletins e sua dedicação, eu brincava no piano de armário. Com o tempo, fui conseguindo imitar musiquinhas. Já na adolescência, tinha uma certa destreza no teclado que um e outro adulto chegaram a qualificar como talento, imagine.

"O fato é que cheguei aos 17 anos tocando razoavelmente, mas com uma avaliação generosa dos meus amigos. E, vale dizer, das minhas amigas também. O senhor sabe como são as meninas quando fazem uma avaliação generosa: em pouco tempo, eu tive de enfrentar a situação terrível de revelar meu segredo mais íntimo: a pinta.

"Aquilo era indisfarçável, qualquer relação que evoluísse à intimidade me obrigaria a mostrá-la. A pinta ocupava, o senhor sabe, algo como vinte e cinco por dez centímetros. Muito escura. E peluda, fartamente peluda. Dona do lado direito da minha coxa direita.

"Com isso, retardei o quanto pude - e como era sofrido, que tortura -, retardei ao máximo minha primeira relação sexual. Foi uma experiência terrível, eu já namorava há uns três ou quatro meses, ela era um ano mais velha, a lógica era que a gente já tivesse ido para a cama. Uma noite, não deu para evitar. Estávamos na casa de uns amigos dela, tudo como manda o figurino, um quarto vago, um clima. Acabei fazendo sem tirar as calças, um horror. Ela me achou um animal, mas o que teria achado se tivesse visto ou tocado aquela coisa peluda?

"Com o tempo, e a muito custo, fui permitindo que vissem. Mas eu ficava para morrer. Não conseguia ir para a cama mais do que três ou quatro vezes com a mesma mulher, a vergonha ia crescendo, ficava insuportável e eu então dispensava a moça - com algumas delas, eu teria mesmo me casado, não fosse pela pinta.

"Ganhei fama de Don Juan. Isso gerou ódios, tanto das mulheres que eu deixava, como dos homens que as desejavam, mas também gerou fascínio. Parecia que, para cada namorada que eu deixava, apareciam quatro ou cinco novas interessadas.

"A sensação de carregar a pinta era cada vez mais insuportável, e se agravava com uma reação comum entre as mulheres: elas queriam me fazer acreditar que aquela coisa horrenda as excitava. Faziam carinhos nos pelos, gemiam olhando para aquilo, falsas, falsas, falsas.

"Foi por essa época que eu me lembrei do senhor, o amigo da família, a referência em dermatologia, o profissional ético e discreto. Quando eu vim aqui pela primeira vez, havia uma razão a mais, o senhor sabe: ela, que era a mais encantadora das mulheres deste mundo, eu não podia perdê-la - e não podia tê-la enquanto tivesse aquela deformidade horrorosa.

"Sim, o senhor me atendeu muito bem, muito rápido e com muita discrição. Eu menti a ela, disse que ia tirar um fibroma, mas que a primeira coisa que faria depois da alta era levá-la para jantar. Fizemos a operação, o senhor se lembra da minha alegria quando vi pela primeira vez a perna sem o pelame, livre daquele negrume, apenas com a cicatriz que, mesmo grande, me parecia um sinalzinho, perto do que havia antes no lugar.

"Uma semana depois da alta, liguei. Combinamos sair dali a dois dias. Eu estava exultante, mal podia esperar. Na noite combinada, lá estava eu, todo arrumado, perfumado, quinze minutos adiantado - eu, que sempre me atrasava para qualquer encontro. Quando ela chegou, quase uma hora depois, a recebi como uma rainha, servi o champagne, beijei-lhe as mãos, derramei elogios e mesuras. Durante o jantar, contei detalhes da minha vida de músico, fingi modéstia e exagerei talentos. Ela riu muito, falou do quanto era bom estar ali, perguntou da cirurgia, apenas para ouvir mais uma mentirinha. Na sobremesa, já sabíamos onde a noite ia acabar - e eu havia reservado um quarto alto, dois degraus acima da minha conta bancária.

"Chegamos aos beijos, tinha mais champagne ao lado da cama, uma noite de sonhos. A primeira noite em que fiquei nu, na frente de uma mulher, sem nada a esconder. A primeira noite em que me deitei com uma mulher fria. Ela até que cumpriu a agenda da ocasião, mas eu nunca senti distância como aquela. Não fui capaz de entender, atribuí a ela o problema - não dizem por aí que uma em cada quatro mulheres é frígida?

"Mas o que veio depois é que todas as mulheres com que cheguei a ficar nu me trataram como uma nota falsa, me olharam com decepção ou desprezo. Demorei para entender que era a pinta, e não eu, o que as encantava. Eram os pelos repugnantes, o que as seduzia. Aquele pedaço de pele negra, cabeludo, quase independente de mim, intruso, era o que fazia a diferença. Não, ninguém me disse, eu percebi. Não sei se havia comentários, mas por que alguém diria qualquer coisa de bom sobre aquela pinta? Só o que eu sei é que preciso tê-la de volta."

- Você há de entender que não há como.
- Há, sim, precisa haver. Doutor, eu tenho ouvido falar de tanta coisa.

***

Johannesburgo, ... de ... de 20...

Meu caro Doutor,

Escrevo para contar-lhe em primeira mão as boas novas e, na medida do possível, saber de suas impressões. Estou muito entusiasmado com esta estada, abriram-se novos horizontes, ao que parece, para logo. Não há - e perdoe-me a franqueza - o excesso de pruridos que tanto retardou uma solução aí no Brasil.

Eles são muito criativos por aqui, não é à toa que o transplante de coração foi inventado nestas terras. Afinal, numa mistura entre África e Holanda, parece que tudo pode, que não existe pecado.

O médico que me recomendaram tem uma solução que me parece muito engenhosa e adequada, e que, embora não restitua toda a área de minha pinta, pode dar um aspecto semelhante. O que ele propõe é que eu implante, no lugar em que ficava a pinta original, uma secção de pele de uma doadora negra - o que devolveria a coloração do local - e de uma parte do corpo naturalmente rica em pelos - o púbis.

Eu acho que pode ser uma grande solução. Há uma doadora disposta a fazer o negócio (não é barato) e eu quero o quanto antes resgatar a minha pinta, ou ao menos parte dela.

O que o senhor acha? Por favor, me responda o mais breve que puder. Preciso ter certeza de que as peles são compatíveis, de que a pigmentação se mantém. Eles me dizem que os pelos crescem. Crescem?

Afetuosamente seu,





Feliz ano novo, com um certo atraso. Segue o primeiro de 2004.