dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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23.12.03

Maltraçadas

Estimado Desmond,

Antes de tudo, peço-te desculpas por não ter respondido antes. Confesso que demorei a lembrar-me de ti, tu sabes, são tantos anos, tantos amigos de quem já nem se ouve mais falar. Aliás, quero desde logo agradecer tua imensa gentileza, imagina, lembrares de mim depois de tantos anos e ainda com o intuito de ajudar-me. Fiquei mesmo sensibilizada. Desde que recebi tua carta - aliás, muito bem escrita e que fineza, o papel - tenho pensado seriamente no que dizes ali sobre a necessidade de sermos previdentes, de pensarmos no amanhã, mesmo tendo eu tão poucos amanhãs pela frente. Sabes, eu não me lembrava de tua veia poética, é linda a maneira como falas do envelhecer, um assunto que sempre me incomodou e, no entanto, em tuas palavras, chega a parecer ameno.

Desculpa-me a cabeça dura, mas não consegui, aqui e ali, alcançar teus pensamentos, pelo que peço-te a paciência de mos explicar melhor. Não precisas ir a minúcias, mas interessa-me saber, de forma geral, o que queres dizer quando te referes à generosa quantia a que farei jus se proceder como descreveste- de forma muito detalhada, devo observar, sendo que as dúvidas que me aparecem são causadas por minhas limitações, muito mais do que por tuas ponderadas palavras. Reparei que tiveste até o cuidado de remeter o folheto com as belas fotos, nem precisava, deve ser caro aquilo. Sim, eu quero muito receber esta dádiva, tu nem imaginas como tenho vivido, antes contando os tostões, agora nem os há mais para contar. Apenas um de meus netos, o Leozinho, lembras-te dele?, me dá alguma ajuda, mesmo assim uma vez por mês, isso quando não dá de falhar e ficar dois meses sem aparecer. Mas sempre que vem traz-me um mimo, chocolates, uma revista francesa, um bijou.

Como te disse, meu caro, a vida anda difícil e a tal Fast Rest a que te referes seria minha salvação. Sinto-me até envergonhada, ante tanta generosidade e desprendimento, de confessar que demorei quase uma semana, depois de receber tua carta, a tentar lembrar-me de tua fisionomia. Digo-te que até agora ainda paira a dúvida, que ninguém melhor do que tu pode dirimir: tu eras o campeão de natação, filho dos McCracken, ou este era teu irmão? Desculpe, são tantos anos. Espanta-me mesmo a idéia de que tenhas conseguido me encontrar. Deves ter tido uma trabalheira danada. Imagino que tenhas ido ao colégio, ao clube, deves ter encontrado algum de meus sobrinhos, quem sabe minha prima Amélia, tão bem relacionada, é que tenha te dado meu paradeiro. É o que eu digo, meu caro, sempre é tempo, quando achamos que a última das esperanças se esvaiu, lá vem a providência generosa dar-nos a mão. Desta vez, pela tua mão.

O que peço que me perdoes é a falta de jeito. Meu caro, não sabes como me sinto constrangida ao ter de te pedir algo ainda além da tábua de salvação com que me contemplaste. Peço-te que, já que foste tão generoso comigo, me faças um favor a mais: tenho pressa, meu caro, passo necessidades, será que podias me enviar a primeira parte desta prodigiosa previdência privada ainda antes do fim deste mês? Dar-me-ias o recurso para que eu comprasse algum alimento. Digo-te, meu amigo, vi que dizes, ao fim da carta, "ligue já", só não o fiz por que há dois meses não tenho mais o telefone, Leozinho disse que não poderia mais pagar a conta. Esta, envio-te à custa de dois selinhos que ainda encontrei no fundo da gaveta da escrivaninha. Os últimos.

Pois é, meu bom amigo, eu já me via sem saída alguma, mas, em meio da agrura, apareceste e agora sinto-me renovada. Sou eternamente grata por teres lembrado desta amiga depois de tantos anos. Quem sabe podes, uma hora destas, vir cá para um chazinho. Será um imenso prazer rever-te.

Eternamente grata,

tua,

Eulália

P.S.: Se vieres, por favor, escreve avisando.




Antes do texto de hoje, vai aqui o feliz natal do Dito Assim a todos os seus pacientes leitores. Não, não pensem que estão livres de mim em 2003.



19.12.03

Bafejo

A jornalista saiu já depois das oito e meia. Ele serviu-se, então, de um uísque e sentou na poltrona de couro. Era muito raro beber no escritório, mais raro ainda, sozinho. Mas aquele dia havia sido excepcionalmente cansativo. Talvez por causa da entrevista. Ao longo de três horas, ele havia contado à editora da principal revista econômica do país uma história edificante, quase uma saga. Descrevera minuciosamente sua trajetória empresarial, que havia começado com um carrinho de cachorro-quente e havia chegado à Mad Dog, uma vasta rede que tinha mudado o conceito de fast-food no Mercosul. Contou as dificuldades do começo, as dúvidas, as decisões estratégicas exaustivamente projetadas, a visão de mercado que permitiu achar o caminho no labirinto da crise, o cuidado com os detalhes, a análise minuciosa da concorrência.

Porra nenhuma. A história toda era uma nota de 17 reais, invenção, lorota adocicada. Mas era o que ele precisava contar. Não podia expor ao continente que o seu sucesso tinha sido tão fácil como - para quem ganha - ganhar na loteria.

Tudo sempre tinha dado certo para ele, as coisas caíam-lhe no colo. É óbvio que sabia aproveitar as oportunidades e cometia poucos erros. Mas não fazia nada mais brilhante do que qualquer manualzinho de necócios poderia recomendar. Tinha tido o bafejo da sorte, com o bônus de ninguém saber. Tomou o segundo gole e se pôs a pensar no futuro, depois de ter quase inventado um passado para a jornalista. Queria sentir a emoção de realizar com suor, lágrimas e adrenalina de verdade.

Tomou o elevador mas parou no térreo. Dispensou o segurança, deixou o carro no subsolo e saiu a pé do prédio majestoso, que trazia o logotipo luminoso da Mad Dog no topo. Na beira da calçada, viu uma moto, uma 125, o motoqueiro esbaforido, parecia ter perdido alguma coisa, a última encomenda do dia.

- Posso ajudar?
- Ô, senhor, nada não, senhor.
- Amigo, você perdeu uma encomenda, não é?
- Ô, senhor, é sério.
- A moto é sua?
- É minha, tenho família, se eu não...
- Quanto vale?
- Como assim?
- Quanto vale a moto? Eu quero comprar a sua moto.
- Ô, senhor...

O garoto hesitou, resistiu à idéia de aceitar aquele cheque, àquela hora da noite. Mas ele veio valendo pelo menos o dobro do que valia a moto, acompanhado de uma nota de dez para o ônibus e o cartão de visita do maluco, com todos os seus telefones, para acertarem os detalhes depois.

Maluco, que bela condição. A moto pegou na terceira tentativa. O capacete não fazia parte do negócio, o baú, sim. Saiu pela Faria Lima iluminada, paletó e gravata, navegando a 125. Poucas vezes tinha tido tamanha sensação de alegria. Ainda mais porque conhecia vários dos habitantes dos carrões, que se espantavam ao vê-lo, sobretudo por causa do baú na traseira, com os logotipos Bad Boy e 89 FM.

Fez misérias, divertiu-se o quanto pôde, quase caiu, fechado por uma van, mas escapou e seguiu em frente. Ao chegar em casa, teve o que explicar. A mulher achou que ele tinha bebido mais do que a dose alegada, ainda mais depois que ele a abraçou e contou que descobrira o que estava faltando. Ela achava que não faltava quase nada, o que mais poderiam querer vindo de onde vinham?

- Vou começar tudo de novo.

É, ele tinha bebido demais.

- Não, não é o que você está pensando. Eu descobri que preciso de emoção. Preciso sentir medo, você me entende? Quando eu vi o motoqueiro lívido de medo por ter perdido a última encomenda, eu fiquei com inveja do medo que ele sentia. Eu não comprei a moto dele, comprei a capacidade dele de sentir medo.
- Mas meu amor, isso é um disparate.
- Não, disparate é a gente aqui nesse apartamento que é um palácio, cheio de seguranças, frescuras, objetos inúteis e caros, tudo ganho por pura sorte, rabo, largueza. Não, minha querida, eu devo alguma coisa a mim mesmo.

No dia seguinte, saiu cedo, depois de pedir um táxi e dispensar a segurança. Ligou para a secretária e avisou que só iria à tarde. Foi para o centro da cidade e gastou a manhã em compras. A mais demorada foi a de um capacete que lhe servisse bem. No casaco imitando couro, não gastou mais do que quinze minutos. A botinha de camurça falsa, os dois jeans, quatro camisetas com temas de rock and roll pirateados e um celular pré-pago completaram o figurino. Só ficou faltando o macacão de chuva. Voltou para casa, transformou-se no empresário bem-sucedido e, com motorista e segurança, reassumiu o escritório imponente. Ao chegar, deu um cartãozinho à secretária, com um número de telefone, sob o nome Expedito.

- Quando precisar de motoqueiro para entregas, chame o Expedito. O cara é ponta firme, vamos ajudar.

Daquele dia em diante, a secretária, apenas eventualmente, chamava o Expedito. Só para atender a recomendação do chefe. Afinal, ele demorava mais do que os outros serviços de entrega rápida que ela usava, às vezes levava quase uma hora para aparecer. O que ela achava mais estranho é que a voz ao telefone parecia muito conhecida. E, mania para lá de esquisita, ele aparecia para pegar as encomendas de capacete.

Um dia, ela chamou Expedito para levar umas flores à casa de um fornecedor. Em cinco minutos, apareceu um jovem uniformizado, com um casaco de nylon onde se lia "Expedito Express". Apresentou um cartão com o mesmo logotipo do casaco e explicou:

- Seu Expedito me mandou e disse que a senhora é prioridade absoluta.

Daquele dia em diante, a Expedito Express passou a ser sua primeira opção para entregas do que quer que fosse. Eram rápidos, simpáticos, eficientes, nem lembravam o Expedito original, que, aliás, tinha sumido. É mesmo, tinha esquecido de comentar com seu chefe a evolução do Expedito.

Ele, lá na sua sala, não parecia muito feliz. Havia um jornalista esperando, querendo saber das novidades. Mais uma vez, ele teria de inventar uma história, detestava fazer isso. Como contar que a Expedito Express iria comprar a filial brasileira da UPS? Teria de inventar mais uma epopéia para algo que era tão mais fácil. Ele tinha algo que não se conta a jornalistas. Ele tinha a porra da sorte. E o que mais queria, ele não tinha: medo.



17.12.03

Tela

Se dependesse de sua vontade, iria ao cinema todo dia. A sala escura, a tela grande, o som envolvente serviam para tingir sua alma, sempre tão desbotada. No cinema, sentia-se forte - como em Os Brutos Também Amam ou Missão Impossível -, justa - como em O Fugitivo ou O Sargento York -, alegre - como em Cantando na Chuva ou Os Reis do Iê-iê-iê. Sentia-se inteligente - como em Pânico nos Bastidores ou Luzes da Cidade -, importante - como em Doutor Fantástico ou Ralé -, impotente - como em O Corcunda de Notre Dame ou Filadélfia -, intrigada - como em Oito e Meio ou A Bela da Tarde.

Alguns filme, já tinha visto dezenas de vezes - Casablanca, E o Vento Levou -, outros, menos de uma vez - caso de Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela, trocado no começo da sessão por Billy The Kid, que passava na sala ao lado. Sentia-se mal com Lina Wertmuller e Glauber Rocha, sentia-se enganada por Jean-Luc Godard e recompensada por John Ford e Vincente Minelli. Venerava Akira Kurosawa, chorou nas quatro vezes em que viu Dodeskaden.

Se dependesse de sua vontade, iria ao cinema todo dia. No entanto, dependia da vontade da irmã. Bette Davis. Há cinco anos morava com ela, desde a morte do marido - James Stewart - que cuidava dela com o carinho que Spencer Tracy derramava em Katherine Hepburn e a edicação sem palavras que Lon Chaney devotava a Patsy Ruth Miller. Em cinco anos, a megera só a havia levado ao cinema uma dúzia de vezes, duas dúzias, talvez, e sempre a cinemas como o Bijou da Praça Roosevelt, baratos e com cópias velhas. Vazios, ela alegava. Argumentava que a cadeira de rodas era um fardo e qua as aposentadorias das duas não seriam suficientes para conciliar filmes e refeições. Sovina. Bette Davis. Cinco anos mais nova e ainda reclamava por ter de empurrar a cadeira de rodas. Não se conformava. Tudo piorou quando a megera cometeu o maior dos pecados. Foi num dia em que estava abandonada na sala e Bette Davis, depois de uma eternidade, apareceu sorridente, acompanhada de um
rapaz esquisito de macacão marron. Em poucos minutos ele tirou de uma grande caixa de papelão um aparelho preto e, ligeiro, juntou uns fios da engenhoca ao televisor e se foi, não sem antes receber uma gorjeta que podia comprar meio ingresso no Bijou.

Era o tal do videocassete. A malévola havia colocado na sala um videocassete. Havia aprisionado o cinema, pusera na solitária a arte maior. Isso não podia ficar assim.

No dia seguinte, a irmã trouxe cinco filmes, em dois sacos plásticos repugnantes como seu sorriso. Tirou-os e mostrou, como quem exibe uma cinta de codornas mortas. Não. Uma das caixinhas tinha Casablanca. Outra, E o Vento Levou. Mais uma, exibida com orgulho, Stage Fright, Pânico nos Bastidores. Baixou a cabeça, nem olhou para as outras duas. O que mais a incomodava era o sadismo da irmã cinco anos mais jovem, tinha certeza de que ela, quando sozinha em seu quarto, dava gargalhadas de bruxa. Naquela noite, após o jantar - será que Bette punha pílulas de arsênico em sua comida? - a bruxa conduziu a cadeira de rodas até a frente da TV e colocou Casablanca no videocassete. Isto feito, pôs-se a tirar a mesa devagar, sem notar que a irmã alcançava o telefone para, com dificuldade, discar 190. Não conseguiu dizer uma palavra, apenas emitiu alguns sons, era só o que conseguia naqueles dias. Conseguiu desligar antes que a irmã aparecesse.

A campainha tocou no momento em que Peter Lorre perdia a calma. Bette espiou pelo olho mágico e logo entendeu.

- Boa noite, policial.
- Boa noite, senhora, desculpe incomodar, mas é que houve outro chamado daqui. Está tudo bem?
- Tudo, policial, tudo. Desculpe minha irmã, desde o derrame já era difícil, depois que perdeu o marido...
- Entendo, mas...
- Eu sei, desculpe. Vou prestar mais atenção.

Trancou a porta, tentaria de novo fazer a irmã entender os problemas de uma casa com duas mulheres de mais de oitenta anos. Pôs a mão em seu ombro esquerdo, suave. Ia começar a falar, quando a tela foi mostrando a cena da Marselhesa, quando os soldados alemães entoam um hino nazista e suas vozes, então, são suplantadas pelo do hino francês, epicamente cantado por todos os demais fregueses do cabaré. As duas derramaram uma lágrima.



16.12.03

Permanente

"Que quer, Gareth?"
"Fui incumbido de descobrir quem fez a montagem".
Enquanto isso, um casal de vampiros, ele pálido, ela negra, aterrorizavam uma mocinha com ar virginal. As crianças, no quarto - a menor se chamava Julian -, cochichavam. O nome de Mario Van Peebles aparecia garrafal numa lista que terminava em Judd Nelson. Tudo então ficou azul, até que o japonês continuou sua explicação enquanto Geoge W. Bush discursava sob a legenda de ideogramas. Off.

Desligou a TV depois de ter zapeado por todos os canais três vezes pelo menos, entre a TV Cultura e os que ainda nem existiam, até se convencer de que não havia nada para ver. Nenhum programa de mestre-cuca, nada no canal de animais, nada, enfim. Abriu de novo o jornal. A charge da página 2 olhou para ele com cara de "você vem sempre aqui?" Já tinha lido tudo, menos os classificados. O vento bateu e chacoalhou o primeiro caderno. Quando entrava vento sul, entrava rápido, invadia a casa, já tinha até derrubado um abajur. Fechar a janela foi a atividade mais importante daquele domingo. Nove da noite. Cedo para dormir, cedo para o dia acabar, tarde para começar alguma coisa no domingo, que não fosse palavras cruzadas.

Detestava domingos. Mesmo aqueles em que conseguia esticar o namoro do sábado. Na verdade, era pior. Ele e o bofe dobravam o bode compartilhado e, se houvesse pizza no fim, nunca mais se veriam. Namoro bom era ou entre segunda e quinta ou para sempre. Como para sempre só havia no trenó de Papai Noel, procurava combinar seu calendário de balada com a semana real - das dez da manhã às sete da noite no salão de cabeleireiro ajaponesado onde trabalhava - e ter o menos possível de chuvas, trovoadas e ressacas inúteis.

Escolheu o CD do Yamandu Costa bem na hora em que tocou o telefone.

- Alô?
- Quem fala?
- Neco.
- Eu preciso do cheque.
- Como?
- O cheque, o cheque que eu dei na sexta-feira, trinta e três reais, eu sei que a dona o passou para você.

Lembrou-se vagamente do homem, cinqüentão passado, gordo e sovina, tinha deixado só três reais de gorjeta. A dona do salão, que de japonesa não tinha nada, era alagoana, volta e meia dava-lhe cheques de clientes para acertar pequenos débitos ou adiantamentos.

- Eu lhe dou cinqüenta reais pelo cheque, e não se fala mais nisso.

Topou e combinou um lugar para encontrar o sujeito, um bar na rua Augusta, perto da esquina com a Luís Coelho. Chegou rápido, domingo à noite não havia trânsito, foi só o tempo de achar um táxi. Esperou uns quinze minutos, até que o grandão chegou, carona de quem foi forte um dia, hoje era gordo daqueles que andam com as palmas da mão para trás e ofegam em vez de respirar. Logo entendeu quem deveria encontrar, o único ser sozinho por ali, e se aproximou.

- Neco?
- Eu mesmo.
- Posso?
- Por favor.

Sentou-se e logo pediu um conhaque duplo. Pediu para ver o cheque. Vivido, Neco pediu a nota na frente. O grandão tomou a primeira metade do conhaque em um gole, sorriu e lhe deu a nota. Ele entregou o cheque e ia sair, quando o outro, gentil, pediu que ficasse mais um pouco.

- Não gosto de beber sozinho.

Sentou-se, meio incomodado, e pediu uma cerveja ao garçom que trazia o segundo conhaque duplo. O homem começou a lhe contar da vida, já tinha morado no Oriente, tinha servido em São Domingos, conhecia a Europa Central, era amigo do irmão do embaixador na Polônia. Estava solteiro, depois que o quinto casamento havia terminado mal, coisa de dez anos atrás. Depois do quarto conhaque duplo, pediu a conta e ofereceu carona. O domingo parecia que finalmente ia acabar. Aceitou. O carro era apertado, um desses franceses feitos na Argentina. No caminho, percebeu que o Gordo nem tinha ouvido seu endereço, foi direto ao próprio apartamento e acabou convencendo-o a subir. Estava mesmo só, um cinqüentão carente poderia pelo menos propiciar uma noite divertida.

Ele virou a chave da porta e, antes de abri-la, deu um sorrisinho malicioso. Neco entrou antes. Na sala, além do sofá e duas poltronas velhas, havia uma cadeira pesada de madeira escura, com uma mulher amarrada e amordaçada nela. Seu olhar era de puro terror, difícil reconhecer naquele rosto a dona do salão de beleza. Seu domingo estava ficando muito diferente dos domingos de sempre. O grandão sorridente já exibia uma arma que, na sua mão, parecia de brinquedo. Deixou-se amarrar e amordaçar, não havia muito o que fazer. Enquanto enxugava uma outra garrafa de conhaque vagabundo, o paquiderme ia contando enrolado o que havia naquele cheque: um numerinho no verso. Um numerinho que ele anotara onde tinha sido possível. Um numerinho que ele havia esquecido ali quando deu aquele cheque para pagar o corte vagabundo de seu cabelo. Um numerinho que abriria um cofre na agência do Banco N. no paraíso fiscal de D. e o colocaria de novo nas grandes capitais do mundo. Tinha silenciador o tiro que entrou no meio da testa da pobrezinha aterrorizada. Comovido, o mastodonte, inexplicavelmente, continuou a conversar, lamentar-se, rir e beber, beber muito. No meio da segunda garrafa, sentou-se na poltrona rota e interrompeu a conversa no meio da palavra "porra". Fechou os olhos e dormiu.

Neco imediatamente recobrou a fé em todas as religiões que já tinha abandonado. Demorou meia hora para se desamarrar. Foi à cozinha, encontrou um saco de lixo, foi com ele até a sala e colocou como se fosse uma grande luva, que ia da mão direita até o ombro. Apanhou a arma e, sem nenhuma hesitação, atirou bem na têmpora direita do elefante, que desabou de lado. Colocou a pistola de volta na mão direita do grandão agora morto, e a corda que o havia prendido dentro do saco de lixo. Apanhou uns papéis no bolso do homem e devolveu a nota de cinqüenta. Limpou o quanto pôde a sala e a cozinha, mas sabia que ninguém iria atrás de digitais. Saiu, fechou a porta sem trancar - a chave deveria permanecer no bolso do hipopótamo morto - e só se sentiu aliviado quando ganhou a rua. Voltou a pé para casa, uma hora de caminhada. O saco com a corda ajudou a entupir uma boca de lobo no caminho. Em casa, ligou a TV e confirmou sua preferência pelas segundas-feiras. Se bem que aquele domingo havia sido bastante diferente.

No décimo aniversário do Sunday, sua rede de salões de cabeleireiro, Neco levou flores ao túmulo da ex-patroa. Tentou até o fim ajudar a polícia a descobrir alguma coisa, mas ninguém nunca havia ouvido falar do relacionamento entre ela e aquele homem misterioso que tinha tido um fim tão trágico. Mistérios do amor.





Assim é o espírito natalino. Contagiado pelo magnetismo de Papai Noel, escrevi um conto tão rastaqüera na noite de ontem que só mereceria ser publicado num site para renas - mesmo assim, com pseudônimo e um aviso de que o original em lapão muitas vezes não se traduz bem em português, o que poderia ter causado o cometido texto. Espero conseguir fazer alguma coisa a respeito nas próximas horas. Mais uma vez, teremos historinha mais tarde. Io-hô-hô.



15.12.03

Acalanto

Quatro e meia da manhã. Aquilo não era hora de criança estar na frente da TV. Nem da mãe da criança. Mas talvez não fosse igualmente hora do pai da criança estar na cama. Levantou-se e foi até a sala, passos lentos, coçando-se de sono. Ela o olhou serena, mas sem sorrir. Tinha olheiras profundas e trazia no rosto a a mansa resignação das mães. O bebê a olhava com olhos severos e suplicantes, fixos. Estava assim, quieto, fazia já uns quinze minutos. O mesmo tempo que havia conseguido dormir àquela noite, logo após a mamada, entre uma e uma e quinze. Havia chorado por duas horas seguidas, depois. Não era fome, não era frio, não era cólica. Parecia um desespero atávico, uma dor na alma, mas como, em um ser tão novo, poderia a alma doer?

Ele ofereceu seu próprio colo para que ela pudesse deixar o bebê por meia hora que fosse e dormir um pouco. Ela declinou. O olhar penetrante contava que ela era o fator de equilíbrio ali. Continuou balançando a cadeira levemente, o som aleatório que vinha da TV e o bruxulear que se projetava na parede montavam uma cena que podia bem ser acompanhada de uma acalanto de Philip Glass, terno, tenso, repetitivo.

Sentiu-se um tanto culpado por aceitar, na terceira vez, o argumento dela - "que pelo menos um de nós descanse um pouco" - e voltar a dormir. Deitou-se do lado direito da cama, ocupando apenas a sua metade, como fazia desde que o filho havia chegado e suprimido sua mulher da outra metade. Não sabia como ela agüentava. Cinco meses. Ninguém agüenta cinco meses sem dormir, como ela conseguia?

O filho tinha uma mal explicada "insônia do bebê", denominação tão genérica quanto ultrapassada de uma síndrome que tinha como sintoma mais óbvio e notável o fato de a criança dormir por períodos curtíssimos, de dez ou quinze minutos e, no resto do tempo, alternar momentos de agitação, tranqüilidade e choro intenso, sem razão aparente. Ele já havia procurado pelo menos uns quinze médicos, as mais diversas hipóteses já haviam sido levantadas e se mostrado equivocadas. Sua sogra já tinha criado uma junta ecumênica, tantos eram os patuás, versículos, velas, cantos e potes de água benta. E o pequeno, acordado.

Começou o choro outra vez e, outra vez, ele dormiu acalentado pelo som daquele desespero rotineiro. Não sabia por que, a partir do segundo mês, o choro do bebê, em vez de o alarmar, passou a niná-lo. Tentava se policiar, mas, se estava muito cansado, dormia ao primeiro som do choro. A culpa, então, era imensa, amazônica, e ele ainda tinha as culpas afluentes, o amor sonegado, a ausência imposta pelo trabalho, mas às vezes esticada por um dedo de prosa, os pensamentos mais fortes por onde passavam outras peles.

Dormiu, não soube por quanto tempo. Acordou com a voz dela, quase desesperada: "Acorda, ele dormiu, está dormindo há quase duas horas, eu não sei o que faço. O que é que eu faço, o quê?" Não soube responder. Foi até a sala, onde o bebê dormia no carrinho. Ficou com medo. "Como foi?" "Eu não sei, saí um minutinho para ir ao banheiro, coloquei-o no carrinho, não mais que dois minutos. Quando voltei, ele estava dormindo." "Você não deveria tê-lo deixado só, podia ter me chamado." "Mas era só um minutinho, não achei que havia risco. O que é que eu faço agora?" "Bom, já passa das sete, daqui a pouco a gente liga para o pediatra. Mas não saia do lado dele, eu vou tomar um banho, se precisar, nós o levamos ao consultório agora mesmo".

Estava já se enxugando quando ouviu o choro alto. Estava tudo normal outra vez. Vestiu-se com mais calma, foi até a sala, onde a mulher balançava seu filho no colo, abraçando aquele pranto vivo. Ela estava um caco, sua camisola amarrotada, seu cabelo desgrenhado, mas acima das olheiras profundas, podia ver um brilho nos olhos, uma celebração silenciosa do próprio estoicismo.

Foi trabalhar aliviado. Sabia que deixava para trás uma mulher plena, o verdadeiro pilar de uma família que apenas começava a se desenhar.




12.12.03

Hoje, sexta-feira, o Dito Assim faz uma concessão ao comentário geral, fazendo uma pausa na ficção. Tudo para comentar a sorte que tive de ter sido convidado para o lançamento de dois livros nesta semana. Dois livros que me comoveram pelo que têm de semelhante e pelo que têm de distinto. Ambos são compilações de correspondências entre pessoas que se amavam. Ambos trazem histórias de amor que têm em comum a originalidade que é só das verdadeiras histórias de amor.

O primeiro - e eu sigo apenas a cronologia - é "Aí vai meu coração - as cartas de Tarsila do Amaral e Anna Maria Martins para Luís Martins", de Ana Luísa Martins, editado pela Planeta e já nas boas livrarias. O segundo cronológico é "Correspondência de João Guimarães Rosa, vovô Joãozinho, com Vera e Beatriz Helena Tess", uma edição conjuta da Edusp, Editora PUC Minas e Imprensa Oficial do Estado, que traz uma compilação de cartões, bilhetes, cartas e notas remetidas ou dedicadas por Guimarães Rosa a suas pequenas netas - na verdade, netas de sua segunda mulher - Vera e Beatriz Tess.

Os dois livros têm em comum revelar. No caso de Rosa, o próprio prefácio do "Correspondência", co-escrito por José Mindlin e Antônio Cândido, mostra a surpresa de dois amigos com o "aspecto carinhoso e brincalhão que este livro revela". De fato, o livro mostra, em estupendas reproduções fac-similares, a correspondência entre Rosa e suas netas. Um Rosa que, na surpresa de Mindlin e Antônio Cândido, é puro carinho e, na minha surpresa, é, de novo, um Rosa incansável na exploração de uma nova língua, agora, a das crianças, como tinham sido antes as dos índios, a começar pelo fim de "Meu tio o iauaretê".

Já o livro de Ana Luísa Martins revela a extensa correspondência mantida por Tarsila do Amaral e Anna Maria Martins, sua mãe, com o escritor Luís Martins, seu pai. Tarsila e Martins foram casados por quase vinte anos, ele muito mais novo do que ela, e acabaram passando por uma dolorosa separação quando Luís se apaixona por Anna Maria - com quem acaba se casando -, quase vinte anos mais nova do que ele e, ironicamente, prima de Tarsila. Uma história a ser contada, e que as cartas, guardadas em uma caixa durante décadas, contam vivamente, costuradas com mãos de ouro por Ana Luísa, que consegue tecer a mais difícil das combinações, aquela entre o distanciamento e a paixão.

Feliz sincronia a que trouxe a nós estes dois livros "epistolares" na mesma semana. Ambos têm o encantamento da vida real transformada em literatura pela mera exposição de sua beleza - seja a beleza singela e escancarada de um avô descobrindo uma criança a descobrir o mundo, seja a beleza complexa e, em certos pontos, dramática, de histórias de amor que se entrelaçam. Ambos nos relembram épocas de uma enorme riqueza artística e inteletual deste Brasil, paradoxalmente ainda parecido com uma América Central inchada.

Ambos nos dão o imenso prazer de descobrir. O que, de resto, é o que nos faz insistir em querer sempre ver o dia seguinte.



11.12.03

Rodada

Havia um peso a mais, algo me envolvendo da linha do diafragma até as nádegas, como um colete. Arrancar ar para dentro dos pulmões, correr em linha com o moleque da ponta direita, azougue branquelo, dezoito anos, se tanto, me livrar do 3 de branco, um muro. Meus dois tornozelos latejavam, ralados pelos pelos leves toques que ele dava com o canto da sola da chuteira, o tempo todo, sem ninguém ver.

O branquelo, lá se foi ele, eu não vou chegar. O lateral de branco senta no chão, meio ridículo, entortado pelo menino. Corredor, só um jovenzinho corredor. E eu não vou chegar. Ninguém cobriu, lá vem a bola meio molhada quatro ou cinco metros a mais para mim, um metro e meio para aquele muro branco, o 2 fechando com a calma de quem passeia, forço, pernas pra que te quero, passo do limite. Caio engraçado, tropeçando na grama rala, bato a cara no chão, com um olho vejo o muro cortar o centro, matando a bola no peito e, atrevido, levantar a cabeça e sair jogando.

Volto quase andando, tenho que ter ar para a próxima, nem alcanço ainda o último deles, o Gordo berrando lá do banco, sentado feito um buda. O filho da puta tinha me barrado, esquecia quem eu era, meus Maracanãs lotados, Mineirões fervendo, Morumbis delirando, os caldeirões do interior prestando homenagem.

Hoje tem pouca gente, a arquibancada de madeira é pequena, mas tem lugar sobrando. "Corta a perna e vai vender bilhete!" Aquilo foi para mim. Campo pequeno, você ouve tudo, mais ainda naquela tarde sem vento, quente, úmida, longe.

Pau lá atrás, o nosso 5 pegou pesado o 8 deles, o juiz velhote fez que não viu, a bola sobrou dois segundos no pé de alguém que me entregou uma bola perfeita, eu já tinha passado o beque, já não estava mais impedido, mas tinha o muro marcando. Bola no pé, tocar e correr atrás, isto já funcionou, gás na reserva, suor nos olhos, dor ardida na barriga, vai, pulmão. Eu sou um ônibus, o 3 é uma Corvette no meu encalço. Eu sei fazer, ele corre mais, alcanço a bola - iôiô com fio invisível - ao mesmo tempo em que ele chega. Toco aberto para ninguém, para mim mesmo, tentando frear, usar o corpo que já não tenho, curva fechada para a direita, engano o muro, mas a bola corre mais. Brancos voltando, perdi tempo, mas ela é minha. Fecho para o meio, encaro o Muro, eu sei fazer. Me acabo no peito dele.

O bêbado geme, eu conheço a grama com mais intimidade. Segundo tempo perdendo, no fundo do interior, é muito deprimente, o sol vai se pondo com o bêbado xingando sem parar, o Gordo vai pôr um garoto já, já, eu suo nos olhos. Parece que o jogo está sempre longe de mim, eu, um 9 que ia virar 18 por causa do Gordo, um 9 para quem o moleque da direita prefere não olhar.

E o moleque da direita inferniza o lateral deles. Tão bobinho, aquela corrida toda, cabeça baixa, coitado, na minha idade, vai ser porteiro, sapateiro, se tiver sorte, garçom. Mas ele leva o cara e agora tem cobertura, cai para o meio (ele não sabe fazer), cortando seco o 2, tenta cortar o próximo - o muro - e consegue, para fora, chega na linha branca, dois palmos a mais de campo, cruza sem olhar. Sem me ver. O muro me olha e corre. Não adianta mais. Gás na reserva, a bola vem vindo para minha cabeça, estou longe do goleiro, só, reinando, tudo vira câmera lenta. Eu sei fazer, pular esperando a bola chegar à minha testa, quase na altura dos olhos bem abertos, enfiar a cabeça, plantar a bola no chão e colher na rede. Pulo menos. Atraso o movimento. A bola bate do lado da cabeça, quase dói ao resvalar, e rodopia. Caio no chão, desengonçado. O bêbado geme, grita. A bola deveria ter ido da minha cabeça para o canto esquerdo do goleiro, na linha de cal embaixo, sempre tinha sido assim, infalível. Dez anos a mais jogaram-na para cima. Canto direito, ângulo, forquilha. Sem perdão, sem defesa, sem querer. Gol, Gordo, gol, alívio, Gordo, seu emprego e o meu. De repente, aquele jogo longe chegou até mim, os abraços suados, o moleque branquelo enrolado no meu pescoço, o muro encolhido, derrotado, indo buscar a bola repousando em minha glória.

Eu ia jogar a próxima, Gordo.




10.12.03

Espero poder continuar postando estas maltraçadas ficçõezinhas com a regularidade de sempre. E mais cedo.




Eminência

Forçando um olhar shakespeariano, ela era a mistura de Lady Macbeth e Catarina, a megera antes de ser domada. Tramava como a primeira, nao tinha papas na língua, como a segunda. Com esta, camuflava aquela. A maneira impulsiva compunha uma figura temível ou risível que escondia uma inteligência superior e dava-lhe mais liberdade para tramar.

Não tinha poder de fato. Ou, sob outro ponto de vista, só o que tinha era o poder de fato, conquistado nas ante-salas, na rede de informação paralela que havia montado em torno do marido, o que detinha o poder de direito ¿ e apenas o de direito.

Ria-se por dentro ao ver, pela agenda dele, o número de reuniões de diretoria que a empresa realizava a cada mês. Regulares, eram quatro. Extraordinárias, em certos meses, eram oito ou sez. Catorze reuniões em vinte e poucos dias úteis. Ridículo, era tudo tão mais fácil.

Nunca tinha participado de qualquer reunião na empresa, a não ser daquelas em que a formalidade exigia ¿ as que não decidiam, apenas exibiam. No entanto, todas as decisões Importantes dos últimos cinco anos haviam passado por ela. Algumas, amargas, foram tomadas contra a vontade aparente de pelo menos três quartos dos diretores. Que, aliás, recebiam em sua remuneração variável, sem reclamar, as conseqüências dos bons resultados.

Seu grande talento era juntar com precisão os pequenos fatos do dia-a-dia, fofocas, telefonemas, noticiazinhas e, dessa massaroca de fios soltos, tecer um quadro preciso. Sabia também o que dizer a quem, era mestre ao telefone, bilhetes, cartas e e-mails. Articulava praticamente sem ver as pessoas. Quando as via, era já para, consigo mesma, celebrar mais uma costura bem sucedida. Costumava dar jantares depois de cada decisão tomada sob sua influência, e convidava vítimas e algozes. O pretexto que alegava para cada festim era sempre o mais fútil. Quando articulou a decisão de comprar a segunda maior concorrente, derrubando o diretor de operações, celebrou o aniversário de Guararema, cidade natal do marido-presidente. Após a reforma que cortou quatro diretorias, deu uma festa em homenagem ao Dia da Alta Costura. Na semana em que o emissário dos sócios americanos decidiu ir embora sem motivo aparente, deixando para trás apenas os resíduos incinerados de uns certos negativos, ela organizou um luau que é lembrado até hoje.

O terceiro telefonema de uma certa manhã deixou-a com uma pulga atrás da orelha. Pela primeira vez em cinco ou seis meses, foi fazer uma visita surpresa ao marido. Ele a recebeu com carinho. Ela, mais fútil e superficial do que nunca, passeou pelo escritório, cumprimentou aqui e ali, todos os homes se levantando e fazendo mesuras à sua passagem. Ao voltar para casa, dedicou-se furiosamente ao telefone. No fim da tarde, tomou o cuidado de responder a dois e-mails bobocas.

Durante o jantar, ele estava mais fechado que o normal. Alegou cansaço, mencionou pressões, reclamou do governo, mas censurou-se logo por a estar aborrecendo com aquelas chatices de empresa. Imagine, ela disse antes de mostrar-lhe um chapéu novo e comentar os modos da segunda mulher do gerente de Buenos Aires.

Foram três meses de cara fechada, ele parecia minguar, ela tentava segurar seu estado de espírito. Numa segunda-feira, finzinho do dia, ele ligou dizendo que chegaria mais cedo. Ela deixou tudo preparado para uns dry martinis. Ele chegou com a cara distorcida pela tensão, ela foi recebê-lo à porta com o primeiro drink. "Caí", foi só o que ele pôde dizer antes de chorar compulsivamente. Ela o acolheu como pôde, ele se lamentou horas a fio, ela o pôs na cama depois que o quinto dry martini o sedou.

Dali em diante, tentaram viver a vida dos comuns, dos não-presidentes. Mudaram da casa agora grande demais para um apartamento muito confortável e adequado a quem não daria mais festas temáticas para seiscentas pessoas. Não parecia fácil. Os dois foram sumindo, os amigos, convenientemente, também. Em meses, pouco se sabia deles. Alguém notou e comentou o fato de ela ter decidido ir embora, voltar para as terras da família em algum lugar do interior. Castigo demais, diziam, para quem adorava receber e aparecer. Merecido, segredavam os mais maldosos.

Dele, então, menos e menos ouvia-se falar, até que se soube que havia ido embora de vez. O pouco comentário falava de tentar a sorte na Flórida.

O fato é que nenhum dos dois deve ter lido as manchetes dos jornais, que mencionavam o escândalo: desfalque, má gestão, roubo. Sem que ele visse, falava-se com saudade de seus tempos de presidente, tempos de ação, lucro e crescimento. Pelo menos dois comentaristas econômicos escreveram sobre a necessidade de sua volta, talvez a única chance de sobrevivência da empresa - uma potência ferida gravemente pela cobiça de seus novos dirigentes, que haviam desviado uma fortuna e enxovalhado uma marca secular. Pelo menos um milhão de dólares já haviam sido localizados em uma dessas ilhas do tesouro. Sim, o presidente deveria voltar.

O castigo maior era que o presidente não existia mais. Estava muito ocupado recebendo uma camada adicional de protetor solar. Não achava que o sol de Mallorca merecesse tanto, mas era mais uma vontade dela, por que não? Ela, que tinha tido a brilhante idéia de colocar um pequeno milhãozinho, dos quase quinze que eles haviam conseguido, na conta do atual presidente. Uma conta que ele nem sabia que tinha. Um dinheiro que ninguém iria gastar para todo o sempre. O chato, para ela, era apenas não poder contar esta pequena extravagância para ninguém. Nem tudo sai exatamente como a gente quer.





Atenção, leitores, consegui entrar! Me dêem mais meia hora para digitar a historieta de hoje. Sei que vão gostar, como diria o Tremendão.



8.12.03

Linhas

"Architects may come and architects may go and never change a point of view". Ela ouvia repetidas vezes a canção que Simon e Garfunkel haviam feito em homenagem a Frank Lloyd Wright. Seis, sete, dez vezes seguidas. Horas antes, ela havia me dado um pé na bunda e me oferecido o quarto de hóspedes para aquele resto de noite. Bem adequado para meu coração de estudante.

Apareci na sala quando a voz dobrada, pequena e íntima começava outa vez, "So long, Frank Lloyd Wright", enquanto ela escrevia furiosamente, deitada sobre o carpete, com uma Bic na mão, uma pilha grossa de papel pela frente e dezenas de folhas escritas amontoadas a seu lado.

- Bom dia.
- Uh, bom dia! Você me assustou. Dormiu bem?
- Desculpe. Dormi, sim, que nem uma pedra.
- Tem café na cozinha.
- Nossa, quanta coisa você já escreveu.
- É só o começo do começo. Não se impressione, digitado ele encolhe muito, cada cinco páginas viram uma, se tanto.
- Quer que eu digito?
- ... que eu digite.
- Desculpe - pela milésima vez, me senti um bosta. Eu vou indo. Já perdi as aulas da manhã, quero ver se vou à tarde.
- Vá mesmo. É vital para você levar bem a faculdade. A gente já falou bastante sobre isso. Tome um café, depois vá tomar conta da vida, menino.

Milésima primeira vez - agora, um bosta acolhido. Eu não era tão mais menino do que ela, apesar dos seis anos mais novo. Seu tipo físico, mignonzinha, de sorriso largo e aberto, olhos negros e brilhantes, cabelo curtinho, lhe dava ares de muito jovenzinha, enquanto minha pele branca e um pouco de peso a mais me faziam pareer mais velho. Passávamos fácil por um casal da mesma idade numa foto. Mas só na foto. Se fosse vídeo, já ficaria tudo mais claro. Eu era o estudante de arquitetura sortudo, aquele que havia passado no vestibular mais difícil, da escola mais cobiçada, pública e gratuita, apesar de cometer coisas como "quer que eu digito?" Em compensação, eu desenhava feito um monstro, era capaz de tudo com lápis e papel na mão. Com um computador mais potente, eu dominaria o mundo.

Ela era uma dessas pessoas que parecem passar pela universidade como se fossem filhos do dono: sabia tudo, já tinha chegado adaptada e mostrava aos demais o caminho das pedras. Havia cursado biologia, terminado com brilho e agora fazia o mestrado. O tema era bastante original - A Zoologia de Gumarães Rosa - e demonstrava sua vocação de sabe-tudo. Para chegar ao que ela sabia, eu precisaria viver umas cinco vidas.

Como a vida é uma só e ela havia me dispensado, resolvi que o que eu sabia era suficiente para sair daquilo com dignidade.

- Menino, não. Fica parecendo que eu sou um bobo ou você, uma maníaca sexual.
- Ah, bobo! É um jeito carinhoso, só isso, nem mania nem depressão. Agora vai. Você tem uma tarde pela frente.

Fui. Cheguei em casa a tempo de ver mamãe e a empregada debatendo, subi a escada estreita, liguei o Lorenzetti e comecei o dia ao meio-dia. Banho tomado, vestido, almocei em pé na cozinha, para horror das duas gerentes do lar e saí. O ônibus de Santana à USP demorava quase uma hora, em dias normais. Tempo suficiente para o "onde eu errei", em meio ao congestionamento e ao barulho do motor. Pensei no que queria da vida, no que ela talvez não quisesse, na diferença de idade, no abismo social entre nossas famílias, no cinco vezes mais capaz que ela era. Cheguei à conclusão de que não havia errado em nada.

O congestionamento estava insuportável. A estas alturas, em um dia normal, já estaria sentado na sala de aula, quem sabe até já cochilando. Agora, ainda estava por cruzar o espigão da Paulista. Melhor assim. Desci antes do túnel, subi em direção ao que um dia tinha sido o Trianon e ganhei a Avenida Paulista. Meia hora depois, estava na casa dela. Passei pelo porteiro, que não fez boa cara. Ora, era bom ele ir se acostumando, pensei. No elevador, já sabia exatamente o que dizer e tinha certeza sobre o que ela responderia: "Sim".

Entrei sem bater. Encontrei-a aos beijos, nos braços de outro alguém. Bonita, aliás. As duas me olharam com mediana surpresa, ela sorriu e me disse que eu ainda tinha muita coisa para ver na vida. Sinceramente, eu não sabia se queria. Só pensava na maldita aula de Cálculo que eu teria de repor uma hora dessas. O que minha mãe e a empregada achariam de me ver assim?




Mini 18

Gêmeas. Bi-vitelinas. Vinte anos. Amanda, gordota, simpática, sem namorado. Amélia, quatro pretendentes, um noivo, um amante. Vinte e cinco anos. Amanda, gordota, simpática, sem namorado. Amélia, uma filha, um ex-marido, um amante. Trinta anos. Amanda, gordota, simpática, sem namorado. Amélia, uma filha, um namorado, um salão de cabeleireira. Trinta e cinco anos. Amanda, gordota, simpática, sem namorado. Amélia, uma filha adolescente, solteira, um book de fotos da menina. Quarenta anos. Amanda, gordota, simpática, sem namorado. Amélia, gordota, simpática, sem namorado. Gêmeas. Bi-vitelinas.





Até que enfim! Todas a vezes em que tentei entrar no blogger hoje recebi aquela mensagen de "tempo expirado". Horror. Daqui a pouco tem conto novo.



5.12.03

O conto de hoje foi postado ontem. É Café, logo abaixo. Enjoy.



4.12.03

Hoje postei dois. Nem acreditei, mas precisava, depois comento por que. Mas não deixem de ler o penúltimo, Escambo, que tem uma interessante vista da cidade de São Paulo, se é que posso descrevê-lo assim. É, acho que posso.




Café

Se havia dúvida de que sangue nobre é degenerado pela fornicação entre primos, ele era a prova viva. Olhar esbugalhado, fala vacilante em meio a um temporal de perdigotos. Vivia com um lenço na mão tentando domar o ímpeto de sua saliva, que teimava em escorrer pelo canto da boca. Isso ajudava a torná-lo mais e mais afastado do mundo - nisso, aliás, o mundo e ele estavam de pleno acordo.

Aprendeu a viver em frente ao grande livro-caixa, que ia preenchendo com letra redonda e caprichada, jogando tempo fora, apenas para mais tempo entrar. Demorava nas contas e as sacramentava com o pesado mata-borrão. A fazenda já não produzia como nos tempos de seu pai ou de seu avô - este ainda contemplado com a fartura dos braços e dos regos da negrada. Mas dava para o gasto.

Não tinha netos, como seus amigos, aquela criançada babona e barulhenta, e agradecia aos céus por isso. Seu sossego valia ouro. Por isso, a empregada, italiana quarentona, forte e de peitos grandes e ainda firmes, era orientada a só aparecer nos rígidos horários que ele determinara há anos: durante o desjejum matinal, pelo almoço, depois só na hora de jantar e, por fim, se ele estivesse disposto, para uma rápida incursão a sua cama e suas partes aflitas.

O passar do tempo havia criado uma muda proximidade entre ele e a criada. Ela o entendia, apesar de seu mutismo, ele se afeiçoava dela à sua maneira. De um ano para cá, havia adquirido o hábito de elogiar o jantar, apenas quebrando esse turbilhão de afeto com a advertência de que era bom que continuasse assim porque aquela casa não era hospedagem de imigrantes. Depois do café, tomava uma talagada da boa cachaça da terra e ia fumar no terraço. Era um dos poucos momentos em que se punha ao ar livre.

A fazenda secular, perto da velha Souzas, terra de sua família desde sempre, andava por si mesma. Ele demorou a perceber isso. No começo, logo depois que o pai morreu de desgosto pela súbita decisão da mãe de ir embora com um empregado mulato, ele ia diariamente, duas vezes por dia, inspecionar as atividades dos empregados. Agitava o indicador, apontando lugares vagos, como que a ordenar a eles qualquer coisa. Em seguida, limpava a baba e continuava a caminhar, mãos às costas, desfilando a condição de dono. Com o passar dos anos, resolveu confiar na prevalência da rotina e foi indo cada vez menos ao terreiro e ao cafezal, deixando tudo por conta dos colonos e de seu capataz. Hoje, só atravessava a soleira da porta para a última pitada no terraço.

Naquela noite, demorou a dormir. Pôs-se a olhar o céu fixamente, parecia que naqueles anos todos não havia reparado que sobre sua propriedade havia, noite após noite, aquelas sacas de luz. Assustou-se com uma estrela cadente, como que não entendendo o atrevimento. Terminou o segundo cigarro, pisou a bituca no terraço - a italiana que limpasse depois - e voltou o olhar para o céu. Ficou fascinado ali, a noite toda. Na manhã seguinte, a criada o encontrou molhado de sereno, imóvel, exceto por um rictus facial, os olhos cravados em algum lugar do horizonte.

Não havia muito o que fazer com um derrame àquela época. Seus primos vieram nos primeiros dias, ajudaram a fiel empregada a conduzir tudo, chamaram médico, acharam cadeira de rodas, ditaram procedimentos. Com o tempo foram sumindo, até deixá-la tomar conta das coisas. Restituiu a autoridade do velho, levando-o todas as tardes pela cadeira de rodas a ver os empregados, caminhando, dia sim, dia não, até o cafezal. A grande mudança é que agora ela conversava com ele como nunca havia feito em seus quase cinqüenta anos. Falava horas sobre o passado, contava histórias antigas, lembrava de curupiras. E o velho, finalmente ria. Babava, mas ria como nunca antes na vida que ele não tinha vivido até então.




Escambo

Gorda mesmo, mais que gordinha, excessos que roupa larga já não escondia. Mas ele a adorava e demonstrava isso com todo tipo de mimo, do contra-indicado chocolate ao bicho de pelúcia.

Magro mesmo, muito magrinho. E um grande filho da puta. Explorava a mulher, gorda e emocionalmente frágil. Dava-lhe dois ou três presentinhos, um ou dois beijos e ganhava em troca seu sustento.

A gorda aparecia na loja todo dia, acreditava na máxima do olho do dono. Estava lá na hora de abrir, acompanhava a montagem da mercadoria no espaço apertado, aconselhava o posicionamento dos vendedores. Eu era um deles. Atento e disposto a ser o melhor, nem que para isso precisasse aprender árabe. Tinha aprendido com eles a vender. Fleuma com um indispensável tempero de falta de vergonha. Assim, observa-se o freguês, descobre-se o que ele quer e só então se oferece também o que ele não quer.

Numa sexta-feira chuvosa, ela não apareceu para abrir a loja. Demoramos um pouco mais para arrumar tudo, mas logo o movimento da manhã nos colocou a trabalhar, a fazer girar aquele estoque de cobertores, lençóis, toalhas, panos e mais panos que faziam a fortuna da família, de sua gorda filha única e do genro aproveitador.

Eram dez horas quando ela chegou com os olhos inchados e sem a vontade costumeira de mandar. Desenxabida, foi para o caixa e lá ficou. Percebi que era o meu dia. Na minha hora de almoço, saí perambulando pela 25 de março. Havia um restaurante árabe que a família freqüentava e que era muito popular entre os lojistas libaneses. Não era para o meu bico. Mas entrei e gastei uma boa parte da verba da minha refeição com um docinho árabe com cara de que doía de tão doce. Não sabia, na época, a diferença entre um belewa e um halewe.

Voltei para a loja, vazia àquela hora. Fui até o caixa, que era no fundo do salão e a encontrei absorvida em sua aritmética. Dei-lhe o pacotinho, seguido de uma frase imbecil do tipo "isso é para adoçar o dia da senhora". Ela ficou um pouco desconcertada, agradeceu com um aceno de cabeça. Tive medo de que ela se sentisse de alguma forma assediada. Eu precisava do emprego.

No fim da tarde, vi que ela havia comido o docinho.

Na segunda-feira, ela voltou no velho estilo. Comandou a brigada, organizou os tecidos, atendeu vendedores, estava nova. Foi assim a semana inteira. Na sexta-feira, saí pela 25 outra vez na hora do almoço. Na volta, deixei o docinho sobre sua mesa.

Assim, fui fazendo a cada sexta-feira. No quinto halewe, ela me chamou para conversar. Nada de especial, queria saber mais sobre mim. Contei as agruras que havia passado no interior até ter aquela oportunidade, exagerei quando descrevi minha capacidade de trabalho, falei dos planos que tinha de um dia - distante, claro - abrir um negocinho meu, mas nada que pudesse atrapalhar a sua loja. Consegui embargar a voz quando disse o quanto era grato a ela e sua família.

No meio da semana seguinte, o magrinho apareceu. Parecia ser só carinho com a gorda, que o tratava com casca e tudo. Passou o dia na loja, tentou nos ajudar a vender, mas não tinha jeito para isso. Quando saiu, fui logo a ela e me ofereci para ajudar seu marido sempre que ele quisesse vir trabalhar na loja. Ela apenas balançou a cabeça.

Na sexta-feira, quando voltei com o docinho, a loja estava vazia. Só ela estava lá, no caixa, como sempre, mas diferente: olhava para a porta, como a esperar alguma coisa. Me aproximei e vi que ela havia aplicado um batom discreto e um pouco de rouge. Quando lhe entreguei o docinho, segurou minha mão. Fingi estar encabulado, mas correspondi ao aperto dos dedos grossos.

No fim do dia, pediu para que eu ficasse mais um pouco. Fiquei. Me levou para jantar. Fui ficando. Hoje, falo árabe. Engordei. Encho-a de presentes, carinho. Faço das tripas coração, mas não economizo beijos. Adulo seus pais descaradamente. Preciso agora dar-lhes um neto. Há um novo vendedor na loja e isso pede medidas extremas.




Reunião cedinho com o dono da agência. Isso significa historieta só lá pelas 11.



3.12.03

Versão

Tudo o que eu queria nesta vidinha de semi-escritor - que é como eu julgo os que, como eu, apenas traduzem o que um distante e relevante estrangeiro escreve - era, pelo menos, semi-escrever obra de alguém de peso. Poe, por exemplo: traduzi-lo, de certa forma, me colocaria ombro a ombro com Baudelaire, o primeiro a verter "Tales of the Grotesque and the Arabesque" para língua estrangeira. Queria ser um Nelson Rodrigues às avessas. Ele assinava as traduções de Harold Robbins para alavancar, com seu nome na capa e um bom cachê no bolso, o autor então pouco conhecido. Eu queria encostar meu nome sem prestígio em algum autor bacana, sem ganhar nada por isso além do crédito impresso. Se possível, na capa.

A oportunidade apareceu num fim de tarde, quando meu velho amigo Zito, especialista em rolos e novidades, me convidou para um drinque urgente. Pouco antes das sete, entro no Pandoro já cheio e ele se levanta caloroso.

"Meu caro, tu sempre quiseste botar um escritor famoso em bom português. Pois olha o que o teu Zito te trouxe."

Sem introdução ou prefácio, ele colocou na minha frente um grosso livro de capa dura, com uma ilustração horrorosa - um casal desenhado à moda hiper-realista, trajando capas de chuva como as de Boggart e Bacall e se abraçando melancólico, um horror. Sobre essa imagem, o título: "Poodle Springs". O livro inacabado de Raymond Chandler, a última história do detetive Philip Marlowe, que, até onde eu sabia, Chandler havia apenas começado, mal tinha escrito quatro ou cinco capítulos quando morreu.

"Pois é", pôs-se Zito a explicar, "eu consegui uma opção provisória com os editores americanos para os direitos em português do Brasil. Preciso de um tradutor porreta e sem frescura nos 'I shall' e 'I beg your pardon'. Pode ser?"

Raymond Chandler. Minha primeira, tardia e talvez última chance de colar meu nome a um escritor de prestígio. Bem, no caso de Poodle Springs, dos 41 capítulos, 37 haviam sido escritos por um certo Robert B. Parker, mas Marlowe, garantia Zito, Marlowe estava lá. Parker, segundo ele, tinha estofo, tendo na folha corrida nada menos do que "Pale Kings and Princes" e "Playmates".

A combinação Zito-Parker-capa-cafona me deixou meio apreensivo, mas o peso de Chandler me convenceu. Fechei negócio: zero de fixo, quatro por cento das vendas. "É o que ganha um autor no Brasil", exagerou. Veria ainda a possibilidade de colocar meu nome na capa, embora achasse difícil.

Na mesma noite, comecei a ler Poodle Springs. Chandler tinha colocado Marlowe em uma situação complicada, muito bem casado com uma milionária. Da Florida. Difícil de resolver, improvável mesmo. Não fazia nenhum sentido. Ou melhor, fazia sentido Chandler ter se mandado para o céu depois do quarto capítulo desse arranjo. Se ficasse, não saberia dar um fim naquilo. Mas eu tinha de aproveitar minha chance e traduzir a coisa. Tentei dar forma à primeira frase. "Linda parou o Fleetwod conversível em frente à casa, sem..."; "Linda estacionou..." - horrível; "Linda dirigiu até..." - impreciso, falso. Linda? Que linda?

"Zito, não tem linda em Raymond Chandler", tentei explicar ao telefone. "Meu querido, tem Linda, é claro. Me acordaste por isso? Vais traduzir ou não vais? Temos uma editora grande pela frente, mas precisamos mostrar o calhamaço em português. Põe a Linda nisso e resolve o nosso lado."

Linda parou o Fleetwood conversível na frente da casa, sem virar para. Fui até o ponto em que o sono deixou. Pouco, não mais do que um capítulo e meio. Dormi no sofá. Acordei disposto a ir adiante. Na página 20, Marlowe diz: "I can't afford a showy layout".

Entendi. Em quinze dias, tinha a tradução pronta. Com o calhamaço na mão, Zito negociou com a editora. Acabaram sobrando dois por cento para mim. Tudo bem: meu nome apareceria na capa, corpo 10, mas não se pode querer tudo, e eu autografaria os livros na noite do lançamento.

Foram meus minutos de fama, entre vinho branco alemão e canapés de atum. Autografei uns duzentos livros, todo mundo curioso, alguns elogiando minha fluência outros perguntando quantos meses havia demorado o trabalho. Terminei a noite com a sensação de que havia conseguido, de alguma forma, chegar lá. E o melhor de tudo é que ninguém havia percebido que a tradução brasileira de Poodle Springs começava pelo capítulo 5.



2.12.03

Drops

Casablanca no cinema. Cópia nova. Não, era bom demais para ser verdade. Mas estava lá, no jornal, documentado. Já tinha visto Casablanca vinte e sete vezes, mas apenas três no cinema, todas no Cine Bijou, com cópias em péssimo estado. Agora, se visse três vezes, completaria trinta sessões de seu filme predileto. A temporada seria curta, certamente. Mas nunca menos de uma semana. Planejou tudo: iria na quarta, na sexta e no domingo, sempre na sessão das oito.

Pegou o caderninho de telefones e começou a procurar os nomes que poderiam figurar entre as pessoas que ele levaria ao cineclube da rua Augusta, aquele que já tinha sido um dos melhores cinemas de São Paulo. A idéia era pré-selecionar nove ou dez nomes e, a partir daí, escolher os três convidados.

Anete. Ocupado. Puxa, logo o primeiro nome. Fez uma pausa, foi até a geladeira, duas, três vezes, tentou de novo. Ocupado.

Em seguida, Bia. Como estaria Bia? Não a via há uns três anos, mas tinham trocado e-mails nos últimos seis meses. Ela era uma pessoa estranha, introvertida, ao mesmo tempo em que parecia saber o que queria da vida. Tinha começado bem uma carreira, era o braço direito da diretora de marketing da mega indústria de sorvetes, uma jovem executiva promissora. "This is Beatriz, please leave your message after the tone". Deixou o recado e seguiu na lista. Pensou em Cibele, pulou Cinira e foi adiante.

Cláudia. Essa deveria ser convidada especialmente para o domingo, sua trigésima sessão. Ligou. "Esse número de telefone não existe. Favor..." Os números de telefone da cidade haviam mudado, ele só tinha o número antigo de Cláudia. Não conseguiu nada com Informações. Por dedução, chutou dois ou três prefixos diferentes e, no último, conseguiu. "Hello?" "Boa noite, eu queria falar com a Cláudia, por favor." "Sorry, fala mall Portuguese, do you speak English?" "Nou, nou ínglixe. Cláudia?" "She's with the babies, the twins, jay-may-os." Gêmeos! "Obrigado, ligo depois, oquêi?"

Denise estava em Miami, Dora na Bahia, Eliana tinha brigado com ele por uma bobagem, talvez voltassem a se falar um dia.

Flávia. Que arrepio. Era tudo o que ele queria para a sessão da sexta-feira, que pedia balada depois. Ligou. Toca (lasciva expectativa), toca (aquele olhar castanho-verde), toca (aquela voz). "Alô, risidênça da Dona Flávia." "Ela está?" "Tá não." "Volta?" "Sei não." "Você pode deixar um recado?" "Posso não, tô sem óculos. Qué falá com seu Valmir?" "Quem?" "Seu Valmir, marido dela." "Não, obrigado, eu ligo depois."

Seguiu a agenda. Gisela não quis, Helena não esperava, Iara queria mas não podia, Juliana estava em Minas. Não quis ligar para Kátia, Larissa e Luciene. Lili declinou em francês.

Maria atendeu o telefone com sua voz rouca. Ficou surpresa com o convite, topou de imediato. Aproveitou para contar das novas aulas de ballet com uma velhinha que era a revolução na arte da dança, o fim do namoro com o diretor de cinema e as experiências da vida celibatária. Lembrou-se de uma pontadinha na base da coluna. Será que não seria imprudente ir ao cinema assim, numa época de tanta transição? Ia ver no seu mapa, depois ligaria.

Olívia estava na Austrália há anos. Pena, adorava Casablanca. Paula, Paula, quanto pisco, quanta Violeta Parra, quantos beijos revolucionários, quanta libertação naquela cama. Não tinha mais seu número, duvidava até que tivesse um. Rita tinha comprado uma escolinha logo depois de se casar com o engenheiro químico. Nunca mais tinha ido ao cinema, a vida em casa era tão realizadora. Tati não quis nem saber de um filme tão deslavadamente imperialista.

Nem tentou ligar para Ursula. Ganharia um não afirmativo. Foi de novo à geladeira,tomou o restinho de água que sobrara na garrafa e sentou-se na velha poltrona. Ninguém mais o amava. Nem para uma sessão de Casablanca com cópia nova queriam sair com ele. Ah, e se ligasse de novo dizendo que já tinha os ingressos? Não, seria a suprema humilhação. Pensando bem, quem liga para um filme velho como aquele, ainda em preto e branco? O telefone deu apenas um toque antes que ele atendesse ansioso. "Fala, meu bom, não liga mais para os amigos?" "Pô Betão, tava pensando em você."

Pipoca, guaraná e três sessões de Casablanca com Betão, que nunca tinha visto o filme, o animal. "Esse negócio de filme velho é coisa de veado, meu, mas você é meio veado mesmo." "Eu, hem, quem gosta de homem suado de chuteira é você." Divertiram-se como só os amigos sabem se divertir.



1.12.03

Achei, há pouco, na MSN, um artigo sobre Santos Dumont, um dos gênios produzidos por esta terra e menos reconhecido mundo afora do que merece. Agora, nos EUA já começam a romper o silêncio sobre ele. Pelo menos duas boas biografias foram publicadas lá e, embora todos reafirmem a primazia dos irmãos (americanos) Wright, já começam a reconhecer que o primeiro vôo com propulsão para decolagem autônoma (sem catapultas ou outras formas de propulsão externas à aeronave) foi, de fato, do brasileiro.




Mini 17

O menino bateu na janela. O motorista engravatado abriu e olhou-o com desprezo. Ele ainda tentou ser bem comovente no "moço, me ajuda", mas o homem foi gelado. "Vai trabalhar, vagabundo". O garoto sorriu antes de aproximar o rosto a um palmo do cidadão. "Quando eu crescer, vou ser igual a você. Cuidado."




Executar

- Não, não está bom. Desde que eu contratei você, eu disse que apenas o excepcional, fora do comum, outstanding, seria aceitável para uma executiva com as suas - ahn - peculiaridades. E o que é que você me traz? Esse relatório está abaixo da linha do medíocre, Será que eu vou ter de pedir ajuda à minha secretária? Ora essa, volte lá e me traga alguma coisa que me faça entender a diferença entre você e Dona Dalva. E eu quero isso pronto ainda hoje.

Saiu, acabada com a menção à secretária, que sempre a olhava torto e respondia ao seu "bom dia" com um sorrisinho forçado.

Jogou o relatório na mesa e respirou fundo antes de tentar entender o que estava errado. Eram mais de cinqüenta páginas em inglês, com todos os fatos descritos de forma a encaminhar bem os procedimentos propostos e, por fim, recomendações detalhadas e bem embasadas. Era uma peça fora do comum, ainda mais considerando que era um relatório preliminar.

Abriu o Excel, examinou os dados, depois releu o texto. Tudo parecia muito bom. Lembrou-se de um primeiro rascunho que havia abandonado pelo caminho, e que trazia mais alguns dados. Acrescentou-os ao documento e ainda gastou umas duas horas buscando novas informações eventualmente esquecidas. Às seis e meia pôs a impressora a trabalhar. Às sete e cinco, com as quase noventa páginas encadernadas e encapadas, passou pela secretária e foi até a mesa do chefe, que estava ao telefone com os americanos. Ele fez um gesto para que deixasse o material ali e saísse. Em seguida, pôs a mão no bocal e cochichou:
- Isso são horas?

Exausta, voltou à sua sala, desligou o computador, disfarçou a bagunça e saiu. Conseguiu chegar em casa quase uma hora depois. Deixou a pasta sobre o sofá, e foi direto ao chuveiro. A água quente iria ajudar a aliviar as escoriações do dia duro.

Com o rôbe atoalhado, foi até a cozinha e verificou que a empregada havia deixado tudo pronto para o jantar, inclusive com um bilhete avisando que as tortinhas não deveriam ir ao microondas. Ela e o marido haviam optado por não ter empregados que dormissem na casa - além de tirar sua privacidade, soava como uma coisa arcaica, um jeito quase escravagista de se viver. Era por isso, também, que o grande apartamento tinha todo tipo de eletrodoméstico que pudesse cumprir as atribuições da criadagem.

Ligou o microondas e o forninho elétrico, pôs para aquecer a comida para dois. Um minuto antes o sininho eletrônico tocar, ele chegou e repetiu o gostoso abraço por trás que todo dia reservava para ela, um demorado e carinhoso "que saudade". Ela virou-se e beijou-o ternamente.

- Que temos para o jantar?
- Miniaturas de quiche lorraine, peito de frango com um molhinho de gengibre e arroz de brócolis, como você gosta.
- Oba! Depois de um dia como hoje, nada como chegar em casa e ter um jantarzinho delicioso com você. Dá tempo para uma chuveirada?
- Três minutos.
- Três minutos, ok.

Dez minutos depois, os dois de rôbe sentavam à mesa para o jantar, completado por uma providencial garrafa de chardonnay californiano.

- Como foi seu dia? - ela perguntou.
- Movimentado como sempre, os gringos não têm me deixado em paz.
- Olhe, eu fiquei incomodada com a história do relatório que fiz sobre a fábrica nova.
- Meu amor...
- Eu não entendi o que estava errado, o que você queria a mais.
- Meu amor, eu não quero falar de trabalho em casa. Nós combinamos isso. É essencial que a gente separe muito bem as coisas.
- Mas...
- Me conte qual é a receita desse molho delicioso.

Ela chegou mais cedo, no dia seguinte, já esperando más notícias sobre o relatório. Uns vinte minutos depois, a secretária o convoca à sala do chefe.

- O relatório melhorou. Chegou, pelo menos a medíocre. Vou apresentar assim. Se ninguém rir, já é uma façanha.

Ela entendeu. Talvez já tivesse entendido muito antes, mas naquela hora, estava claro demais. Foi até sua mesa e, antes de ligar o computador, pegou o telefone. O interlocutor estava ávido por notícias. Ela as deu, fartas e detalhadas, em inglês fluente.

Naquele dia, pela primeira vez, teve momentos de pausa. Na hora do almoço fez as unhas e ainda teve tempo de fazer a última prova do tailleur novo. Pela tarde, leu, andou pelo escritório, observou, com discrição, o que dizia o jeito de cada pessoa. Às quatro e meia, toca o telefone. Os americanos eram muito objetivos. Em cinco minutos, tornaram oficial a decisão de promovê-la à gerência geral e afastar seu chefe.

À noite, em casa, preparou um salmãozinho com purê de pera e arroz selvagem. Ele chegou, abraçou-a e sorriu. Ela não se conteve:
- Meu amor, eu precisava fazer aquilo.
Ele respondeu, calmamente.
- É essencial que a gente separe muito bem as coisas. Dá tempo para uma chuveirada?






Comentariozinho para uma segunda-feira nublada, enquanto o texto do dia é devidamente digitado.

As colunas de fofoca política dão conta de um movimento palaciano que tenta persuadir o presidente Lula a parar de fumar. Primeiro, é de espantar a falta de assunto. Mas são os pauteiros que temos, o tema, então, vai longe. Inclusive alguns dizem que as cigarrilhas do presidente são mais perigosas que cigarros comuns. Perigosa é essa campanha, ora essa. Se os jornalistas e editores não sabem o que se passa com um sujeito que se dispõe a parar de fumar, eu sei, ninguém me contou e eu conto aqui.

Um ex-fumante, já nas primeiras horas de sua abstinência, começa a suar mais. No caso de Lula, isso seria risco de afogamento, dado o que o presidente normalmente já transpira. Em dois dias, a sensibilidade olfativa e o paladar voltam quase ao estado que apresentavam antes do cidadão fumar. Pode parecer um benefício, mas quem é que sabe o que é servido hoje na mesa presidencial? E se de repente o gosto da comida do Alvorada é um horror oculto apenas pelo tabaco? Outro sintoma da abstinência é o aumento de peso. O joelho de Lula não agüentaria, levando-o a cair, com conseqüências imprevisíveis sobre os ombros bursíticos. A falta de concentração é outro efeito colateral terrível no ex-fumante recente. O presidente poderia ser flagrado com um boné da UDR por mera distração. Some-se a tudo isso a mais expressiva e recorrente mazela da falta de nicotina: o mau humor. O ex-fumante, sem perceber, torna-se um ser insuportável pela irritabilidade extrema e a reação irascível por quase nada. Tudo bem se esses sintomas aparecem em você ou em mim. Podem acarretar um pé-na-bunda por parte da namorada ou, na pior hipótese, uma demissão, pois chefe nenhum admite ser xingado só porque disse bom dia. Mas no presidente da República? O homem que tem a caneta? O comandante-em-chefe das Forças Armadas?

Ora, apenas como exercício de imaginação, consideremos que as conjunções astrais nos trouxessem uma situação mais ou menos assim:
- Mariva, cadê minha figarrilham?
- Lu, você parou de fumar, meu bem.
- Cafilda, é verdade. Então, cadê o Palófi?
- Tá na sala dele, amor. Fique calmo, daqui a pouco é a hora do almoço.
- Mmm, que cheiro esquivito, abre a janela.
- Lu, é o meu perfume, eu uso há mais de 15 anos.
Na sala de almoço do palácio, o mau humor já chega ao limite.
- Mariva, cadê minha figarrilham?
- Lu, você parou.
- Cafilda!! Chama o Palófi! Não, chama o garfom que eu tô varado de fome. Hmmm, que cheiro é êfe? É o feu perfume de novo?
- Não, Lu, é o bife de fígado, o seu predileto.
- Não é pofível. Eu pafei anos comendo uma coiva com um cheiro afim? Chama o Dirfeu!
Não bastassem as provações cotidianas, haveria as internacionais.
- Presidente, desculpe interromper seu almoço, mas é o presidente Bush no telefone.
- Grbll. Fala Bush. O que???? Cê vai me dar o que?? Tá me govando?? Vai fi fuder! Enfia efa caixa de charutos no cu!!!
Não, o Brasil precisa de paz e tranqüilidade. Fuma lá, presidente, fuma lá.