dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. |
28.11.03
Minas Quando a multidão de pijama ganhou a Ponte da Cadeia, com o sol recém-nasciso e o samba maduro, agradeceu aos céus ainda se azulando a bênção de estar ali. São João Del Rey era um dos poucoslugares do mundo onde a história era contemporânea, o centenário e a idade de crescimento dividiam o mesmo bar, o antigo estava vivo e pronto para o dia seguinte. Prova disso era o Bloco da Alvorada, que agora já tinha atravessado a ponte e aberto mais um Carnaval, com suas alegres camisolas, toucas, roupas de dormir de todo tipo, vestindo gente linda, alegre e jovem, afagando o patrimônio sobre o rio. Daquela hora em diante, a cidade se divertiria até a quarta-feira de manhã. Ele, provavelmente, pelo resto da vida. Caminhou na mesma direção do animado bloco, um pouco atrás dos foliões. Passando o velho hotel, pela rua transversal, havia um boteco com dois inevitáveis bêbados na porta. Saudou-os, entrou e pediu uma cerveja. Devia-se essa: uma cerveja antes das sete da manhã. Um brinde consigo mesmo. Depois de celebrar, tomou a direção contrária pela ponte e foi atá o hotelzinho onde havia chegado menos de 10 horas atrás. Deixara uma das malas no porta-malas do carro e levara a menor para o quarto. Em São João Del Rey, parecia seguro deixar uma mala grande como aquela, com quase três milhões de reais em cédulas, no porta-malas de um carro. Na entrada, a velha senhora que o atendera à noite já estava lá e, após o bom dia, lembrou-o de que, a partir daquela noite, a diária custaria o dobro: era o preço da procura no Carfnaval. Aceitou e subiu. Queria aproveitar a manhã para fazer planos. Primeiro, como ir ao banco? Haveria cofres tão grandes quanto o que precisava e discrição proporcional? Como entraria, em meio aos usuários comuns, caminhando com aquela mala até a mesa do gerente? Como justificaria ao gerente tanto dinheiro em espécie? Ou, se não justificasse, o que alegaria haver na mala de tão precioso que precisaria ser guardado em um cofre? Relíquias de família? Tinha que tomar todo o cuidado naquele momento. Por enquanto, parecia que deixar a mala no carro era o mais prudente. Saiu a pé pela cidade para se distrair e aproveitar um pouco mais aquele que parecia ser o primeiro dia de seus anos de tranqüilidade. Só em São João Del Rey ele poderia encontrar um jornal mural de leitura concorrida, um dazibau em pleno século 21. Só em São João Del Rey ele poderia tomar um caldo de mocotó tão saboroso. Só São João Del Rey tinha mulheres tão bonitas. Caminhou pela beira do rio, encontrando aqui e ali focos de folia, preparativos, confetes. Parou para ver a água correr e pensou que no comecinho do Brasil algum branco português recém chegado teria parado ali mesmo a observar preguiçoso o movimento de uma folha seca rio abaixo. Comeu pelos botequins barulhentos, gastou a tarde a pensar e não chegou a conclusão alguma. A mala dormiria no carro mais uma noite. O Carnaval foi passando animado, ele, observador, já podia distingüir os diferentes blocos, o mais curioso era o Bloco do Silêncio, uma dúzia de rapazes com longas túnicas brancas, que fingiam batucar com uma varinha muito fina e longa em tampinhas de garrafa no lugar de tamborins. Quando chegou a quarta-feira de cinzas, parecia que havia chegado lá na véspera. A partir daquele dia, a diária do hotel voltou ao seu preço normal. Ele decidiu que faria suas refeições ali mesmo, era mais cômodo e mais discreto. Poucos dias depois, a velha senhora bateu em sua porta para avisar que a partir do dia seguinte e durante toda o feriado da Páscoa, a diária seria novamente dobrada. A propósito, ele ainda não havia pago nenhuma diária até ali, ela gostaria, a partir daquele dia, de receber todo mês. Ele prometeu resolver tudo até o fim da tarde. Foi até o carro, precisava fazer alguma coisa com a mala, pelo menos pegar o dinheiro para pagar o hotel. Percebeu que o pneu esquerdo da frente estava murcho. Uma grossa camada de poeira cobria a capota. Olhou em volta, ninguém. Abriu o porta-malas e ali estava sua fortuna, escondida, bem-guardada. Não teve coragem de mexer. Precisaria pensar mais um pouco no que fazer com o dinheiro. Poderia ir gastando aos poucos, ir tirando notas de cinqüenta para cobrir pequenas despesas. Mas ia dar na vista, notas sempre iguais, de onde viriam? No começo da noite, experimentou abordar um casal de turistas que andava abobalhado pela rua. Contou uma história triste. Surpreendeu-se ao ganhar dez reais da simpática senhora que, pelo visto, ainda não havia se atinado do padrão monetário local. Deu aquela nota para a velha, era para pagar o almoço daquele dia, em pouco tempo quitaria os atrasos, os recursos estavam chegando. Durante a semana santa, perambulou pela cidade com sua roupa mais velha, com um encardido falsificado, camisa para fora da calça, contando aos turistas as suas agruras. A cada dia, a história ficava mais convincente. Ele nunca conseguia pagar os atrasados, mas como quitava as refeições e os meses vencidos, a velha foi deixando que ele ficasse ali. Nem dobrou a diária na semana da Pátria. Para compor uma cena mais convincente, ele começou a beber. Cachaça mesmo, era mais atinado ao papel. Seus andrajos foram ficando mais e mais rotos, espaçou o intervalo entre os banhos, e foi aumentando seu faturamento. No Natal, amealhou quase uma pequena fortuna, pôde até quitar um dos atrasados com a velha. Passou o ano novo entre os mendigos da terra, cada um contando sua história triste, dramatizada pelos vapores da uca. Famílias perdidas, patrões desalmados, amores desfeitos, havia de tudo naqueles enredos. O mais bizarro era o que falava do mendigo que tinha, bem escondida no porta-malas do carro, uma mala com três milhões de reais. O crioulo que havia sido expulso do exército deu-lhe um solidário tapinha nas costas. 27.11.03
Batuta Tinha alguma coisa em comum com Cole Porter, Billie Holiday e o açum preto: sua música era melhor quando sofria. Só que sabia disso. Podia, então, programar o sofrimento. Naqueles dias, precisava sofrer um bocado, porque o que tinha de entregar era quase uma sinfonia, Vários movimentos, nenhum allegro vivacce, romântico mas não Beethoven, no máximo Schubert e seu sofrimento inacabado, "impromptu". Sabia como. Grandes obras tinham saído de seu saber sofrer. Nos tempos de ainda amador, compunha seus ensaios só quando conseguia se apaixonar e, ato contínuo, ser corneado. Duplo esforço: primeiro o de se apaixonar, depois o de favorecer a traição sem perder a dimensão do sofrimento que ela deveria causar. Uma vez envolvido com uma mulher, procurava cuidadosamente o homem e a situação que perpetrassem a traição. Engendrava o próprio corno, mas conseguia sentir dor. Agora, mais velho e tarimbado, compunha com menos sofrimento, ou sem ter o sofrer como única motivação. Tinha aprendido a apreciar a glória, o afagar dos elogios, a cócega do não mereço tanto. Dor mesmo, só em momentos como aquele, em que sua criação haveria de mudar os destinos do país. Então voltava a utilizar a velha técnica, semeava, regava, cultivava e colhia depois o maduro sofrimento. Agora, escrevia sua obra furiosamente. Havia conseguido inesperado sucesso em engendrar aquela dor, chegava a arquear-se, talvez tivesse ido longe demais. Mas a obra pedia. Aquela era a segunda noite sem dormir, dedilhando as teclas com vigor e inspiração. O resultado começava a tomar forma, página após página. Estava chegando ao gran finale. Aquilo precisava ser realmente retumbante. Parou. Foi até seu quarto vazio e pegou o porta-retrato com a foto de Cecília em Bariloche. Chorou. Voltou ao computador e, em pouco mais de meia hora, encerrou o texto, sua obra-prima, sua nona sinfonia. Enviou o arquivo word por e-mail para o primeiro secretário no Palácio e, exausto, foi dormir. Acordou e olhou o relógio. Tinha ficado na cama por quase quinze horas. Já era noite outra vez. O grande momento viria no dia seguinte. Lendo seu texto, a sinfonia de palavras que havia composto com tanto sofrimento, o presidente anunciaria sua decisão de romper com a banca internacional e colocar o país em moratória. Dali a doze horas, um furacão percorreria aquela terra a partir da capital, mais precisamente do palanque onde o supremo mandatário da nação leria as duras palavras que ele havia escrito. Um carro parou em frente a sua casa. Foi até a janela e viu quando Cecília desceu do grande automóvel negro, escoltada por dois homens fortes de terno folgado. Sorriu, acenou e entrou. Ele rapidamente deitou-se e fingiu estar dormindo. Ela subiu a escada cantarolando, acreditando que ele não sabia de nada, achava que ela tinha ido à praia com uma amiga. Doía. Mas o resultado havia compensado. No dia em que a apresentou ao presidente, não podia imaginar que a dor seria tão profícua. Mini 16 A, esse, dê, efe, gê; cê-cedilha, ele, cá, jota, agá. Assim tudo começou. Dezessete aninhos. Intocada. Todo mundo querendo. Eu apenas melhorando. Taquigrafia, inglês, computador, auto-ajuda. Sempre intocada. Um ou outro ainda querendo. Agora, secretária do presidente. Justamente agora, ele deu para dizer que pode precisar de mais alguém. Amanhã eu chego cedo. Sem calcinha. 26.11.03
Calculista Era um vigarista letrado. Falava quatro línguas razoavelmente bem - o português pátrio parecia ser a pior delas, a julgar pelos bilhetes que cometia - e tinha o magnetismo pessoal típico de uma certa psicopatia benigna, que deixa aqueles a que acomete sem nenhum remorso de enganar o próximo e mentir com larga fluência. Nos últimos cinco anos, tinha sido diretor comercial de sete empresas, sempre chegando como salvador e saindo antes que percebessem o estrago feito. Não porque não vendesse, mas justamente pelo contrário. Em uma das empresas, uma gráfica, havia fechado um negócio da China: imprimir dez mil calendários de 60 por 90 centímetros, impressos a cinco cores - as quatro habituais e mais um verniz especial - pela metade do preço do melhor orçamento obtido pelo cliente. Falhou nos detalhes: a gráfica não imprimia formato tão grande e o preço do papel tinha subido trinta por cento uma semana antes. Quando o dono da empresa percebeu a encrenca, ele já havia pedido a oportuna demissão e procurava novas paragens em um congresso na Cidade do México. Foi lá que conheceu o alemão. Havia procurado a manhã inteira conseguir um encontro casual com algum magnata da indústria de brinquedos e acabou fazendo da forma mais primitiva. Deu uma trombada no homem em pleno corredor do centro de convenções. O alemão era dono da Wooden Joy, uma fábrica de brinquedos de madeira que parecia ter interesse em investir na América Latina. Como é comum nos psicopatas, foi do "perdón" à intimidade em menos de cinco minutos. Em quinze, já havia falado das maravilhas do mercado de brinquedos no Brasil e do incrível trânsito que ele mesmo tinha no setor. Tanto que havia sido um dos primeiros a ter acesso a uma pesquisa recente que apontava a crescente demanda por brinquedos de madeira no país. Que aliás, já era alta, mas a miopia do empresariado local não permitia que se aproveitasse a maré. Só mesmo um empresário de visão, com imensa capacidade de realização e de cultura sólida como a tedesca para aproveitar esse momento mágico e liderar a produção ludomadeireira do país, quiçá do continente. O alemão não entendeu metade daquele blablablá em uma estranha língua remotamente parecida com espanhol, mas julgou ver naquele homem uma oportunidade. Convidou-o para almoçar e contou seus planos para o continente. Mais especificamente, para o Brasil. Konrad von Hillesheim falava um inglês perfeito e sua visão dos negócios do Brasil era surpreendente. Já tinha planos de implementar uma fazenda de reflorestamento e produção de madeira para alimentar suas fábricas - sim, queria montar três unidades industriais para cobrir o Brasil inteiro com produtos da Wooden Joy. Precisava apenas de um diretor de marketing que fosse, ao mesmo tempo, arrojado e conhecedor dos percalços do mercado. Garantiu ao alemão: havia encontrado o homem certo. Combinaram um encontro no Brasil, o homem estaria no Rio em quinze dias. Deu a von Hillesheim um cartão de visita que prudentemente não trazia endereço, só telefones e e-mail. Coincidência: o cartão do alemão também não trazia endereço. Os telefones - um fixo e um celular - e o e-mail eram do México. Natural, um homem como aquele era um cidadão do mundo. Antes de se despedirem, von Hillesheim perguntou sobre seus contatos no BNDES brasileiro. Todos, é claro. O alemão chegou pontualmente ao Piano Bar. Disse, ao se sentar, que o Copacabana Palace era o seu hotel predileto. E olhe que ele conhecia o mundo inteiro deitando-se em cinco estrelas. Pediu um uísque e foi direto ao assunto. Queria um sócio brasileiro. Não, não precisava ser magnata, apenas ter ótimo nome na praça e disposição para dar cara brasileira a uma marca tão prestigiada como a Wooden Joy. Alguém que conhecesse gente do governo e cujo aval fosse acima de qualquer suspeita. Von Hillesheim olhou-o profundamente nos olhos e disse: "You". Sorriu. Só um alemão como aquele poderia ter tamanho tino. Acertara na mosca. Fez um certo charme antes de voltar-se para von Hillesheim e placidamente aceitar. O alemão propôs um brinde e lhe disse que em duas semanas no máximo queria estar com o escritório montado e os primeiros contatos estabelecidos, principalmente aqueles com o BNDES. Puxou do bolso um talão de cheques de um banco uruguaio e ali mesmo canetou quinze mil dólares, que deveriam ser suficientes para os primeiros dias. Depois, tomaram o resto da garrafa de uísque. O alemão estava vermelho e alegre. Pediu a conta. Ao assiná-la, comentou que precisava de dez mil reais para sua breve estada no Rio. Ora, o sócio brasileiro não lhe deixaria faltar nada. Com uma imensa dificuldade, pegou o talão e desenhou um cheque para o sócio alemão, que agradeceu e quis ir dormir. Subiu, menos cambaleante que ele, que ficou no térreo e pediu um táxi que o levasse até seu hotel barato em Botafogo. Acordou no dia seguinte com uma poderosa dor de cabeça. Lembrava-se vagamente do magnífico negócio fechado na noite anterior. Um pontinho de interrogação latejava em sua cabeça. Procurou no paletó amarfanhado sua carteira. Estava ali. Apenas para eliminar a possibilidade de sonho, abriu seu talão de cheques e foi direto ao canhoto. Estava lá o garrancho; dez mil reais. Foi de novo ao paletó. Olhou o cheque do banco uruguaio. Sorriu. Depois gargalhou até onde a dor de cabeça permitiu. Rasgou o cheque do alemão, jogou os pedacinhos na privada e voltou para a cama. Não tinha dez mil reais na conta. Em compensação, naquele momento, o alemão e seu banco uruguaio certamente não existiam mais. Psicopata bêbado não tem dono. Visitando o Cá da Serra, do Fernando Cals, achei, na longa e completa lista de sites a observar (Fernando é um pesquisador tão atento da internet que chegou até a este escondido Dito Assim, ainda no começo) um divertidíssimo blog português chamado O Meu Pipi. Sim, o tema é este mesmo que você está pensando, agora é delicioso ler as safadezas do autor escritas em (excelente) português de Portugal. Um achado, lido por uma multidão de internautas da terrinha, a julgar pelas centenas, e até milhares, de comments que cada nota sacana recebe. Sob informações desencontradas da meteorologia, começa um dia sujeito a chuvas e trovoadas, toró de trabalho, o que leva o texto do dia a ser postado somente à tarde, lá pelas duas. Tenham paciência com este limitado escriba. 25.11.03
Bell - Vou ligar lá. - Ah, não. - Por que não? - Ah, é ridículo, nós dois aqui, ninguém na casa e você nem olha para mim, fica olhando esses anúncios ridículos na TV. - Ah, amor, é legal, é engraçado, a gente pode se divertir. Mmmmm, vem cá, minha gata, deixa eu te beijar toda. - Mmmmmmm. - Vou ligar. - Saco! - Eu não decidi para qual delas. Olha. Esse parece bom. Não, essa mulher de peitão é dos anos 70. Ah, olha esse outro, parece bom. Zero, zero... Deve ser Filipinas, Malásia... Eba, tá tocando. - Aló? - B-b-boa noite. - Boa nóitchi, meu amór. É um prassér falar com bossé. Qui bocé quér, queridjinho? Qualé sua fantassia? - Que é que eu falo agora? - Bobão, sei lá. Põe no viva-voz, ménage-à-trois. Bobão. - Boa! Escuta, tudo bem se eu puser no viva-voz? - Bocé poen ondji quissér, gato. Até no bibabós. - Eu quis dizer conference call. - Ah, ah, ah. bossé tem un amiguiño, bamos a conversar a trés. Claro, muito sexy! - Não. É minha namorada. - Ah... - É, sou eu, a namorada burra dele. Ele é que quis, viu? - Claro, só podjia sér. Bom, bamos ao bibabós? Xá estou ficando excitada com nossa conbersiña. - Então fala, cê tá pelada? - Ô, bobão, isso é jeito de começar? - Úuuuu, cariño, ela tem rassáu, náu é assi que se começa. Pregunta que rôpa eu tô ussando. - Cê tá de calcinha? Tá de sutiã? - Como é bobo. - Calma, querida, no coménço eles sáo assi, meio imaturos. - Eu sei, mas já tô há um ano com ele e não muda nada. - Íiii, com meu primero marido bossé nem imaxina, era uma crianza. Sáu todos garotos. - Ô, peraí! - Mmmm, cariño, djá tá pelado? - Peraí o que, bobão, não vê que a gente tá conversando? - Conversando?? - Conbersando, sí... áhn... conbersando nó... ó... estééé... bibabós... - Você! Você é argentina! - Peraí, eu nem comecei a falar. - Fica quieto. Você é argentina, tá fazendo o que aí na Ásia? - Bocé sabe, a críssis, a chéntchi fala ben portugués. Era professora de filossofia, miña bóz agradó y me chamáron. É un bon enprego. - Mas não é meio chato atender garotada? - Escuta e eu? - Bocé acostuma, són garotos de toda a América do Sul. - Mas você não quer voltar? - ... Claro... claro... Oh, perdón por llorar... - Imagina, pega meu telefone, liga quando quiser conversar. - Gracias, gracias. *** - Pô, maior rolo com a conta de telefone aqui em casa. - É, mas você que ligou. - Mas quem ficou conversando com ela foi você - Ainda bem. Já imaginou, você garanhãozão, ia ficar horas com ela. - É, pensando bem, você tem razão. - Homens. 24.11.03
Mini 15 Tché-tché-tché, cuntché-cuntché-tché-tchéu - Ê, Al Capone, vê se te emanda, já sabem do teu furo, nêgo, no imposto de renda. Eu aprendi a gostar de Paulo Coelho re-ouvindo suas canções com Raul Seixas. Aquelas fotos da Caras que me deixaram são uma bobagem, ele é exatamente igual às peruas, mas nas letras do Raul Seixas é o máximo. Agora, o Diário de Um Mago. Também, é o único livro que eu tenho à mão. Fazer o que? Reler e gostar. Pela terceira vez. Não tenho como sair daqui por enquanto. Já sabem do meu furo, nêgo. Stone Mal comparando, sentia-se como Charlie Watts, que era feio, mas Rolling Stone. A festa era um curioso encontro de gerações. 90 anos de tia Lúcia. Compareceriam desde os seis amigos remanescentes da velha senhora até as duas bisnetas. Umas quatro camadas arqueológicas confraternizando-se entre brigadeiros e espumante. Foi direto à rodinha que cercava a aniversariante e a cumprimentou caloroso, quase gritando, provocando o habitual "é sempre o mesmo" da velhinha, que se lembrava mais vivamente de suas estripulias do que de seu nome. Cumprido o dever, vagou à toa pelo salão, sem procurar ninguém obsessivamente, mas sem achar ruim se encontrasse Helena. Encontrou tio Davi, chato como sempre, esbarrou em um primo adolescente que lhe pediu conselhos e obteve palpites, estacionou uma eternidade com tia Gertrudes, que queria saber tudo sobre Nova York, onde supostamente ele havia estado. Inventou umas compras, uns shows e a rua 42 para satisfazer a curiosidade, e seguiu em frente. Nada de Helena. Recusou um prosecco, estava a decidir o patezinho, quando uma mão firme lhe tomou o braço. "Oi, primo!" - Lucília - "Chegou de Nova York e nem conta nada? Bonitão, hem, muita festa, muita noite?" Lucília era a irmã mais bonita e mais fútil de Helena. Não usava óculos, tinha cabelos lisos, escapara de ser ruiva e exibia, coroando o corpo escultura, um par de olhos azuis tirado do fundo do mar com todos os seus peixinhos. "Me conta tudo." Inventou o mesmo roteirinho clichê, continuou procurando com os olhos. Ela, então, tomou-o pela mão e o foi conduzindo pelo salão até a porta que dava para o jardim. Sem soltá-lo, foi até um canto próximo a uma sebe alta que os escondia. Ali, sua expressão mudou, crispou-se. "Cadê o pó?" Que pó seria? "Deixe de conversa, cadê o pó?" Agarrou a gola de seu paletó, ele teve de usar mais força para afastá-la. "Você se enganou, eu não sei nada sobre isso." A prima insistiu, encostou nele, provocativa. "Eu faço qualquer coisa", e o agarrou de novo. "Lucília, tenha modos!" Ela não tinha. "Ok, ok, sem escândalo, vamos para um lugar mais calmo falar sobre isso. No seu carro, ok? Me encontra na frente do MIS, a gente vê o que faz." Ela saiu esbaforida, ele tentou o celular de Helena, enquanto caminhava calmamente em direção à porta. Caixa postal. Foi saindo com a discrição possível, direto para a rua, sem pedir seu carro. Virando a esquina, tomou um táxi, que o deixou no cruzamento da Groenlândia com Avenida Europa. Foi a pé até a frente do museu, fechado àquela hora. Beijou Lucília de leve e pediu para tomar o volante. Saiu em direção à Marginal Pinheiros. Buscava uma certa estradinha erma. Três horas depois, entrou de novo na festa, agora bem mais animada. A primeira pessoa que viu foi Helena. Abraçaram-se calorosamente. Ela estava mais deliciosa ainda. Levou-a pelo braço até o jardim, ansioso e excitado. No canto escondido pela sebe, pegou suas duas mãos e olhou-a nos olhos, profundamente. Depois de uma pausa longa, com ar de enlevo, aproximou o rosto ao de Helena e quase sussurrou: "A carga chega amanhã. Cento e vinte quilos. Tudo acertado com os africanos. Desta vez, meu amor, a gente tira o pé da merda." Helena sorriu. "Eu sempre confiei tanto em você, não tem detalhe que escape, você é meu grande apoio." Ele vacilou um segundo, deixou claro que faltava falar alguma coisa. "O que é?", ela perguntou. "É Lucília. Ela armou um escândalo, queria pó de qualquer jeito, fissura descontrolada, maior bandeira. Eu tive de tirar a pobrezinha do caminho." "E?" "Definitivo." Helena parou, respirou fundo, deixou transparecer uma ponta de irritação. "Sem pistas?" "Tudo limpinho, nenhuma pista." Quatro dias depois, no enterro de Lucília, Helena parecia inconsolada, em seu elegantíssimo vestido preto. Ele chegou e foi até ela. "Tá tudo lá, a grana toda, no lugar de sempre." Ela o abraçou, com a força de vinte anos atrás e não conteve uma curta gargalhada. "Olha como chora, coitadinha", lamentou a tia mais próxima. Ele aproveitou o quanto pôde aquele abraço, ao longo dos anos sempre esperava cair um dia nas graças e na cama de Helena. Afinal, ele era como Charlie Watts. Feio, mas Rolling Stone. 21.11.03
Mini 14 Foi até o zoológico, sozinho, e, já na entrada, comprou a mais melosa das maçãs do amor. Entrou, foi direto até o lobo guará. Adorava aquele bicho. Como ele, era meio desengonçado. Como ele, parecia ser o que não era. Como ele, estava em extinção. Ficou ali olhando até muito depois de acabar a maçã. Depois, levantou e foi embora. Não sem antes jogar no lixo o pauzinho e o exame positivo. Três Marília acordou sobressaltada, sonho com filhos. Passava das duas da manhã. A seu lado, o travesseiro intocado dizia onde estava Carlucho. Havia anos que eles se escondiam um do outro, ela nos cursos, ele na farra. Levantou e foi atá a cozinha procurar algum indício do sono perdido. Acabou fazendo um chá de camomila. Sentou-se ali à mesa da copa e, enquanto sorvia pequenos goles, foi-se lembrando do dia especial que tivera. Naquela tarde, havia entendido alguma coisa a mais sobre a relação entre um homem e uma mulher. Há dois meses fazia um curso de pintura em um atelier na Avenida Rebouças, que pertencia a um artista plástico húngaro, medianamente mal-sucedido no circuito das artes em São Paulo, e que tinha achado na atividade de professor de senhoras com sobra de tempo o seu ganha-pão. Curiosamente, sua turma tinha uma peculiaridade: um homem. André tinha mais ou menos a sua idade, cinqüenta e poucos, e desde menino sonhava ser pintor. A ocupação de vencer na vida havia lhe tomado o tempo de aprender essas artes e agora, com a vida ganha, decidira tirar algumas horas do trabalho para dar à pintura. Levava com muito bom humor o fato de ser um único homem cercado por seis mulheres, e sempre trazia um mimo para cada uma. Uma florzinha, um bombom, um elogio. Mas, para Marília, a florzinha era mais perfumada, o bombom tinha licor e o elogio não era público. Passaram a conversar nos minutos antes da aula começar e nos que usavam no fim para limpar os pincéis. Chegavam adiantados e só saíam com os pincéis impecáveis. Marília começou a se pegar contando as horas que faltavam para a aula começar. Naquela tarde, chegou um pouco atrasada - não para a aula, mas para os minutos antes - e um pouco tensa. Havia dito umas verdades a Carlucho pelo telefone, com o que acabou ouvindo outras. Não conseguiu se concentrar, não teve paciência para fazer os degradés do exercício, irritou-se com aquela tinta que não secava nunca. No fim da aula, André se aproximou com os pincéis na mão e disse: "Deixe que eu lavo os seus". Depois, convidou-a para um chá. "Marília, cadê você?" Carlucho tinha chegado e queria atenção. Deixou a xícara pela metade e foi até o quarto apenas para ajudar o velho companheiro a se pôr na cama minimamente composto - sem gravata, sem a calça do terno, se possível com um pijama, se não, pelo menos honradamente nu. Em dois segundos o marido roncava. Voltou à copa e ao chá. André a levou a uma casa de chá escondida na rua Haddock Lobo. Ali, entre aromas e biscoitos, ele lhe contou o essencial de sua vida dura, ela lhe contou o que de fato era, tudo em duas horas de conversa, risos e uma esquecida sensação de que valia a pena. Parecia, agora, que se conheciam. Ele, antes de pedir a conta, disse uma frase aparentemente fora de contexto: "Qualquer hora dessas, quero conhecer Carlucho." Sorriu. Terminou sua xícara, deixou na pia, foi dormir. No dia seguinte, cada um saiu para um lado: Marília para a casa da filha, que queria uns palpites sobre uma cortina nova, Carlucho para o escritório, onde chegou pontualmente às oito e meia e, lépido como um meninão, fez um galanteio à secretária e foi direto para sua sala. Três minutos depois, toca o telefone e a voz feminina anuncia: "Doutor Carlos, senhor André para o senhor na recepção." André? Não havia marcado nada com nenhum André. "Ele diz que é sobre uma certa transferência de patrimônio." Levantou-se para receber o desconhecido à porta. Ele chegou com um maço de flores vermelhas. Entrou na sala e deu-as a Carlucho. Sem bom dia, sorrindo, esclareceu: "Eu sou um homem de bem e quero me casar com sua mulher." Passado o susto, Carlucho convidou-o a sentar. Cancelou a agenda. Conversaram por quase três horas. Despediram-se como bons amigos. Restava uma pendência apenas, que combinaram discutir depois: como contariam a Marília? 20.11.03
Gota d'água Duas ou três coisas que eu sei dela. Para o gordinho falador, esse era o maior filme do Godard, um dos vinte mais importantes da história do cinema. Duas ou três coisas que eu sei dela. Vai ser chato assim na puta que o pariu. Mas ali, eu não conhecia nem o filme nem o Godard. Precisava deixar o gordinho falar e fingir que era tudo novidade para mim, aprendizado. Beber as palavras do filho da puta. Ele já tinha me comprado, eu não podia estragar tudo, ainda mais depois de mais de um ano desempregado, vivendo de dinheiro emprestado - e nunca devolvido. O gordinho precisava de um assistente, a sua função nova de diretor de criação, que o deixava encantado consigo mesmo, tomava muito tempo. Eu teria de fazer os textos finais de suas grandes idéias. Trabalho de execução, eu que deixasse a criação com ele, quem sabe depois ele entregasse alguns jobs para mim, junto com um aumentozinho no salário miserável. Eu tinha aceitado aquele emprego por um salário que era um terço do que ganhava na M., uma grande multinacional cheia de policies e tapetes a puxar. Um deles tinha me jogado no chão. No segundo dia, chegou um papel com uma linha escrita a mão. O primeiro job, a primeira idéia do gordinho que eu deveria desenvolver. "Um clima família em torno da margarina. Importante: chame o produto de creme." Cacete, aquilo era a primeira grande idéia que eu deveria desenvolver. Mato sem cachorro. Não dizia nem se era filme, anúncio, spot. Só lá a recomendação do clima. Onze e meia da manhã, eu já tinha gasto mais de duas horas queimando massa cinzenta para buscar uma idéia ali, quando chega o gordinho, cabelo molhado. "Tá tudo encaminhado, não é? Falamos logo depois do almoço." Descobri que o almoço dele terminava às três e meia da tarde. "Cliente, você sabe", justificou sem conter um pequeno arroto. Coloquei oito laudas na frente dele, com dezenas de opções de títulos e sete sinopses de filmes. Ele estava começando a ler quando o telefone tocou. Era o presidente. O gordinho foi ficando lívido e depois de um minuto de "claro, claro" e "deixa comigo", desligou e gritou: "Chama o Fumaça." O pobre produtor gráfico entrou e teve direito a seus quinze minutos de humilhação. Como eu, ele certamente precisava do salário no fim do mês, o que o impedia de dizer ao gordinho o que ele precisava ouvir. Passado o ataque, ele voltou-se para mim e disse. "Olha, tá comum, você ainda não pegou a idéia. será que eu vou ter de fazer eu mesmo?". Filho da puta, ele náo tinha lido nem a primeira página. Eu ia saindo de sua sala de vidro quando ele me perguntou: "Você já leu Taylor Caldwell?" Voltei para minha mesa e gerei mais umas cinco ou seis laudas. Gastei algum tempo, também, ao telefone, depois mandei uns dois ou três e-mails. Às sete da noite, o gordinho saiu esbaforido de sua sala, olhou para mim e disse que cedinho, no dia seguinte, veríamos as novas opções. Uma hora depois, deixei os papéis em sua mesa e fiz o favor de desligar o seu computador. No dia seguinte de manhã, cheguei cedo e um minuto depois, o presidente entrou na sala procurando o gordinho: "Cadê aquele filho da puta?" Entre nove e onze e meia da manhã, o telefone do gordinho tocou sem parar. Às quinze para o meio-dia, ele chegou esbaforido. O telefone tocou de novo, ele atendeu e saiu. Depois de meia hora, voltou demitido. A nota que havia saído em todos os sites de notícias do setor dava conta de que ele iria ser diretor de criação de outra agência, a aqui-rival M. Foi a gota d'água. Suas tentativas de negar só pioraram tudo, parecia que ele havia armado uma situação para obter mais dinheiro ou mais poder. Ia saindo sem se despedir, quando me viu ali no salão. Aproximou-se e disse: "Assim que eu me colocar, levo você". Me deu um tapinha nas costas e caminhou para a porta. Antes que saísse, perguntei: "Você já leu Edgar Allan Poe?" Não, não tinha lido. "É neurolingüística?". 19.11.03
Mini 13 - Ah, não, superstição, não, é desculpa sua. - Não é não, sempre que é treze dá errado. - Como errado, se você já teve treze anos? - Quebrei a perna duas vezes e tomei pau na sétima série. - Mas todo mês tem dia treze. - Eu tento ficar em casa. - Mas e às treze horas? - Eu chamo de uma da tarde. - Treze reais? - Não compro. - Canal treze? - Não me faz falta. - Mas então o que é que a gente faz? - Cancela. - Mas tem multa. - Quanto? - Treze dólares. - Então deixa. Mini 12 Japonês no elevador apertou o vinte e dois, já no térreo a porta abriu e entrou aquela deusa, mais alta que ele um palmo, ia até o vinte e seis, vestidinho de cetim, pares de revelações, pernas para meditar, olhos que ele viu que o viram, mais azuis que um oceano, penetrantes como espinhos, uma faca na garganta, ia falar. Com licença, vinte e dois. Mini 11 Subiu nas tamancas e desceu do carro para enquadrar o guarda que a ia multando. Como é que pode, é só um minuto, o pobre garoto saindo da escola - opa, mas que guarda! O senhor podia ser mais gentil e - que guarda... O senhor - posso chamá-lo de você? Voltou para o carro. Bateu a porta, o garoto quis logo saber: "Mãe, você tava multando o guarda?" Mini 10 Anão e ponta-de-lança. Titular do time do bairro, era um prodígio, o ídolo do F.C. Ribeirinho. Tocava a bola magicamente e atarantava os zagueiros dos bairros vizinhos. Seus dotes eram festejados pela pequena e barulhenta torcida. Mas havia um que apenas os colegas de vestiário conheciam. Só que segredo é como água - vai onde quer - e este logo chegou aos ouvidos da mulher do presidente do clube. Depois de umas tardes em que ela apareceu sorrindo demais, o pequeno prodígio acabou perdendo a vaga no time titular. Fugiu, prudente. 18.11.03
Erramos. Na quinta linha do Mini 9, abaixo, onde se lia "Ela tá passando...", leia-se (e agora já se lê) "Ele tá passando..." Não se preocupem, dei uma dura no revisor e cancelei algumas de suas regalias. Mini 9 - Canta, Lineuzinho. - Ah, mãe! - Canta, Lineuzinho. - Ahn. - Ele tá passando, Lineuzinho, canta! - Mas eu tenho vergonha, mãe. - Canta logo, Lineuzinho. - Ai, ai, ai! - Canta, senão não solto. - Coelhinho da Páscoa... - Ele olhou, Lineuzinho, ele olhou! Ah, como ele é lindo. - ...se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso - ih, mãe, errei. Bem, o atraso hoje foi motivado pela chuva de ontem, que derrubou uma árvore, que derrubou a eletricidade, o que derrubou a internet daqui. Ao voltar a energia, alguma coisa queimou no caminho e ficamos incomunicáveis a manhã inteira, máquinas ilhas, sem qualquer conexão interna ou externa. Acabamos de voltar. Cacilda, como a gente depende dessas coisas, que perigo. Cosecha O capacho felpudo na porta da importadora tinha uma beiradinha levantada. O suficiente para que eu e a sacola com quatro garrafas de Don Melchór nos estatelássemos no chão. Don Melchór 96. Que vontade de chorar. Tinha prometido ao pai de Vera que levaria os vinhos. Agora, estava ali, atrasado, aturdido e observado por uma dezena de sádicos com suas sacolas intactas na mão. O chão parecia o oceano de Moby Dick tingido de sangue. Rapidamente apareceu um funcionário, com seu avental listradinho, solícito. Tentou ajudar-me a levantar, o que acabou de me matar de vergonha. A loja era chique e eles também não deviam se sentir bem com aquela cena. Problema deles. Em pé, comecei a recobrar a confiança. Pedi o gerente. Não estava. Quem, então, responderia pelo prejuízo? "Olhe, moço, o senhor caiu já do lado de fora", defendeu o rapaz. Argumentei que não teria caído se o imenso capacho estivesse esticado. "Olhe, moço, desculpe, o senhor não teria caído se olhasse onde pisa." Que sujeitinho atrevido. Pedi o seu superior imediato, já que o gerente não estava. "Olhe, moço, quando não está o seu Osvaldo, fica o seu Chico. Só que hoje não veio nenhum dos dois, então não tem superior hoje não." Mas alguém teria de assumir o prejuízo. "Olhe, moço, acho que é o senhor mesmo, o vinho que o senhor derrubou era seu, era não?" Crueza. E eu atrasado no plano de fazer sucesso com o pai de Vera. O rei da pontualidade. O chato de galocha. O entendido de vinhos. Ponderei ainda que tudo tinha começado por uma falha da casa, o capacho mal colocado. "Moço, a gente coloca o capacho assim todo dia e nunca que caiu ninguém." Nunca que caiu. No seu português particular, ele dizia que nunca que eles iam me devolver o vinho derramado. Aquilo não ia andar e eu já estava mais de meia hora atrasado para o almoço, além de falido na conta corrente, depois de quatro Don Melchór 96. Só tinha um jeito: voltar lá e comprar quatro argentinos baratinhos e tentar levar o velho no bico. Entre os argentinos, havia um de seis reais a garrafa, Marqués de qualquer coisa. Comprei quatro. Já estava uma hora atrasado. Senti um certo desprezo da moça do caixa ao registrar os meus vinhos. A essa hora, Vera já devia estar me matando à distância. Uma hora e quinze de atraso. Entrei com a majestosa sacola na mão, as quatro garrafas dentro. O pai de Vera não perdoou: "A sacola é bacana, mas o vinho deve ser o Marqués de qualquer coisa", brincou, para meu desespero. Sacola na mão, foi decidido em direção à cozinha e, na presença de todos os meus santos, escorregou no ladrilho e caiu de costas, inundando a cozinha com o vinho vagabundo. As empregadas em segundos limparam tudo, a mãe de Vera prestou um socorro rápido ao chato e em menos de dez minutos, tudo estava restabelecido. A começar por minha reputação. Já com roupa trocada, o velho lamentou. "Que pena. Deu ainda para sentir o bouquet do Don Melchór. Inconfundível." Não pude deixar de consolá-lo: "Não se preocupe, de onde saiu isso tem muito mais. Não sei se 96." 17.11.03
Mini 8 Chuva, enfim, e na hora em que a chuva deveria cair. Vovô falou do feijão dos meeiros, vovó anunciou o café, fomos à mesa. Todos, menos os pequenos, cabia-nos a copa. Mas naquele dia, vovó resolveu que podíamos nos sentar com os grandes. Nunca me comportei tão bem. Em compensação, nunca comi tão pouco. Mais tarde, fora de hora, voltou a chuva. Ponderosa Torceu o botão "liga-volume" até o estalido, depois girou um pouco mais e foi à cozinha se servir, enquanto a TV esquentava o suficiente para que, primeiro som, depois imagem, ela a pudesse assistir. Sentou-se no sofá bem no momento em que começava o anúncio das 9 da noite, uma cançãozinha de ninar dos cobertores Parahyba. Naquele dia, o filme que viria logo depois era Bonanza, a saga fatiada de um fazendeiro e seus três filhos, que, a cada episódio, viviam peripécias que só reafirmavam a tenacidade e o engenho dos que haviam construído a América. Do norte, do norte, ela fazia questão de lembrar. Não via aquilo sempre, mas nada vinha sendo como sempre nos últimos dez dias. Antes, o televisor só era ligado em poucas ocasiões, por pouco tempo, geralmente no jornal falado. Era um monstrengo devidamente domado naquela casa. Tomou a primeira colher de sopa no momento em que a tela mostrava a apresentação do seriado, que começava com um mapa, aparentemente do Texas, ocupando a tela inteira, que num instante ardia em uma labareda que vinha do centro para os lados e revelava os personagens, logo após o letreiro "starring". Uma guitarra elétrica com um som que lembrava remotamente um banjo levava o tema musical e antecipava o heroísmo. Procurou assistir atentamente a cada minuto de aventura daquela noite. Queria entender, por meio das façanhas daqueles heróis, quem era aquele povo. Não havia mulher entre os personagens, o pai, Ben, comandava Ponderosa e tinha como lugares-tenentes os três filhos. Ela queria entender os que haviam criado tudo aquilo - aquele filme, os outros filmes que passavam na televisão, a própria televisão, o cinema, os mocinhos, os bandidos e os critérios de avaliação. Queria entender o que fazia bons os Cartwright e maus seus inimigos. Afinal, eles eram latifundiários típicos, Ponderosa era o retrato do latifúndio de pecuária extensiva, protegido a tiros e dramatizado pela onipresença masculina, que não deixava de incluir um proletário isolado, o cozinheiro chinês da casa. Mesmo com tudo isso, pareciam boa gente. Adam, o filho mais velho, até lembrava Lúcio, seu marido há dez dias fora de casa. Mas era uma comparação descabida. Lúcio tinha horror de figuras como Ben Cartwright e seus filhos. Aliás, se ele estivesse ali, estariam ouvindo discos ou conversando, talvez silenciosamente lendo. Lúcio adorava ler, adorava escrever, adorava falar. Tentou falar bonito quando vieram com ordens de levá-lo para uma conversa. Ela procurou conciliar os interesses junto à porta, mas foi rejeitada tanto por Lúcio quanto pelos três homens que o levaram embora. Já se iam dez dias sem conversa, sem vitrola, sem livro, sem as palavras de Lúcio no jornal, que tanto a enchiam de orgulho. Por esse acúmulo de ausências é que tinha tentado ver algo diferente, que lhe trouxesse uma razão, pelo menos um indício. Ao saber que a televisão levaria Bonanza pela última vez, achou que ali poderia estar o fio da meada. Encheu os olhos com a beleza madura de Adam Cartwright, a aparência bonachã de Hoss, a jovialidade do caçula Little Joe, a autoridade do pai. Deixou o prato de sopa pela metade. Quase cochilava quando o riso conjunto, acompanhado de um fundo musical jubiloso, ia encerrando o episódio. Deixou seu prato na pia da cozinha, no dia seguinte daria um jeito em tudo. Foi dormir pensando no fim de Bonanza. Sonhou com Lúcio, os dois juntos em Paquetá, depois cantando em francês, depois ele era Adam Cartwright. Lúcio não voltou. Ela acabou voltando para a casa dos pais em Pouso Alegre, em um sitiozinho hospitaleiro que nem de longe lembrava Ponderosa. Era apenas o começo. 14.11.03
Mini 7 Não vai dar certo. Mas eu vou tentar. Pé ante pé. Chave na porta. Devagar. Primeira porta, ok. Segunda porta, ok. Escada, escada, escada. Ok. A parte crítica: a porta do quarto. Devagarzinho, torcer a maçaneta, abriu. Quarto escuro, não ouço a sua respiração, tiro a roupa, deixo no chão para não abrir o armário. Me deito. Cama vazia. Cadê aquela vadia? Mini 6 - Respeitável público, é com o coração explodindo de alegria que entro neste recinto para me apresentar como o Rei da Cornualha, o feliz Monarca da Coroa de Touro, o Príncipe dos Alces. Estou aqui, em cima desta mesa, neste refinado estabelecimento apenas para dizer aos senhores que, tendo voltado um dia antes à minha cidade, celebro a graça da coroação que me foi concedida por aquela bela morena de vestido vermelho, sentada ali com o rapaz forte, que não sabe, mas é bem mais novo que ela. Rendo aqui minhas homenagens e manifesto minha eterna gratidão. - Marinho, menos! - Marinho, não, Dom Marinho, minha rainha. O segurança chegou para aplacar a dor de sua Majestade. Mini 5 Pó de arroz. Rímel. Baton. Cabelo bem escovado, chapinhado, liso, liso, liso. Vestido decotado, cavado, cheio de cortes, todo descontinuado. Buzina. Desce. Era o chato apressado, engravatado, sem sal e conveniente. Chegam à igreja, ele olha feio para o flanelinha, que caga e anda, com os 10 paus na mão. Entram, conseguem lugar bom, junto à passarela. Silêncio seguido de órgão berrando. Entra noiva com pai, Quico a recebe no altar, padre fala, fala, fala, noiva fala, Quico fala, e é até que a morte os separe. Saem pela passarela, sorriso permanente. Quico passa, ela olha para os olhos dele e os conduz ao seu decote. Só para lhe devolver a noção do tempo. Mini 4 Embarcou, apito toca, porta fecha, vai vagão. Ela caminha lá dentro a trabalho. "Eu tenho uma história triste para contar". E conta. Decorada. Duas moedas. Uma parada. Volta pelo vagão, conta outra vez. Igual. "Eu tenho uma história triste para contar". Três moedas. Outra parada. Desce, só para mudar de vagão. Entra, senta. Passa um pipoqueiro. Ela chama: "Pchiu". Compra e emenda: "Cê conhece a do bichinha?". Até que enfim, fim de expediente. 13.11.03
Passeio Toc, toc, toc. Acordei do Ravel e olhei o rostinho do outro lado do vidro fechado. O vidro e o CD, altíssimo, não me deixavam ouvir o que a boquinha se mexendo contava, sorrindo. Ela não se importava, continuava falando. Até que eu baixei dois dedos o vidro e ouvi. "Não tem como você se afastar de mim", e sorria, "com tudo o que eu sei de você", e sorria, "é tudo tão claro". A moeda de 1 real escapou de minha mão e caiu. Abaixei a cabeça a procurar no chão. Quando olhei pelo vidro de novo, ela tinha sumido. Senti um toque no ombro direito, ela estava sentada no banco do passageiro. "Você não pode sentar aí", avisei. "Eu posso tudo, hoje", respondeu, sempre rindo. "Posso até levar você para casa, quer?" Eu quis. Só aí o sinal abriu. Atravessei o cruzamento movimentado e, no longo trecho até a próxima esquina, olhei para entender o seu rostinho. Menina de raça vária, de olhar decidido, de rosto composto, mais Câmara Cascudo do que Hans Christian Andersen. Foi me guiando. Primeira à esquerda, terceira à direita, sempre em frente, vira por aqui. Em frente toda a vida. Dei por mim, estávamos já fora da cidade. Ela continuou me dizendo o que fazer. Obedeci até a estrada acabar. Ela desceu, deu a volta, abriu a minha porta e me tomou pela mão. Saímos andando pelo meio do mato, por uma picada com capim verde e fresco ao redor, atravessamos um bosque um pouco mais denso e chegamos à casa. Parei ao vê-la. Até entender que era a minha casa, fiquei olhando a porta pesada com a data logo acima e as iniciais de meus avós. O estilo normando deixava tudo um pouco pesado, mas era acolhedor. A porta foi-se abrindo e ali apareceu o rosto terno me chamando a entrar. A barulheira me interrompeu. "Desfibrilador", "outra vez", "não, não precisa, ele tá voltando", "a maca, a maca", "sai, circula, deixa a maca passar", "ele tá de olho aberto", "pulso, pulso", "tá me ouvindo?", "fica calmo". Me deixa ver minha avó, eu quero entrar, eu quero voltar lá para dentro, eu quero voltar. Me deixa. Um tranco. Minha avó sumiu, a menina sumiu, eu abri os olhos de novo, aquela luz branca, o sujeito de branco pedindo calma. "O pior já passou. Você teve muita sorte." Quis entender o que havia acontecido. Ele me pediu calma. Tudo escuro. Já na sala de teto branco e luz fria, alguém se aproximou do enfermeiro, que comentou: "Foi muita sorte. A bala entrou no peito e saiu perto do quadril. Assalto na Paulista. O carro era blindado, mas ele tinha deixado a porta destravada. Muita sorte." Tinha chegado bem perto da velha casa. Mas não haveria de faltar ocasião. 12.11.03
Mini 3 Tântrico. Vira a página. Peituda. Vira. Minha boquinha vai. Vira, vira, vira. Seus desejos. Vira. Morena, 16. Vira, vira. Loura, 18. Vira, vira. Ruiva 20, vira, vira. Odete gorda, frustrada, 46, pinta no nariz, três queixos, nenhum tesão e baratinha para ter serviço. Eureka. Cadê o telefone? Volta Evelina quis, enfim, conversar. Era tudo o que eu queria, mas naquela hora - e ela sempre quer tudo na hora - eu não estava nada bem. Depois, ela dizia, seria tarde. Marcou o horário - apertados quarenta minutos depois - e o lugar - um bar na esquina da rua Melo Alves com alameda Tietê. Com a água do balde de gelo, tentei reanimar minha mente embriagada, mas apenas congelei o nariz. Me vesti e pedi um táxi ao porteiro do prédio. Melo Alves com Tietê. Quando entrei no bar, achei que havia mesmo bebido demais. O imenso balcão fazia curvas na minha frente, certamente era a vodka. Evelina já me esperava. Me sentou numa cadeira alta e me interrompeu com os olhos quando eu já estava para pedir mais vodka - talvez assim aquele balcão ficasse reto. "Eu te chamei para repensar nossa separação e você vem aqui nesse estado", cravou sem dizer nem alô. "Mas você nem me deixou marcar para amanhã", tentei argumentar. "Se eu não aceito vir, você acaba comigo, se eu venho, você acaba comigo. E nem me deixa tomar uma vodquinha." "Não se faça de vítima. E você já tomou umas catorze vodquinhas. Carlinhos, a conta." Mulher decidida. E piedosa, acabou me levando para sua casa. Percorreu todo o caminho como se fosse o moço da DHL e eu uma encomenda pesada e molenga. Silêncio. Chegando à porta, olhei para ela com cara de mendigo, ela me olhou com cara de noviça e acabamos nos beijando. Fiquei uma semana em seu apartamento, que um dia foi nosso. A seco e alternando as poucas roupas que havia deixado lá (acho hoje que eram um fetiche de Evelina), duas calças, duas camisas, duas cuecas, três pares de meias - brancas. Fim de tarde, toca o telefone. Era Evelina. "Amor, vamos ao Balcão", ordenou. Que balcão? Por que não mesa? "Amor, Balcão é o nome do lugar onde a gente se encontrou na semana passada. Você não pode ter esquecido." Podia. Melo Alves com Tietê. Cheguei uma hora antes do combinado. O balcão era mesmo cheio de curvas. Sentei junto a uma delas e chamei o garçom. Perguntei se faziam cuba libre. Não, em geral não era pedido na casa. Mas se eu quisesse? A princípio nenhum problema. "Daqui para a frente, então, quando eu pedir 'aquela coca', você já sabe, eu quero uma cuba." Ele arregalou os olhos e assentiu. Quando Evelina chegou, abri os braços e a recebi com o carinho que ela merecia. Sorriu, enigmática. Pediu uma sopa fria e um suco, eu pedi minha coca. Ela me olhou longamente antes de falar. "Engraçado, eu pensei em vir aqui para falar com você fora de casa, sobre uma sensação." "Que sensação?" "Não sei como falar, você está diferente. Nesses dias em casa, você tem sido atencioso, carinhoso, mas não sei, um pouco triste. Como se faltasse alguma coisa em casa, em mim." "Faltar, só falta mais tempo de você comigo", respondi, completando com um beijo na boca e um sorriso apaixonado. Encantada, ela mencionou velhos tempos. Voltamos para casa nos amassando nos sinais vermelhos, mãos correndo loucas por baixo das roupas, redescobertas, tesão dos vinte anos. A partir desse dia, as idas àquele lugar viraram rotina, até porque eu não podia ficar muito tempo sem coca-cola. Com o passar dos meses, eu percebi que ela sabia. Mas relevava. Entendeu minha coca-cola pálida e dava a ela o crédito das noites boas que sempre vinham depois. E a ressaca, afinal, era só minha. 11.11.03
Pronto, voltei. Apenas para comentar que, pelo andar da carruagem, dias melhores virão. Amanhã, volto a postar historietas de porte e refinamento médios. Não levarei trabalho para casa, portanto a Pentel 09 e o pacote de papel sulfite irão cantar na noite da Fradique Coutinho, apenas para o deleite de vocês e meu. Mini 2 - Você não me ama. - Mas eu não tenho nenhuma obrigação de te amar. - Mas podia. - Por que? - Eu ia me sentir amada. - E eu? - Você ia se sentir melhor. - Prefiro um Dramin. Aliás, cadê meu Dramin? - Ficou no barco. - Essa merda balança muito. - Então. - Então o que? - Era mais fácil se você me amasse. - Por que? - A gente não vai sobreviver nem uma semana. - Eu como você. - Eu sabia que você ia acabar me amando. Mini Toca despertador. Espelho cruel. Veste-se. Gravata ensebada. Ônibus. Cartório. Carimba, carimba, carimba.Advogados, contínuos. Desvalidos. Desorientados. Dois ricos. Café, café, café - fraco. Velhinho. Chega. Ônibus. Miojo. Pijama. O travesseiro ao lado continua vazio. Destrava despertador. Meus queridos, ontem a movimentação foi até a meia-noite, hoje tem a apresentação do resultado para o cliente. O que significa que, pela primeira vez desde a remota fundação deste espaço, hoje não tem texto longo. Esperem por textos mais curtos ou comentários mal-humorados (ainda não decidi) ao longo do dia. Até a 1 da tarde estarei Grrrmbll. 10.11.03
Deu no Blue Bus, site de notícias do setor de propaganda, marketing et caterva: "Ao requisitar da Telefonica SP uma nova linha para sua empresa, a Engine, um leitor de Blue Bus decidiu soletrar o nome da empresa para nao haver erro no registro. Ele manda um comprovante da correspondência que está recebendo dirigida a Engine, registrada pela Telefonica paulista como Engine Escola Navio Gato Igreja Navio Escola." Fez rir a este Jaca Amantíssimo Ypioca Mônaco Elipse. Língua - Alô. - Eu queguia falá com o Seveguino. - Ele. - Seveguino, meu nome é Vaguela, eu tô pguecisando dos teus segviços. - Ih, mano, pelo telefone não dá não. - Onde a gente pode se encontgá? Combinaram no Jardim da Luz, lugar insuspeito do centro de São Paulo. Pelo menos às tardes de domingo. Severino chegou antes, gostava de ver o freguês aparecer. Só de olhar, sabia se era rolo de mulher, patifaria de negócios, dívida de jogo e até se o cara era o amante ou o corno. O tal Varela veio chegando, era magro, baixo e tenso. Trazia uma pastinha de elástico na mão e um par de chifres na cabeça. Logo me viu no lugar combinado. - Seveguino? - Eu mesmo. - Pgazêg. - Dispenso. O que é que manda? Abriu a pasta e tirou, junto com uns papéis, uma foto grande de um homem. - Tá vendo esse caga? - Tô. - Pois é, ele é meu chefe. Tgabalho na empguesa há dez anos, sei que ele apgonta pga cima do dono, leva bola nas vendas. - E aí, você tá defendendo o magnata? - Não, não. É que o filho da puta... - Parou, com a voz embargada - ...é que o filho da puta tá comendo a minha mulher. - E eu com isso? - Oga, me dissegam que você podia, sei lá, dá um sumiço nele. - Sei não. Dá a foto. Examinou demoradamente o rosto gordo do chefe do corno. Como é que alguém podia dar para aquele elefante suarento, até a foto grudava na mão. - Dez mil. - Cagalho, eu não tenho essa g-gana. - E eu não sou a Santa Casa, meu. Dez conto. - Tá bom, me dá uma semana que eu encontgo a g-gana. - O tempo é todo seu, mano, cê sabe meu telefone. Varela saiu apressado como chegou. Severino foi calmamente até o orelhão com a foto e os papéis que o grandessíssimo babaca havia deixado com ele, mesmo sem terem ainda fechado negócio. Atendeu uma criança, ele chamou o dono da casa. - Seu Luís Paulo está? É um amigo do tempo da escola. Assobiou toda a primeira parte de um pagode. - Alô? - É o seguinte, eu sei que cê tá comendo a mulha do babaquinha. Vai até o Masp agora e eu te conto o que eu sei e o que eu não sei. - Ok, ok, tô indo. - Eu tou com uma pastinha de elástico na mão. Foi até a Paulista. Não esperou cinco minutos sob o imenso vão livre do museu. O gordo chegou suando muito. - O que você sabe? Olha, eu tenho família, filhos, quanto você quer para calar a boca? - Ih, mansinho, véio, o negócio é mais embaixo. Quanto vale essa banha toda viva? - Como ?!? - É, cê tá encomendado. O cabeça enfeitada tá dando bufunfa alta. Mas eu posso aliviá o seu lado, não gostei nada do nanico, jeitinho de filho da puta. Se quisé a gente muda o lado. - Como assim? - Eu queimo ele em seu nome. - Caralho! - Salvo a sua e você ainda fica comendo a viuvinha gostosa, só de lambuja. - Porra, mas quanto custa isso? - Não encana não, não gostei do mané. Faço bem bagatinho pgo camagada. 7.11.03
Bandeira Bernardino alimentava a ilusão de ser feliz. Mas era atrapalhado e parecia vaca atolada: mexia, atolava mais. Tinha chegado no ponto de táxi com Santana zero, grana para pagar a vaga e aquele sorrisão bobo. Agora, três anos depois, tinha acabado de vender um Golzinho e estava trabalhando com um carro de frota. "Só enquanto ajeito as coisas". Como se enganasse alguém - ele não ia ajeitar nada, só ia afundar um pouco mais. Um dia, cheguei ao ponto mais cedo, fui o segundo da fila e logo peguei corrida. A dona do 507, gorjeta boa, conversadeira, ia sempre para a casa da filha em Santana, corrida para mais de 30 reais. Era feia de assustar criancinha, mas generosa e com pinta de ser mais do que remediada. Parece que o falecido tinha deixado um bom dinheiro, além do apartamento. Naquela manhã, o trânsito estava péssimo, tinha obra no túnel da 9 de julho, mas ela insistia em ir por ali, e eu não dou caminho a passageiro, vou por onde ele quiser ir , ele que pague hora parada. Ela pagava - e bem. Com a demora, o assunto foi acabando e ela, que costumava falar pelos cotovelos, fez dois minutos de silêncio. No próximo sinal vermelho, virou para mim e disse, um pouco embaraçada: "Eu queria te perguntar uma coisa, mas não sei se devo...". "Ora, pergunte, só não respondo se não souber". Ela vacilou um segundo e mandou: "Você conhece o Bernardino, o do Golzinho, não é?" "Claro". "Ele é casado?" "Separado, e mal separado: a ex-mulher levou tudo o que ele tinha", contei, logo vendo o interesse dela, só não imaginando a franqueza que ela teria: "Olha, eu estou muito interessada nele, mas o danadinho parece que nem me vê. É mais novo, eu sei, mas eu não me importo. Olha: se você me aproximar dele, eu posso te agradecer com muita generosidade". "Como assim?" "Você não está precisando de um novo jogo de pneus?" Só a buzina da madame do carro de trás me trouxe de volta ao trânsito. "Vou ver o que posso fazer", respondi, tentando parecer indiferente. Logo que a deixei, corri direto para o ponto, nem quis saber de dois passageiros que deram com a mão no caminho. Cheguei lá, Bernardino era o penúltimo de uma fila enorme. Parei no fim da fila, desci e o convidei para um café no boteco do lado. Ali, fui direto ao assunto. "Bernardino, você já sacou, a dona do 507 tá a fim de você." Ele deu aquele sorriso bobo. "Ah, meu, Deus me livre, a mulher é um trubufu e tem idade para ser minha mãe." Fiquei puto, mas peguei leve. "Bernardino, ela tem grana. Disse até que gostaria de dar um presente para você, um CD pro seu carro. Aí eu tive de dizer que você tinha vendido a porra do carro. 'Cê não entendeu caralho? Ela é a sua chance de sair da merda." Ele ficou vermelho e mais babaca: "Eu não sou disso, não." Aí, chutei alto: "Ela falou até num carro novo pelo amor correspondido. E você aí: foi comer a mocinha bonitinha, tua mulher te pegou com a botija na boca e pronto: nem carro mais você tem. Agora aparece a salvação e você prefere continuar na merda". Ele pareceu se tocar: "Peraí, não é assim". Alguém berrou do ponto que a fila tinha andado. Fui até o orelhão e liguei para ela: "Olha, o Bernardino topa, só quer receber uma primeira prova de carinho". No dia seguinte, chega o aparelho de CD com um bilhete. "Que seja apenas um começo". Bernardino acabou saindo com ela. Alguns dias depois, me ligaram da loja de pneus para que eu fosse retirar a mercadoria comprada no meu nome. Belíssimos pneus. Um mês depois, um Astra brilhando pára no fim da fila. Era o Bernardino. Para a rodinha, ele contou que tinha ralado bastante e assim se recuperado da má fase. Demorou para falar comigo. Uns dois meses. Um dia, fila grande no ponto, ele me chamou para um café. Jogamos um pouco de conversa fora, até que ele parou, me olhou com sua cara de otário, deu aquela risada e confessou: "Meu, eu estou apaixonado, gamadão". Tentei ser generoso e achar que ele era cínico. Mas era sincero, o babaca. 6.11.03
Peso O que viu do outro lado do espelho lhe deu o susto de costume, toda manhã era o mesmo. Parecia que a noite de sono a fazia esquecer de como era gorda. Detestava seu peso. Vestiu-se com roupas largas - todas as suas roupas eram largas. Desgostosa venceu sua própria tonelada e saiu para o trabalho. Ali, não falava com ninguém, não precisava, mas se precisasse sabia que seria um imenso sacrifício. Falava, isso sim, com os desconhecidos que a imensa lista do computador fazia aparecer em seu "head set". Nove entre dez desligavam depois de um "não obrigado" bastante seco. Os poucos com quem conseguia falar normalmemnte simpatizavam com ela, seu timbre de voz era agradável e tinha muita desenvoltura para tecer argumentos de venda. Fechava mais negócios do que a média das colegas do telemarketing e tinha muito menos stress. Afinal, do outro lado da linha havia apenas uma voz, sem olhos para vê-la e se apiedar de suas formas. - A senhora é a dona da casa?(...) Pois eu aposto que a senhora não está totalmente satisfeita com seu peso. (...) Eu quero que a senhora - posso chamar de você? - você conheça um produto que faz verdadeiros milagres. É o MaxiSlim, um novo creme que queima o excesso de gordura sob a pele e devolve suas linhas de menina. Pelo telefone, fechava muitos negócios e falava pelos cotovelos. Nos intervalos, ficava quieta no seu canto, na maior parte das vezes lendo Seleções, sorvendo aquela informação que, de tão fria, parecia sempre atual, observando-se a sensação de se estar vivendo nos anos 50. Um dia, estava concentrada na história de um menino que havia vencido uma terrível doença crônica e agora era quarter back no time do colégio, quando sua chefe a chamou à sala. Foi a contragosto, quase se encolhendo. O assunto era previsível. - Eu estou muito preocupada com você. Esse problema do peso. Você é nossa melhor vendedora, é ordeira e quieta, até quieta demais, enfim, você é muito boa profissional. Mas o seu peso... - Não se preocupe, eu resolvi dar um jeito nisso. - Ah, que bom. Mas se precisar de ajuda, de uma força, fale comigo, não seja tão fechada, afinal a gente acaba ficando a maior parte da vida juntas, não é? Isso é quase a nossa segunda casa. Cumpriu seu regime de 6 horas - telemarketing é muito desgastante, por isso a jornada de trabalho é reduzida - e foi para casa. Teria de enfrentar o espelho de novo. Adiou. Sentou-se no sofá com um número antigo de Seleções. Leu inteiro. Lá pelas 10 da noite, foi até a geladeira. Haviam sobrado umas seis ou sete folhas de alface. Pegou uma delas, colocou no prato, despejou sal. A muito custo, comeu metade. Não agüentou. Correu para o banheiro e vomitou de novo. Ao se refazer, ali estava o espelho, ali estava ela, gorda, acintosa. Até o fim da semana, perderia mais um de seus 37 quilos. Mas não deu tempo. 5.11.03
Não costumo trazer trabalho pro blog, em outras palavras, não falo de propaganda aqui. Só que, no caso, vou apenas usar a propaganda para ilustrar a calcificação cerebral que assola o planeta. Li a notícia dando conta de que o Conar suspendeu a promoção da TIM prometendo tarifa de 7 centavos o minuto, "pelo resto da vida". O órgão alega que "a TIM não pode garantir as condições desta oferta para toda a vida, já que sequer pode certificar por quanto tempo vai perdurar sua autorização para prestar serviços de telefonia móvel no País". Engraçado, todo paulista quando chega ao Rio nota que, ao pedir uma informação na rua, o solícito passante dirá, se for o caso de se seguir em frente por muitos quarteirões: "segue toda a vida". Não me consta que algum conterrâneo incauto tenha morrido de tanto andar. Desse jeito, "Bom Bril tem 1001 utilidades" deverá em breve ser solenemente vetado pelo severo órgão. Já imagino o parecer: "Para a referida esponja de aço, só foram comprovadas, até o momento, 317 utilidades, o que obriga esta casa a recomendar a retirada do material publicitário, até que se ateste a presença das demais 694". Gente chata. Com pressa, posto hoje um texto requentado, de 2000, cuja frieza do tema pode ser útil para entender um pouco da precoce neurastenia de seu autor. Enjoy. Em domicílio Talvez por ser curioso, talvez por dever de ofício, vivo atento, quando estou na rua, à paisagem urbana de São Paulo, certamente um dos visuais mais caóticos e degenerados do mundo. Outro dia, me deparei, num intervalo de menos de 15 minutos, com duas placas que prometiam "entrega em domicílio" dos produtos que anunciavam. "Em domicílio". Quando eu era criança, era "a domicílio". O que houve? A impressão que dá é que, de tempos em tempos, alguém, certamente sem nada mais para fazer, resolve investir o seu tempo em projetar a reforma da língua, mais ou menos como o Américo Pisca-Pisca do Lobato propusera para a Natureza, tirando as melancias do rés do chão para colocá-las em árvores. Assim, decretou-se a imolação em praça pública do "a domicílio", como se a expressão fosse a causa mesma das mazelas culturais e educacionais desta terra descoberta por Cabral. Dizer "a domicílio" passa a ser algo tão feio e proibido quanto bater na mãe ou passar a mão na bunda do padre. Por que? "Porque você não entrega 'a casa' e sim 'em casa'", responde o Pisca-Pisca de plantão. Creio ser desnecessário e inútil tentar reabilitar o velho jeito, mas não custa tentar: entregar "a domicílio" pode, com alguma saudável liberalidade, ser considerado como antropomorfização da palavra casa ¿ entrega-se algo à casa como a alguém mais. Eliminado o artigo, como é próprio e habitual com esta palavra, "à casa" vira "a casa", "ao domicílio", então, vira "a domicílio". Pronto, sem stress e sem a buzina para os ouvidos que é esse negócio estapafúrdio de "em domicílio". Se é para entregar "em domicílio", prefiro buscar na loja. E os Américos não param. O professor particular dos meus 14 anos, que pedia, educadamente, "um copo com água", emendando solene: "veja, Jayme, o copo é de vidro, não de água, por isso não se pode dizer copo d¿água". Os dois executivos de marketing decretando solenes que "independentemente" é que era o certo, eliminando pela raiz a simpática utilização da palavra "independente" como advérbio, que por anos passeou pela nossa língua, sem trazer qualquer ameaça ou perigo de degradação. A discussão sobre a diferença entre eficiência e eficácia, que é mais ou menos a mesma que existe entre seis e meia-dúzia. Os Américos graduados são capazes de aporrinhar dúzias de pessoas e até de cobrar cachê apenas para reformar a natureza e pendurar sua melancia no alto da nossa língua. E o pior é que, ao contrário do que aconteceu com o pobre Américo Pisca-Pisca original, a melancia não cai sobre suas cabeças. E lá vão eles. Conseguiram fazer com que a grande maioria da população, da classe média para cima, substituísse o claro e jeitoso "em vez de" por um esquisito e impreciso "ao invés de", como se as expressões tivessem o mesmo sentido e a segunda é que fosse culta. Na verdade, "ao invés de" quer dizer "em oposição a", "ao contrário de", enquanto "em vez de" quer dizer isso mesmo: "no lugar de", "em substituição a", enfim, "em vez de", ora essa. Ainda outro dia, conversava com um amigo, queixando-me, ranzinza, destes atos de lesa-língua. Depois de alguns minutos expondo meu incômodo e minha preocupação, procurei saber o que ele pensava da minha idéia de escrever alguma coisa a respeito. Depois de um sorriso plácido, ele disse: "Jayme, acho ótimo. Com esses exemplos, você consegue tangibilizar o problema." Tangibilizar. Lembrei dos velhos tempos e me queixei da revisão do meu carro, depois de perceber que o Américo Pisca-Pisca vencera a parada. 4.11.03
O colecionador Voyeur, convicto e só. As pessoas não sabem o que é um autêntico voyeur. Costumam confundi-los com aquelas figuras frágeis, tímidas demais para abordar uma mulher e que, então, espiam, tentando tocar com os olhos o que não conseguem tocar com os dedos. Fornicadores de memória. Serezinhos sem nenhum refinamento, sem gosto, sem ciência. Não, o verdadeiro voyeur é refinado, estudioso, erudito, um esteta. Um colecionador de imagens, ao mesmo tempo um cientista da alcova alheia ou, melhor, dos cantos escondidos do sexo feminino. Alguém que já superou os prazeres primitivos da genitália e entendeu, de ver o que os demais não vêem, a dimensão do sublime. Uns aprendem a conhecer cada parte escondida do corpo da mulher, formando um vasto acervo. Outros vão se especializando, tornando-se monotemáticos, sabendo mais e mais sobre uma só parte recôndita. Eu pertenço a essa categoria, a dos Volpis ou Ianellis do ver-descobrir. Como todo voyeur, comecei ainda jovem, com o mais simples, as dobras atrás dos joelhos no chacoalhar do bonde, mais tarde as partes de trás de coxas sob saias que começavam a adotar tamanhos diversos, trazendo até, vez por outra, uma fração fugaz de calçola. Depois, vieram os seios e suas variadíssimas formas de se esconder e aparecer de repente. Eu já tinha passado dos 50 quando consegui capturar um mamilo, glória das glórias. Mas nada como a experiência para ir refinando os gostos e domando os impulsos. Nada como o tempo para revelar a sutileza. Com o passar dos anos, aprendi a focar o que estava apenas próximo do objeto useiro da busca. Se todos querem um mamilo, por que não pesquisar o que essa maioria nem nota? Durante algum tempo, tentei me fixar na clavícula, particularmente naquele detalhe a que chamam saboneteira. Belo, mas um tanto comum. Um dia, tive a revelação do caminho a seguir. Estava na biblioteca municipal, a consultar uma genealogia, hábito que adquiri ao chegar aos 60. Junto a uma estante próxima, a funcionária recolocava os livros nos seus lugares. Lancei um olhar distraído no exato momento em que ela levantava a mão direita acima da cabeça para recolocar um livro. Daquele ângulo, vi, revelada pela manga curta e um pouco mais larga, a axila. Desde então, coleciono na memória milhares de axilas. Capturo-as em situações diversas. A mais comum é a axila casual, que se mostra na rua, no caixa do supermercado, no ônibus (sempre que posso, pego um ônibus para fruir da riqueza daqueles braços levantados agarrando a balaustrada). Essas eu classifico como imagens do dia a dia, desfrute trivial. Mas a "crème de la crème" são as axilas "soirée", as que se mostram nas festas black-tie, nos grandes eventos. Creio que trabalhei como um mouro a vida toda apenas para poder ir a essas festas. Nelas gravo as melhores imagens. Axilas lisas como porcelana, outras com um ou dois pequenos excessos de pele, a confirmar anos de magreza, algumas quase atléticas e aquelas que, desafiando o requinte da noite, não conseguem esconder uma microespinhazinha, uma fração de um pelo esquecido ou um fragmento do desodorante roll-on. Coisa para olhos treinados. Toda vez que eu tenho a oportunidade de registrar minhas axilas "soirée", sigo mesmo ritual: de volta para casa, dou um beijo carinhoso na testa de minha mulher e digo que subo em dois minutos, apenas tenho de resolver uma questão na biblioteca. Sei que ela vai dormir em um minuto e meio. Desço e me sento na cadeira junto à escrivaninha. Ligo o aparelho, que já está com o CD dentro, e deixo a música tocar, enquanto fecho os olhos e os slides vão passando, projetados no lado de dentro da minha pálpebra. Não há como Chet Baker para momentos como esses. 3.11.03
O texto abaixo tem um asterisco junto à palavra "fôrma", para o qual não pus a nota correspondente. A referida ia dizer: "Procurem o verbete 'fôrma' no Aurélio e o acharão com acento. O velhinho era invocadíssimo e colocou a palavra assim, com circunflexo diferencial, e ainda fez um protesto, até hoje colocado em seu dicionário. Transcrevo: 'Parece-nos inaceitável (...) a abolição do acento diferencial, decorrente da lei nº 5.765, que estabelece alterações no sistema ortográfico de 1943'. Segue um trecho de poema, após o qual o tio do Chico retoma: 'Seria inteiramente impossível perceber o sentido da estrofe , não fora o acento diferencial'. Isso num dicionário! Apesar do que diz o Pasquale, sou Aurélio e não abro." Limites Doeu. Agora, tinha mesmo de ir ao dentista. Ligou, apenas para saber que o próximo horário disponível era dali a dois meses. Conseguiu cavar um encaixezinho, quinze minutos na disputada agenda. Tempo suficiente para ouvir que a dorzinha era apenas a ponta de um iceberg de descuido, cuja dimensão só poderia ser avaliada com um diagnóstico mais amplo, a começar por uma radiografia completa e uma moldagem das duas arcadas. Saiu do consultório com uma guia que o encaminhava a uma clínica especializada em diagnóstico odontológico. No mesmo dia, lá estava ele. Era um casarão na Avenida Brasil onde certamente haviam morado vários quatrocentões desdentados e felizes. Ali começou a quebra de seu sigilo bucal: raio X das duas arcadas, dois a dois dentes. Sua dificuldade maior era a mal confessada gastrite, que parecia aumentar muito sua sensibilidade a objetos estranhos colocados na boca. Cada chapinha de filme colocada sob a língua ou junto ao palato lhe deixava no limite de uma golfada. Terminada a sessão de radiografia, mudou de sala para a segunda parte: moldagem. Nada fácil o procedimento: uma massa finíssima é colocada em um molde, uma fôrma* de metal em forma de ferradura que se encaixa na arcada com a massa ainda mole e, assim que ela endurece e é retirada, lá está, carimbado, o formato exato dos dentes. A solícita e simpática técnica se aproximou com a forminha e ele logo avisou: - Eu tenho gastrite, eu enjôo muito fácil. A moça, piedosa, enquanto aplicava uma primeira camada de massa geladinha em seus dentes, antes de colocar o molde, explicou: - Eu tenho prática nisso, pode deixar. O indicador com a luva plástica passeava por sua boca, enquanto ele tentava explicar: - Oflha, eu flenho gasflifle. - Pode deixar, eu tenho prática nisso. - Maf gleu flenho... - Eu sei, o senhor tem gastrite. Bem. Colocou a primeira fôrma na arcada superior. Com um dedo sustentou-a por uns segundos, enquanto tentava acalmar o tenso paciente. - Tá tudo bem, né? Tá sentindo alguma coisa? - Glflh. - Viu? Daqui a pouquinho termina. Vai pro trabalho depois? - Glhvlhh. - Tá tudo bem, né? - Glh. - Sabe como eu faço com pessoas mais sensíveis que nem o senhor? - Glh, glh. - Eu ponho menas massa. - Gl-gl-Bgloeaaaaarghhhhhhh! - Não deu para segurar. Fôrma, molde e sua última refeição foram todos parar no colo da solícita e aterrorizada enfermeira. Ele tinha tentado se segurar, mas naquele momento, menas foi mais. Na rua, voltou a dorzinha no dente. Só para lembrar que tudo aquilo era apenas o começo. Bom dia. Bem-vindos a este blog que completou um mês ontem. Fora um pouco de artrite e alguns fios de cabelo branco, a idade não lhe teve um efeito tão devastador. |