dito assim parece à toa

Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história.


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31.10.03

Domingo, o Dito Assim completa um mês de vida. Parece mais, pela intensidade, ou menos, pelo prazer que me traz. A boa nova colateral é que consegui superar a proposta original de colocar um texto a cada dois dias. Esta produtividade inicial deve pautar o padrão do blog, vou ficar em cima da turma para que entreguem direitinho. Nem sempre é fácil administrar tantos funcionários. Bem, em suma: na segunda feira, vocês encontrarão um espaço mais maduro.




Projetar

Ela era linda apenas porque não há uma palavra que designe a beleza na dimensão que a sua assumia. Alta, cabelos castanhos claros, quase sempre presos num rabo de cavalo (nas raras vezes em que os soltava, os pássaros nas árvores ensaiavam sinfonias, os padres jogavam livros para o alto, o governo assinava anistias, caía um avião no Oriente), olhos verdes, pescoço longo, seios pequenos como soem ser os seios lindos, pernas compridas, tudo envolvido sempre por uma elegância que fazia o entorno fazer sentido.

Não sorria. Não sorria nunca, embora tivesse os dentes mais lindos, e falava com precisão e propriedade, o que dava uma chance de compreendê-la mesmo durante o transe provocado pelo som de sua voz.

Todo dia, antes dela chegar, aquele lugar era um escritório de arquitetura, típico, com suas com suas pranchetas e réguas paralelas, suas centenas de tubos de papelão verde, suas mapotecas, seus projetos inacabados esperando o expediente recomeçar. Bastava ela entrar e tudo se transformava em um castelo encantado, uma casa de chocolate, um Theatro Municipal.

Como naquele dia em que o escritório receberia clientes importantes e tudo havia sido recomendado na véspera: manter a ordem, a limpeza e as aparências. Mas que aparências, se as aparências precisavam da presença dela para parecer?

Os clientes importantes, por exemplo, ao chegar, minutos antes dela, eram homenzinhos comuns, engravatados, que, assim que a porta abriu e ela entrou, se transformaram em nobres do tempo de Luís XIV, vestidos de acordo, fazendo jus a passar pela porta de ouro e marfim que levava à sala dela.

Saíram uma hora depois, ela não apareceu, ficou em sua sala, e parecia, por isso, que de lá saíam grãozinhos de ouro. Escureceu. As pranchetas vazias de novo, mas ainda pareciam teares, ela ainda estava por ali.

Ousei. Todo esse tempo a devotar-me em silêncio a ela parecia dar-me esse direito. Entrei em sua sala, ela estava de cabeça baixa. "Não se pode ganhar sempre", falei. Ela levantou lentamente a cabeça, até que seus olhos penetraram os meus e, levemente, sorriu. Eu havia conquistado a graça máxima. Levantou-se, chegou perto de mim, tomou-me as mãos com as suas e disse: "Você tem muito o que aprender, menino".

Aprendi, ao longo dos anos. Terminei o estágio em seu escritório, venci a terrível sensação de perda, formei-me arquiteto, em vinte anos tinha um escritório igual ao dela, apenas com computadores no lugar das pranchetas e das réguas paralelas. Aprendi. Mas acho que aprendi errado.




Não falha: no armário, no escuro, quem procura a camiseta acha sempre o cuecão. Ou o amante.



30.10.03

Acho que agora purguei. Ou não?




Original

Terminou em cima da hora, às 7 e 15, clicou o "send" e lá se foi o texto cumprir seu destino e ocupar o espaço exíguo que lhe cabia, meia página na Big Waves. Saiu diretamente para o merecido descanso, no caso, uma dose dupla de uísque esperando por ele no Predileto, uma apertada mistura de pub com aqueles "speak easy" do tempo de Al Capone. Gostava de repetir: o bom bar é aquele a que se pode ir sozinho porque sempre haverá um encontro esperando - mesmo que seja com o garçom.

Foi o quarto a chegar, depois do garçom, do dono e do japonês.
- Fala, meu Japa - abraçou, acenando para os outros dois -, saiu cedo da revista, hem?
O Japa tinha um ar preocupado que não conseguiu disfarçar. Diagramador da Big Waves desde o número zero, tinha apresentado o amigo ao dono da revista porque achava que havia ali um redator talentoso esperando apenas por espaço. Há seis meses, esse espaço era meia página de comentários sobre idéias, cultura, livros, algo aparentemente inusitado em uma revista de surf, mas um sucesso crescente. Mais de 70 e-mails sobre a última edição haviam chegado.

- O Pauleca recebeu uma ligação anônima - Pauleca era o fundador, dono, editor, redator-chefe, publisher e diretor comercial da Big Waves -. O cara do outro lado falou que os seus artigos são plágio.
- Plágio?!?
- Fala baixo - zen, o Japa - , deve ser zoação pra cima do Pauleca. Mas só pra você saber, ele ficou cabreiro.
- Que merda, logo agora, logo pra cima de mim.

Dissolveu o cenho com a chegada das outras pessoas e o aumento do volume da conversa, que foi alto e proveitoso até uma três da madrugada.

Chegou em casa com o piloto automático, que o ajudou a tomar o elevador e abrir a porta. No chão, entre a mala direta do cartão e o aviso do condomínio atrasado, um bilhete com duas palavras: "Plagiador barato!". Trancou as três chaves da porta e quase engatinhou até sua cama, quando tocou o telefone. Cambaleou até ele e atendeu, só para ouvir:
- Plagiador barato! Plagiador barato!
O que era aquilo? O que quer que fosse, não era maior do que o seu sono. Dormiu ali mesmo.

Acordou com o interfone.
- Bom dia, é o seu... como é o nome mesmo? Ah, é o seu Justino pro senhor - desinformou, como sempre, o porteiro. Mandou subir, quem quer que fosse.

Abriu a porta no momento em que chegava do elevador um sujeito de terno: oficial de justiça. Trazia uma intimação. Com muito esforço, conseguiu descobrir que estava sendo processado. Plágio.

Chegou esbaforido à revista, Pauleca não o recebeu. Mandou o rapazote do financeiro lhe dar o cheque e o recado de que não precisava mais voltar. Ficou desesperado, falou mais alto, mas a presença do guarda o acalmou e o tirou dali.

Na rua, procurava saber o que havia acontecido. Nunca na vida havia copiado nada de ninguém, nem no tempo do primário. Só podia ser armação. Foi direto ao Predileto, só estava o garçom lá, que rapidamente o medicou com um uísque de emergência triplo. Pediu papel e uma Bic, sem saber muito o que escrever. Dois golões abriram-lhe o verbo e ele começou com "Os dias platinados a corroer o lado de dentro do meu crânio, a ressecar minha alma, onde param as agruras..." e por duas horas foi até "...enlaça-se o que sobra da combalida liberdade e se lhe aponta o cano implacável da intolerância". Nunca antes havia escrito assim. Tomou o quarto uísque e saiu.

Em casa, deixou-se cair no sofá, estava agitado, assustado. Ligou a TV. Na tela, um pastor, inquisitório, falava à câmera: "...os dias platinados a corroer o lado de dentro do teu crânio, a ressecar tua alma, onde param as agruras...". Não chegou a ouvir "...enlaça-se o que sobra da combalida liberdade e se lhe aponta o cano implacável da intolerância", mais demorado que o trajeto de sua janela ao cimentado do térreo.

Plagiador barato.




O primeiro plágio, a gente nunca esquece. Eu não esqueci, como se verá acima.



29.10.03

Em tempo: a nota abaixo não é uma rendição ao opressor malvado, é um pedido de foco. Foco.




Alerta!

Depois de uma noite mal dormida, depois que os jornais trataram de despejar sua enxurrada de más notícias, resolvi que era hora de revelar tudo o que sei. Sim, tenho visto aqui e ali mentes mais argutas, como a do sábio governador do Paraná, que logram ter a percepção clara das ameaças terríveis que se colocam à frente da humanidade. Os transgênicos são apenas a ponta de um iceberg, que remonta a décadas passadas. Bem, vou contar tudo. Mas atenção, afastem as crianças da tela. Fechem as janelas. Não falem do assunto com estranhos.

Na verdade, tudo começou com a televisão. Muitos de vocês não se lembram (a amnésia induzida é parte da tática deles) mas no tempo do titio Molina, todo mundo sabia que ficar a menos de um metro e meio da TV dava câncer ou debilidade mental. Hoje, não se fala mais nisso. Por que? Ora, eles conseguiram fazer com que as vítimas sumissem. Para que vocês imaginam que servem os imensos desertos da América do Norte?

E o celular, então? De onde vocês acham que vem o último incêndio na Petrobrás? Esse eles não conseguiram esconder porque foi grande demais, mas e os milhares de incêndios que ocorrem todo dia em postos de gasolina nas grandes cidades do Brasil? Toda noite, um exército de bombeiros paralelos, com esquadrões de pedreiros, pintores, serralheiros, percorre as ruas da cidade recolhendo os corpos das vítimas carbonizadas e reconstruindo os postos para que ninguém perceba nada de manhã. Preste atenção. Dê uma olhada no posto de gasolina ao lado de sua casa. Ele não está igualzinho ao que estava ontem? Não é de desconfiar, nenhuma mancha a mais, nenhuma mudança de cor?

A trama continua em sua determinada sanha de destruir a humanidade. A alimentação é a nova frente a atacar. No começo era o milho híbrido. A devastação que causou foi imensa, mas eles conseguiram esconder no deserto todas as crianças de sete dedos e os hermafroditas, enquanto adaptaram à sociedade os teratos mais discretos. Como evolução do processo, chegam agora os transgênicos. Parece ser o golpe final. A destruição da humanidade está à soleira da porta. Os sinais são claros, mas apenas o Requião e eu enxergamos. Mas, leitor, tente, olhe à volta, ponha óculos para filtrar os raios maléficos e ligue a TV. Luciano Huck, viu? Luciana Gimenez, notou?

Agora que tudo se revelou, aja com muito cuidado. Faça uma mala pequena, junte a família, pegue as bicicletas (os carros estão monitorados) e, como quem não quer nada, fuja para o Paraná. É a única esperança.



28.10.03

Acabo de saber: a historieta abaixo já existe! Sim, sério. Os olhos de lince do Zubas detectaram um texto com a mesma história, impressionantemente parecido, só que escrito por um profissional da crônica, o inigualável e querido Mário Prata. Antes de queimar no fogo merecido, deixem-me apenas contar que Salomé faz parte de um conjunto de crônicas que recontam histórias que amigos ou conhecidos me contaram como as tendo vivido, proto-plano de um livrinho que nunca saiu, e que deveria se chamar "O preço do peixe". Aliás, é dessas histórias que saiu aquela do cara que não acha a igreja no dia do casamento do amigo, postada no dia 4/10. Salomé me foi contada por um amigo publicitário, um dos maiores contadores de casos hilariantes que já vi. Reservo-lhe o nome para que o Prata fique bravo só comigo.




Salomé

Mulher e filhos na praia, ele não tinha mesmo por que chegar cedo em casa, resolveu aceitar o convite dos amigos do escritório para uma cervejinha, que acabou engatando num jantarzinho, mais uma cervejinha e só. A conta, tchau, manobrista, casa.

Casa, ah! Na sala confortável, parou um minuto para ouvir o silêncio. Só então serviu-se de um whisky e ligou a TV, mais como quem acende uma lareira, sem nenhum interesse na programação. Sentou então no sofá para pensar em nada. Depois do terceiro gole, o olhar distraído passeia pela casa - belo apartamento havia conseguido com anos de trabalho bem feito - e pára na janela. Vê então um movimento estranho no apartamento da frente, do outro lado da rua. Não estava bem claro.

Apertou os olhos e surpreendeu-se com o que viu: a silhueta de uma de mulher, movendo-se devagar, nua. Levantou, bateu a canela na mesa de centro, mas a dor importava pouco diante da visão. Chegou até a janela, o que era aquilo? Conseguiu distinguir um corpo moreno, os cabelos correndo pelas costas de pele macia, e ela fazendo um movimento leve de bailado. O que era aquilo? Não era casual, não parecia ser. Será que... Ela estava dançando para ele, ciente de seu olhar embasbacado na janela. Agora, parecia sumir, onde está?, apenas para aparecer de novo e retomar o movimento. Só não conseguia distinguir um olhar, que poderia revelar as intenções da malvada.

Só saiu da janela umas três ou quatro vezes - talvez cinco - para repor o whisky no copo, whisky amigo, a lhe trazer moderação naquele momento que ia ficando selvagem. Ah, a comunicação do corpo. Esperaria para retribuir aquele espetáculo com um gesto? Sim, melhor esperar. Apenas sentou um pouco no sofá, antes de tentar se comunicar com a bailarina da janela. Afinal, estava há uma hora apreciando a musa dançante.

Acordou já com sol alto, sete e meia da manhã, o copo pousado à sua frente, aguado, escorrendo. Boca seca, viu as horas, levantou sobressaltado, tinha reunião logo cedo, como tinha dormido no sofá? Aí se lembrou: onde ela estaria? Foi à janela para ver se achava alguma improvável pista de seu destino. Olhou bem e lá estava ela, a salomé do apartamento do vizinho: uma frondosa samambaia balançando com a brisa.

No escritório, guardou para si as tórridas emoções da noite.



27.10.03

Como se vê abaixo, chegamos a um acordo, personagens e eu, e publicamos. Confesso que eles tiveram mais disposição do que eu de correr o risco. Gente estouvada!




Passatempo

Não gostava de estar em pé naquele canto. De fato, não era por vontade própria que estava ali. Não inteiramente, pelo menos. Mas já que estava e tão cedo não sairia, pareceu-lhe que a única coisa útil que poderia fazer era lembrar. Produzir reminiscências.

***

Embora tivesse memória remotíssima, a ponto de narrar cenas vividas aos dois anos de idade, considerava que sua memória relevante começava aos 18 anos. Se estivesse em um livro, teria apenas uma referência, nas primeiras linhas, aos 16 - quando lhe acometeu a paralisia.
Com 18, avançava corajosamente de muletas sobre as calçadas de São Paulo, altivo, a dizer com o corpo que venceria o percalço. De fato, fazia de tudo para se livrar das severas seqüelas da doença, com a ajuda de horas de dolorosa ginástica e improvável natação, em uma das poucas piscinas de competição disponíveis à época na cidade.
O marco zero de sua memória relevante foi a tarde em que resolveu entrar na livraria da Rua Marconi. O pé direito alto, as estantes de madeira até o teto e a simpatia do livreiro davam-lhe tanto prazer que, paradoxalmente, ia pouco até lá, porque quando ia, comprava - e não raro, sem ter como pagar. Naquele dia, ao entrar, não buscava nada de especial, já tinha pago seu débito com Anatole France - para ele, uma chatice enfeitada -, já prestava atenção no que era possível da literatura brasileira sob o DIP, ia compondo uma cultura clássica. Entrou para rever a casa. E ali estava, atrás do balcão, Esther.

***

Ali, em pé, ao lembrar de Esther, quase desistiu das reminiscências. Mas fazer o que? Contar carneirinhos? Compor palíndromos de cabeça? Lembrar palavras cruzadas já feitas?

***

Riram muito ao lembrar da cena. Dez anos tinham passado, ele, agora um jovem advogado, tinha se livrado das muletas e reconstruído sua perna direita à revelia da ciência. Ela tinha muito para contar. Começando por confessar que, naquele dia em que o conhecera na livraria, tinha sentido por ele algo que nunca havia experimentado antes. Por isso é que tinha sido um tanto rude e agudamente crítica a suas escolhas tão heterogêneas. Não pensava em convertê-lo a um pensamento mais conseqüente, queria apenas se defender de um sentimento que a ameaçava. Para ele, no entanto, o efeito havia sido devastador, como são as revelações. A partir daquele dia, intensificou ainda mais o esforço físico e concentrou a ginástica intelectual no campo do marxismo. Descobriu a idéia da busca de uma sociedade mais justa.
Riram muito. Ainda mais porque ela vinha de Israel, com notícias frescas de uma experiência real, fora dos livros, de implantação de uma sociedade igualitária, e ele, em São Paulo, depois de vencer a atrofia da perna, tinha planos de vencer muitos mais.

***

Lembrar-se eternamente de Esther. Ficar ali em pé poderia, afinal, fazer algum sentido.

***

Tocavam marchinhas, havia uma tremenda algazarra lá fora, as pessoas cantando a copa do mundo que era nossa. Esther não estava. Tinha estado, nos últimos 20 anos, no lugar de honra de seu coração, de sua alma adolescente. Desde sua volta de Israel, tinham se aproximado a ponto de serem uma coisa só. Cada um à sua maneira, tinham resolvido mexer no seu Brasil e fazer em casa as utopias que viam pelo mundo. Ele, advogado trabalhista, defendendo quem faria a revolução, ela na militância partidária, tentando fazer aqueles que ele defendia entenderem seu papel transformador. Naquela noite, no entanto, enquanto o povo ganhava as ruas, a contra-revolução ganhava a briga e lhe tomara Esther. Viver, só para lembrá-la.

***

Muito perto de Esther.

***

Viveu a vida por obrigação. Nos últimos 30 anos, seu escritório de advocacia se abarrotou de dinheiro, ele não tinha nenhum tipo de dificuldade material, em compensação não tinha filhos. Nos momentos em que estava sozinho, tinha apenas um foco de atenção fora do trabalho: gostava de acompanhar a história dos Kibutzim em Israel. Por mais que o sonho ali parecesse ter acabado, eram eles que tinham motivado Esther a buscar suas próprias utopias. Não havia Likud que pudesse estragar aquilo. Uma noite, estava zapeando a TV a cabo, quando parou em uma reportagem que mostrava o projeto de um muro separando os territórios palestinos das áreas habitadas por israelenses. Apertou a tecla rápido, aquilo lhe fazia mal. Meia dúzia de canais adiante, de novo Israel. Um jovenzinho muito branco, falando inglês com sotaque eslavo, dizia com ironia: "Hoje, o kibutz só é importante para seus próprios membros, e mesmo assim...". Desligou. Passou a noite em claro. Não foi ao escritório no dia seguinte. Decidira sair à procura de Esther.

***

Em pé. No canto. Vergonha. Mas sabia que estava menos longe de Esther ali, longe que estava daqueles que a tinham levado. Não se arrependeu em nenhum segundo daquela longa eternidade.




Good morning, Vietnam! A poucos minutos de decidir os destinos do mundo (vou entrar em uma daquelas reuniões de diretoria), aviso que, mais uma vez, o personagem resolveu me fazer umas perguntinhas sobre o tão bem engendrado enredo e o papel que eu havia arrumado para ele. Depois de redefinir o capitalismo, vou ter com este indisciplinado, vou levá-lo a uma salinha e vocês vão ver quem manda em quem por aqui.




24.10.03



Enquanto esperamos: minha atividade profissional, com todos os percalços que carrega, alguns naturais, outros sabor framboesa fantasia, tem uma vantagem: coloca o combalido redator em um ponto de observação do qual pode claramente enxergar a decadência do capitalismo. Basta ver a capacitação intelectual de alguns gestores, em cargos estratégicos de grandes empresas, cujas decisões movem às vezes, centenas de milhares de dólares, reais, rúpias. Vê-se logo que muitas destas centenas de milhares de moedas estão seguindo uma tendência forte de ir para o saco. Com o aval destes gestores. Grrbrrrrgl.




Cabrocha

Havia sim, havia algo a fazer para entender o acontecido.

Escolheu no guarda-roupa, entre os vestidos que haviam sobrado por velhice ou manequim, o que pareceu lhe servir, ainda que apertado. Achou também um par de meias de crochê, que esticaria o suficiente para caber em suas pernas, além de disfarçar um pouco os pelos. Maquiagem, havia de sobra, bem como variada bijuteria. O que não havia eram sapatos - os que ficaram jamais serviriam em seus pés - e uma peruca.

Achou tudo o que faltava em um brechó escrachado na rua Teodoro Baima. Chegou em casa - ou quase, ou meia, ou semi, ou proto-casa - com as sacolas e abriu todos os pacotes ali mesmo na sala, espalhando as compras. Havia gasto R$ 62,00 no brechó. Incrível, R$ 62,00 por quatro sacolas, incluindo dois pares de sapato plataforma, salto enorme, duas perucas e mais acessórios e bugigangas compradas por impulso - já ia se compondo.

No dia seguinte, o sábado, acordou tarde, fuçou a geladeira rarefeita, quase nada, o pão de forma havia mofado. Pulou a fase café da manhã e retomou o projeto. Olhou tudo o que ia precisar, organizou o que havia na casa - ou quase, meia, semi, proto - e o que tinha trazido do brechó. Colocou tudo sobre a cama, depois de ter afastado os lençóis em desalinho, e pôs-se a escolher o figurino.

Seis da tarde, depois de um esforço cão, conseguiu se vestir. Tinha ainda pela frente a maquiagem e a peruca, ou vice-versa. Achou melhor tirar o vestido, as meias e principalmente os sapatos de salto alto. Tirou também o sutiã com enchimento e, só de calcinha, começou a se maquiar.

Pronto. Tudo acabado. E montado. Chamou um rádio-táxi, era impossível guiar daquele jeito. Vestido com fenda lateral ousada, peruca castanha clara, maquiagem em tons quentes, destaque no brilho do batom. Chegou à porta do clube - aí ia ter o momento mais tenso - mostrou a carteirinha e entrou rápido, sem saber o que o porteiro ia contar no dia seguinte. No salão, o baile de Carnaval ia animado, primeira noite era assim. Procurou as mesas onde estariam os sócios antigos, Clarice certamente entre eles. Depois de algum confete na peruca e no baton, avistou, de longe, a mesa. Acertou o passo, salto alto demanda atenção, e pé após pé, rumou a seu objetivo.

Chegou. Chovia confete, serpentina e marchinhas. No primeiro momento, ninguém o reconheceu assim montado. Clarice, a ex-mulher, estava com o marido novo ao lado, acompanhando a música com os indicadores. Aproximou-se do casal, passou por Clarice e foi direto ao marido. Levantou-o sem maior dificuldade e, com olhar arrebatado, desferiu-lhe um longo beijo de língua, como há muito não dava. Depois, largou o homem de lado, virou-se para Clarice, a ex-amada, e falou:

- Agora eu entendo.

Saiu diretamente para o baile. Consta que emendou até terça-feira.



23.10.03

Podem reclamar, saiu tarde. Mas é que esta foi mais uma manhã em que tive de descarregar textos e mais textos publicitários. Não, não há analogia entre esta situação e o final da crônica de hoje. Qualquer semelhança terá sido mera coincidência.




Depois

Fiel como um cão de guarda, Martins tinha servido à família Rocha Flores desde sempre. Guiava o carro grande. Tinha sido contratado pelo velho, décadas atrás e, carro após carro, guiava sempre o grande, aquele que o patrão usava.
Naquela tarde, guiava devagar. No banco de trás, além do velho, sentavam-se as duas filhas, ambas gordotas, a mais nova, sexagenária mais recente, enxugando uma lágrima fortuita, a mais velha, conformada.
Apenas mais dois carros seguiam atrás do carro grande, um levava os genros e os netos, outro o último velho amigo. Na frente, lenta, a perua com o caixão. A mulher do velho havia gasto os últimos dois anos a morrer. Ele, outrora poderoso, havia ficado sempre ao lado dela, derrame após derrame, mesmo depois que ela já não o reconhecia mais.
De volta à velha casa, reuniram-se por uma hora ao lado do velho, quase em silêncio. Depois, foram saindo, primeiro a filha e o genro que moravam em Miami, com o neto gordo que levava seu nome. Depois a mais velha, com o marido e as gêmeas, que ainda tinham de voltar a São Paulo. Por fim, o velho amigo. Sozinho, ficou aliviado.
Sentia, como nunca, o peso da idade sobre o corpo franzino. Estava moído, sentia-se encolhido. Nos dois anos a velar, havia prestado pouca atenção a si mesmo, agora parecia que todas as mazelas apareciam juntas.
Afundou-se na poltrona, em silêncio, e assim ficou por quase uma hora. Então, mandou chamar o velho motorista. Martins entrou com seu corpanzil ainda forte e esperou as ordens do velho.
- Providencie para que vendam a casa. Depois, despeça os empregados.
Mudou-se para um hotel, confortável, cinco estrelas, depois de transformar todo o patrimônio em dinheiro. Alojou Martins no quarto ao lado, luxo aparentemente desproporcional, mas que dava a medida da gratidão do velho à fidelidade do empregado de tantos anos. Acomodada a bagagem, o velho mandou chamar o motorista ao seu apartamento.
- Martins, me traga uma puta.
- Doutor, eu...
- Vá, Martins, me traga uma puta bonita e jovem.
Meio aturdido, o fiel motorista saiu a cumprir a ordem do velho. Não demorou muito. Eram pouco mais de 7 da noite quando ele bateu à porta do quarto e entregou a moça.
Lá pelas 9, percebeu movimento. A camareira trazia o jantar. Adormeceu com o jornal no colo. Pouco antes da meia-noite, foi acordado pelo telefone interno, era o velho chamando. Encarregou-o de pagar a moça e levá-la aonde ela quisesse.
- Obrigado, eu pego um táxi na porta.
- Não, minha filha, Martins leva você.
No carro, silêncio. A moça pediu para ficar no centro, àquela hora poderia arrumar mais um freguês. O motorista assentiu e dez minutos depois parava na esquina indicada. Ela ia descendo, mas ele a segurou pelo braço, suplicante. Ela sorriu, afastou-se. Dois passos depois, voltou-se para o carro, olhou-o bem nos olhos e, assentindo com a cabeça, fez um 2 com a mão direita.
No neon sobre a porta, a letra H apenas piscava.



22.10.03

O textículo abaixo, passado na cidade do São Sebastião, a grande sacada de Estácio de Sá, a sobrevivente - com cicatrizes - da tentativa de assassinato perpetrada por um ser denominado Marcos Tamoyo, me faz lembrar: que saudade do Rio de Janeiro.





Arremedo

Só tinha conseguido comer naquele dia porque depois da novela das 8, que começava às 9 e acabava às 10, a mulher do zelador do 34 tinha se apiedado dele e do ensopadinho que o marido não quis, unindo os dois enjeitados.
A turistada avarenta não lhe dera um tostão o dia todo, a não ser por uma inútil moedinha de 25 centavos de dólar. Ele passava o dia ali por Copacabana, fazendo imitações do canto dos bichos. Seu ponto preferido era a esquina da Avenida Atlântica com a rua Constante Ramos, na calçada do restaurante. Ali, em passado não muito distante, a imitação de um macaco lhe havia rendido 5 dólares. Agora, a coisa estava preta.
Naquela noite, depois de alimentado, foi à sua esquina ver o que ainda podia conseguir. À noite, a tônica sexual do turismo local não dava espaço para suas imitações. Ninguém estava interessado em seu guaxinim, o nhambu, perfeito em tonalidade, ritmo e intensidade, não fazia verão, a jaguatirica tinha apenas assustado a loira, bem na hora em que o alemão avermelhado lhe tinha dado a primeira atenção. Não, aquela noite não ia render nada.
Resolveu caminhar atrás de um lugar seguro para se encostar, e mais aconchegante do que a areia da praia. Foi em direção ao Leme, mas não andou mais que meia quadra. Um BMW preto veio vindo devagarinho em sua direção e parou ao seu lado, junto ao meio-fio. O vidro elétrico do passageiro desceu suave, revelando uma figura feminina envelhecida, um número maior do que o vestido brilhante e uma expressão de infinito fastio.
Teve de se abaixar para ver o motorista, que também se curvava para vê-lo, quase no colo da passageira.
- Ei, você é o cara que imita bicho? - embriagado, distribuía perdigotos nas pernas da acompanhante.
- É, sou eu.
- Imita o papagaio.
- Ah, doutor.
Ele puxou 50 pratas.
- Imita o papagaio.
Nunca tinha imitado um papagaio, bicho que qualquer um imita, mas deu o melhor de si. O homem riu muito, como uma criança, deu-lhe a nota e arrancou rumo ao sul onde a noite acabaria.
Cinqüenta pratas. Olhou em volta, temeroso, escondeu a nota dentro das calças e seguiu. Acabou dormindo em um banco duro, no calçadão, em frente ao Hotel Méridien, muito iluminado e quase sem areia. O seguro morreu de velho.
Durante o dia seguinte, tudo foi um pouco mais fácil. Conseguiu imitar um corrupião para um casal de noruegueses e inventou um morcego ganindo pra uma criança gorda e sua mãe. Trocou a nota de 50 com a moça do jogo do bicho.
À noite, nem tentou abordar os turistas do restaurante, ficou zanzando por ali. De repente, do nada, vem a BMW preta. Pára ao lado, abre-se o vidro.
- Imita o papagaio.
Fez o que pôde, o outro riu a valer e lhe deu mais uma nota de 50. Sumiu com a BMW. Sempre aparecia, quase diariamente, lá pela meia-noite, às vezes com uma mulher, às vezes com duas, às vezes só.
De papagaio em papagaio, foi remediando sua situação. Tudo indicava começar uma maré boa, parece que quando a gente sai do desespero, as pessoas nos enxergam melhor. Começou a ser solicitado por turistas de todos os tamanhos e cores, imitava a fauna brasileira inteira, inventou uma arca de Noé tropical, cheia de ariranhas, capivaras, tapires, que ganhavam voz pela sua voz.
Progrediu, terceirizou, tinha uns cinco ou seis garotos fazendo imitação do Arpoador ao Mirante do Leblon, e já pensava em conquistar São Conrado. Em três anos, conseguiu comprar um carrinho, em mais dois um carro médio, em uma década navegava um carrão. Vidro preto, como carro de paulista, parou no sinal, distraído. Ouve então, alguém bater no vidro. É um velhinho com ar pidão. Abre uma fresta e passa uma moedinha para o pedinte, que abana a cabeça, com um sorriso desdentado, falando algo que ele não entendia. Abriu mais o vidro. O velhinho, com uma expressão quase infantil, suplicou:
- Imita o papagaio.



21.10.03

Enfim, personagem e autor chegaram a um acordo, ao que parece, vantajoso para o personagem, como sempre. Mas, enfim, é o que temos e ora publicamos. Voilà.

O vizinho

Se tinha uma idiossincrasia mais acentuada, ela se relacionava às palavras. Tornava-se um velhinho ranheta sempre que colocado a certo tipo de inovação na língua. Como se fosse um veterano comunista, que aceitava o que era revolucionário e detestava o que parecia ser pequeno burguês, estrilava por dentro com tudo o que fosse ou soasse como neologismo ou invencionice. Coisa de velhinho.
Tinha acabado de mudar de emprego, ia para um banco maior, prédio posudo na beira do Rio Pinheiros. Seu cargo, bom para um executivo ainda tão jovem, lhe facultava uma mesa, com computador em um salão com uma dezena de módulos iguais, cada um com quatro postos de trabalho. No primeiro dia, colocou suas coisas sobre a mesa, um mouse pad, uma foto de família e um porta-lápis, e pôs-se a reconhecer o terreno. Tudo aparentemente bem, de seus três vizinhos mais próximos, dois eram quase tão jovens quanto ele e o outro, o que sentava bem ao lado, era um sujeito já quarentão, quase gordo, vasto bigode e gravata larga com o nó mal feito. Uma figura bem destoante por ali, como um repetente um palmo mais alto do que os outros garotos da classe.
Chegou no dia seguinte de manhã às quinze para as oito. O vizinho já estava lá. Sorriso de dentes cerrados, que nem o bigode disfarçava.
- Aí, garoto, chegou cedo hoje, hem?
- É, eu gosto (cara esquisito, pensou, a que horas ele chega?).
- Olha você vai gostar daqui, a turminha é bacana.
Turminha bacana. Sorriso cerrado. Você vai gostar daqui. Alarme!
- Você vai ver - dentes cerrados sorrindo - o pessoal aqui - bigode abanando - é bem descontraído.
Descontraído. O limite do velhinho. Herança ridícula dos tempos de seu pai, invenção de Carlos Imperial ou Wilson Simonal ou ambos, vulgarizando uma besteira libertária dos anos 60. Para ele, uma das palavras vis. Bem ao gosto da choldra dos iguais ao seu vizinho.
- É? Legal - respondeu.
Os dias foram passando. Chegava cedo, mas o outro sempre estava lá. Em compensação, todo dia ficava até mais tarde. Óbvio: quem fica depois aparece mais do que quem chega antes. Habituou-se a ser o último a sair. Cedo, retribuía as efusividades do outro. Certo dia, perguntou se tinha filhos - sim, duas - e conseguiu saber suas datas de aniversário.
Pronto. Pelo jeitão do vizinho, tinha certeza de que conseguira sua senha de acesso. A partir daí, parecia mais amigável ainda com o colega mais velho, pedia conselhos, dava palpites. O bigodudo sorria com os dentes trincando, e ele mais feliz, leve, gaio. Na sexta-feira, foi para casa como quem sai para um cruzeiro no Caribe.
De volta, na segunda, chegou mais cedo e encontrou o vizinho no térreo. Bem a tempo de ver quando dois seguranças de elegantes ternos pretos solicitaram delicadamente a ele que os acompanhasse.
Nunca mais o viu. Soube que ele havia tentado hackear o banco, mas tinha sido tão imprudente que usara diversas vezes o próprio computador de sua mesa. O que tinha como senha o aniversário da filha caçula. Parece que usava um estranho login name: descontraido. Assim, sem acento.




Enquanto esperamos. Acabei de ler Budapest, do Chico Buarque. É uma gratíssima surpresa. Confesso que Estorvo e Benjamim, não consegui ler além da página 6, ou 17 talvez. Fazenda Modelo jamais me interessou, em literatura há casos em que o mesmo tema não consegue ocupar dois lugares no espaço, e o velho Orwell já havia tratado do assunto de forma a esgotá-lo.

Como Estorvo e Benjamin, ganhei Budapeste de aniversário e tirei-o da estante por falta do que ler no fim de semana passado. Devorei. É uma delícia. A sensação é de que Chico conseguiu comprovar habilidade e proficiência nos dois primeiros e, livre dessa obrigação, compôs um texto mais leve, embora jamais aguado. Lidando com personagens complexos e originais, a narrativa em primeira pessoa mostra os mundos opostos e complementares que levam o ghost writer José Costa a descobrir uma alternativa para si mesmo em um idioma completamente novo, sem referência nenhuma a nada do indoeuropeu que embasa as línguas em volta, quanto mais ao português do Brasil. Zsozè Kosta e José Costa vivem de seus erros, o best-seller anônimo, o prosador que só consegue fazer poesia - com resultado brilhante - o amante que ama quando é mal-amado ou não percebe o amor dado a ele. São opostos e são o mesmo, um é a rota de fuga do outro. Mutuamente, pouco se traduzem.

Tudo isso para dizer que a categoria best seller tem finalmente uma alternativa a Paulo Coelho.




Hoje, devido a um dilema entre personagem e autor que chegou ao impasse, a historieta será postada à tarde. É incrível, certos personagens são dados a arroubos de independência que me fazem perguntar se não tiveram limites na infância.



20.10.03

Bem-vindo, horário de verão.




Giornata

Saí com a pressa de sempre, tinha uma entrevista por um emprego. Não podia me atrasar e, se fosse esperar o ônibus para chegar ao metrô, não ia dar tempo. Vi o táxi, estendi o braço e ele parou.
- Bom dia, eu...
- Bun-di, respondeu, antes que eu tivesse tempo de dar o destino. Era um senhor grande, forte, perto dos setenta, sotaque napolitano que me deu uma ponta de saudade do meu avô.
- Eu vou até o metrô Clínicas, por favor.
- Medró?
- Sim, metrô, demora menos - menti.
- Bó, indáu vámo - conformou-se, contrariado.
O trânsito estava horrível, a Teodoro Sampaio parada. O pouco que andava, era aos tranquinhos, o taxista gostava de frear em cima do carro da frente.
- É uma gonfusó. Dambé, qüessa donamarta, essa breféta, essa durma do beté, ningué güenda - o trânsito congelado e o velho napolitano não parava de reclamar. Tudo bem, como neto de italiano, eu sabia que daqui a pouco ele ia falar do "barméra", dos "figlio", dos "nedo", ia ficar tudo em "famiglia".
- Agora, gadé os guarda? Gadé os amarelí? É isso, meu amig', num té ningué. Só pra mandá a ganeta, aí sí, bra murtá eles abarece.
O trânsito parado e o relógio andando, acelerando. O táxi, um tranquinho aqui e ali, no máximo.
- Olá o amareli sgundido, só qua ganeta, só qua ganeta! - e apontava o amarelinho atrás do poste.
Estávamos chegando ao cruzamento com a Henrique Schaumann, e a Teodoro Sampaio parada. Numa decisão desesperada, resolvi investir o que não tinha.
- Olha, amigo, vira à direita na avenida, esquece o metrô.
- Glaro, esse metró é uma inganassó. Eles fala que tem cinqüenta galómetro, má num té nin óto.
- Eu vou até o Paraíso, Alameda Santos com Brigadeiro Luís Antônio,
- Baraíso, vamolá.
- O senhor sabe um caminho bom?
- Gaminha? Gaminha? Eu tó na braça a mai de guarenta ano. Quasi cinguanta. Tudos gamin que tem bur aqui eu gunhés. Baraíso? Vambora.
- Então vamos - me conformei, tentando suportar a dor no bolso.
O trânsito também não ia bem na Henrique Schaumann, não melhorou na Avenida Brasil. Eu tentava ler o papel que falava da empresa e do cargo que ia tentar com a entrevista.
- Era bó andigamente - tirou-me da leitura. Desisti, resolvi enfrentar a conversa.
- Eu tive um tio que era chofer de táxi. Nos anos 50, ele tinha um fordão em Pinheiros, será que o senhor conheceu, era o...
- Binhêra? - interrompeu - Binhêra? Nó, eu dinha gáro no cendro, mio bonto era no Largadaróche, bonto bó, muido bó. Binhêra era birifiria - gabou-se, reduzindo meu tio e meu Pinheiros a suas insignificâncias.
Quando ele saiu da Brasil e começou a fazer seus caminhos, tentei ler o papel e confiar nos seus quarenta anos de praça. Entre freadas e comentários, íamos indo.
- Ogliassó o grime. A bulícia no brende ningué, o griminoso fá o gui qué.
E vira à esquerda, buzina à direita, freia à frente.
- Ningué rispeta nada.
E a ladeira íngreme, o farol vermelho, a freadinha.
- O Lula, só no avió.
E buzina de novo, e vira de novo, e freia de novo.
- Baraíso, bronto.
Olho as placas na esquina, rua Cubatão com Conselheiro Rodrigues Alves.
- Desculpe, era Alameda Santos com Brigadeiro Luís Antônio.
- Nu éra Baraízo?
- Era, Santos com Brigadeiro.
- Ah, nó, aí nué Baraíso, si é Baraíso é Rua Gubató, Lameda Santo é Cerquera Césa.
- Mas eu falei...
- Faló Baraíso.
Dez e quinze, a entrevista já tinha ido para o saco.
- Vintitchinco.
- E eu perdi minha entrevista.
- É, figlio, non guarda bé as cosa, agaba berdendo.



18.10.03

O primeiro fim-de-semana ensolarado depois de muito tempo coincidiu com o primeiro fim-de-semana em que eu trabalho depois de muito tempo, e vem me encontrar dentro do escritório. Sem graça essa sincronia. Estou tendo de gastar minhas preciosas letrinhas sabáticas. Pela con-ti-nui-da-de-do-so-nho-deA-dão, Gil dixit.



17.10.03

Tive hoje um feliz reencontro com o Clube do Tom. Logo ali no canto direito, a gente tem acesso a raridades jobinianas, entre as quais eu destaco uma pérola dos anos 50 chamada Domingo Sincopado. Coisa de mestre, para parar e ouvir com atenção e distração, em boa dosagem.




Uma pessoa querida me ligou sobre o texto abaixo, me perguntando onde as duas personagens estavam. Como eu achei que, apesar de não explícito estava claro, pergunto aos freqüentes: onde elas estão?




A melodia

- Você já ouviu o som de um fagote solando?
- Não.
- Já ouviu, sim, é que você não sabe que é fagote, mas já ouviu.
- Acho que não.
- Ah, o fagote tem um som muito curioso. Às vezes se presta a ser engraçado, outras vezes é o oposto, dramático, pesado, mais expressivo que o violoncelo, porque é mais rouco, sabe?, os sopro-madeiras têm essa característica. Os bons são de ébano, uma madeira dura como pedra, escura, aguenta milênios sem rachar ou empenar. Eu acho que essa combinação de madeira com metal é que dá um timbre peculiar, parece um pouco voz de coisa viva, não sei se de gente, mas de coisa viva.
- Credo.
- Eu sempre gostei de fagote, quando eu era mocinha íamos ver os concertos no Municipal, eu sempre ficava prestando atenção no fagote, mesmo quando ele ficava quase a peça toda quieto. Uma vez levaram Mozart, acho que é o único concerto para fagote e orquestra do Mozart, pelo menos é o único que eu conheço.
- Como é que a senhora...
- Você, por favor, você.
- Como é que você veio parar aqui?
- Nem sei bem, acho que, no fundo, é mudar de ares.
- Sei.
- Engraçado, quando eu me mudei para o apartamento da Vila Buarque, jamais podia imaginar que o vizinho de baixo era um fagotista. E bom, sabe? Ele ensaiava durante o dia, para não incomodar os vizinhos, mas como eu ficava em casa o dia inteiro, ouvia sempre, nota por nota, era um encanto. Um dia, ele começou com uma peça nova. Já nas primeiras notas, ainda titubeante, eu reconheci. Era o Mozart. Aquele concerto, acho que ele ia solar pela primeira vez, parecia moço ainda. Dia após dia, ele ia melhorando, dominando a partitura, fazendo a música virar encantamento, não sei se você me entende.
- Não sei, não.
- Eu percebi, lá pelo quarto dia, que ele estava tocando uma nota errada. Era bem no comecinho, uma passagem em que ele tocava um si que eu tinha certeza que era si-bemol. No sexto dia, tentei avisar. Pedi para o porteiro chamar pelo interfone, mas ninguém atendeu. No oitavo dia, liguei um-zero-dois, mas não sabia o nome dele, pelo endereço não me deram o telefone. No décimo segundo dia, tentei o interfone de novo e nada. Na manhã seguinte, desci e toquei a campainha. Nada. E a música fluindo, linda, e, naquela passagem aquele coitado do si-bemol virava si natural. Voltei. Três dias depois, desci de novo, toquei três vezes a campainha e então girei a maçaneta. A porta estava aberta, eu entrei. Ele nem percebeu. Cheguei pouco antes do momento do si-bemol. Na mesinha de centro tinha um anjo de bronze. Vinha uma pausa, dois-três-quatro-e... Na pressa, foi o anjo que avisou uma fração de segundo antes do si. Depois, ficaram os dois caídos lá, o anjo de bronze e o fagotista, que agora parecia anjo também. Aí a moça forte me levou embora e depois aquele monte de perguntas.
- Minha bronca foi de fumo.
- Você devia ir ao Municipal uma hora destas.




16.10.03

Em tempo, não sei se cheguei a recomendar aqui o site do Guilherme Kujawsky. Se não recomendei, recomendo agora. Agradável, inteligente e adequado para quem quer conhecer novos temas e refletir sobre antigos.




Quem vai ser o visitante # 500? Identifique-se para receber um regalo comemorativo.




De volta ao horário normal e depois de dois textos sobre o ser humano, aqui vai um mais levinho, do mundo animal. Enjoy.

Cave Canem

Rotweiller é cão de luta. Forte, troncudo, olhar frio, é leal ao dono e implacável em sua defesa. Por ser de tradição militar, não é dado a atacar indiscriminadamente. Mas como saber os critérios de um cão?

Dono de três desses mascotes, estava uma tarde no jardim com o maior deles. Era um sábado de sol e a brincadeira era jogar um bastão ao outro canto do gramado, para o amigão trazê-lo de volta na boca, para então repetir a operação e repetir e repetir.

De repente, aparece, no alto do muro que dava para o vizinho do fundo, um gato. Um segundo depois, ele salta para o gramado, sem cerimônia. Nada pior, na visão de um rotweiller, do que alguém pulando o muro para dentro de sua área de influência. Sendo esse alguém um gato, é um ultraje imperdoável.

O cão avançou, um só rosnado curto, passo decidido, sem ouvir os pedidos de clemência de seu dono. O gato, a esta altura, estava crispado, congelado. Quando a fera chegou a dois palmos da presa imóvel, virou-se de lado, levantou a perna traseira e serenamente mijou no bichano.

Marcado o território, saiu em busca do bastão para recomeçar a repetitiva diversão. Afinal, era sábado à tarde. O gato, molhado e humilhado - mas vivo -, foi como veio. São os critérios de um cão.



15.10.03

Com exatamente um período de atraso, lá vai o de hoje.

Mantra

Eu vou foder aquele filho da puta. É impressionante como uma meta clara nos ajuda a ultrapassar obstáculos e ascender. Virei grã-fino, até, ou pelo menos, enchi o cu de dinheiro, em menos de 15 anos. Sempre acompanhado desse pensamento: de hora em hora, eu vou foder aquele filho da puta, antes de dormir, eu vou foder aquele filho da puta, escovando os dentes, eu vou foder aquele filho da puta.

Já não era muito claro o motivo, a memória trazia uma cena vaga de um certo sábado, um plantão que eu troquei com ele, que foi ao encontro dela (quem mesmo?), que ele sabia que eu queria muito, cumpriu do cinema ao motel e me contou tudo na segunda. Rindo. Logo cedo. Pus ali a meta de foder o filho da puta.

O engraçado é que eu não me lembrava mais da cara dele, tanto tempo, tanta reviravolta, tanta coisa para lembrar. Ele ia virando uma abstração, uma espécie de oração, a letra de um mantra. Quanto menos eu me lembrava dele, mais eu repetia a frase. Nos momentos de decisão, na empresa, eu recitava entre dentes evfderaqlfldaputa, evfderaqlfldaputa, ajudava a entender o que fazer, me dava um norte.

Fui ganhando mais e mais, evfderaqlfldaputa, comprando, investindo, evfderaqlfldaputa, pegando financiamento, cagando para os riscos, evfderaqlfldaputa, e a cada ano eu ficava mais rico. Rosnava meu mantra o tempo todo.

Um dia toca o telefone em minha mesa enorme e cara, e a secretária anuncia um nome totalmente desconhecido, vírgula, "seu velho amigo". Atendo, magnânimo incomodado, sem saber: era ele.

- Olha, eu tô ligando pra você em nome da nossa velha amizade, eu nunca entendi por que a gente se afastou, desculpe ligar assim, mas eu preciso te contar. Eu estou fodido, preciso de ajuda. Fodido, fodido.

Fodido? Desliguei, bati o telefone na cara dele. Fodido! Como ele se atrevia a se foder sozinho, como ele me aprontava mais essa, depois de tantos anos? Tentei repetir o mantra, eu-vou-foder-aquele-filho-da-puta. Nada. Não tinha mais nenhuma força.

O telefone tocou de novo. Tocou, tocou, tocou. Não atendi. Eu não podia mais atender. Eu sabia que alguém do outro lado ia me dizer: "fodeu".

Filho da puta.




Aliás, sobre o Dubya Bush vale a pena dar um passeio no Dubya Report. Uma amostra do que há ali: "The problem with the French is that they don't have a word for entrepreneur". Bushinho dixit.





Enquanto esperamos, pesquisa aponta: Dubya Bush, 44%, qualquer candidato democrata, 49%. Há alguma esperança de sanidade, pequena mas há.




Pequena mudança de rotina: o caso de hoje virá ao ar depois do almoço, uma vez que o distraído autor esqueceu os originais em papel em algum canto da casa, ao sair para o trabalho. Aproveitando o espaço, li agora de manhã que o Alexandre Garcia, aquele gaúcho global com vocação de porta-voz - e foi, do Figueiredo, coitado - divulga a versão de que o chá de cadeira que o Zé Dirceu deu no Gabeira foi, na verdade, jogo de cena do Gabeira. Entra governo, sai governo e o "jornalista" se pendurando de saco em saco.



14.10.03

Nos intervalos entre os textos do Dito Assim, costumo trabalhar, se sobra tempo. Faço textos publicitários, como muitos de vocês sabem. Hoje, caiu o primeiro job natalino. Fazia quase um ano que eu tinha me esquecido de como o Natal é um beliscão no saco.




Métrica

Começou a escrever sonetos porque era homem, não podia fazer tricô ou crochê. Não tinha nenhuma veleidade de criar versos eternos, de cair no gosto dos letrados e na pauta dos professores do ginásio. Fazia os decassílabos e os juntava em duas quadras e dois tercetos, pondo as rimas nos devidos lugares. O assunto era sempre neutro - uma paixão idealizada, uma violeta imaginada, uma falsa memória de infância.

Durante o dia, só números, interrompidos apenas por telefonemas da mulher, fáticos, meros contatos. Como era fácil com os números, como eram imunes ao sujeito. Já as palavras eram descontrole.

Tudo mudava, em casa. Dez sílabas, como em "meu coração tem um sereno jeito", "que não seja imortal posto que é chama", "passaram muito além da Taprobana". Este não vinha de soneto, mas que decassílabo! No soneto, as palavras saíam controladas, era uma mini-planilha e, ao mesmo tempo, um game.

Para sua mulher, a atividade justificava a ausência e esta, para ele, era a razão de ser da atividade. "Voam os patos atrás da estação", "Conto até dez para ter teu amor", "Teus parcos verbos, meu verso procura", toda noite um soneto começava e, em duas ou três horas estava pronto. Simples, lápis sobre papel, folha sobre folha, em uma pilha que já tinha um palmo e meio.

Terminava invariavelmente quinze minutos depois de ter a mulher pegado no sono. Soneto salvador, restava apenas dormir, se refazer para os cálculos de todo dia.

Numa segunda-feira, apareceu, no quarto verso, o problema: uma boa rima para "ontem". "Contem", "recontem", horrível. Podia mudar o segundo verso, mas agora já não teria mais graça. O tempo foi passando, as três horas habituais evaporaram, e ele ali, no quarto verso. Lá pelas duas da manhã, a mulher aparece, assustada com a cena inesperada. Ele se vira para ela, desconsolado: "Não sei o que faço com ontem". Ela tenta entender e lhe pousa a mão na cabeça. "Faz depois". Vão para a cama juntos, fazem amor em silêncio.

Na manhã seguinte, ele chegou dez minutos atrasado e errou umas duas contas. Ninguém percebeu. Antes de ir embora, não resistiu e escreveu num canto da planilha:

crases
crises
cruzes

Nunca mais fez sonetos.



13.10.03

Saiu uma nota no Blue Bus de hoje (13/10) que é de arrepiar. Reproduzo para poupar tempo:

Fraude com cartas iguais enviadas do Iraque 14:28 Pelo menos 30 blogs hospedados nos EUA citaram desde sabado materia de um jornal do Estado de Washington, na costa oeste, sobre cartas idênticas enviadas por soldados americanos no Iraque para publicaçoes de suas cidades de origem. Segundo a noticia, 11 jornais americanos receberam o mesmo texto de 5 paragrafos que descreve os esforços das tropas americanas para reconstruir o Iraque e só enumera resultados positivos. Menciona crianças iraquianas apertando as maos dos soldados e adultos acenando para eles.
A materia informa que nao há detalhes sobre quem escreveu o texto ou como a distribuiçao aos jornais foi organizada. A agência de noticias do grupo que controla o jornal ouviu alguns dos soldados que figuram como remententes. Um deles revelou que o sargento de seu pelotao distribuiu o texto e pediu que aqueles que concordassem com o conteudo assinassem e fornecessem o nome do jornal de sua cidade natal. 13/10 Ana Kelner




O exterminador e o futuro
(ou: Todo mundo tem direito a uma teoria conspiratória, por que não eu?)

O comentário geral na semana que acabou era a vitória de Arnold Schwarzenegger, tão expressiva quanto espantosa, na eleição para governador da California. A mim, pouco surpreendeu o resultado. Há tempos o fortão dá pistas de que buscava algum destaque na cena empresarial ou política, a começar por seu casamento no coração da elite americana, com Maria Shriver, sobrinha de John F. Kennedy e filha do democrata católico e ex-candidato a vice-presidente Robert Sargent Shriver.

O trabalho de imprensa e RP em torno de Schwarzenegger, já desde a época de Exterminador 2, vem destacando sua musculatura empresarial no mundo do cinema, seu gosto por charutos e um charme meio forçado, em substituição ao cultivo dos mistérios por trás da cara brava de Conan. Há pouco de acidental na vitória de Arnold. A oportunidade inesperada talvez tenha vindo da combinação da inoperância do governador Gray Davis com a diminuição da arrecadação na California, reflexo da política fiscal de Dubya Bush, e razão maior da baita dívida do estado mais rico dos EUA.

Não, não vem de Conan a surpresa. O que me assustou na semana foi, na verdade, a combinação de dois fatos pequeninos, sem muita importância objetiva. Primeiro, ouvi na CBN o jornalista citar o Bushinho, a declarar que "o Iraque está muito melhor do que a imprensa descreve". Poucas horas depois, zapeando pela TV a cabo, paro num filme de época esquisitíssimo e me dou conta de que era um clássico filme de cavalaria, que a TV de Ted Turner teve a pachorra de colorizar, lá no começo dos anos 90.

O que os dois fatos pequenos têm em comum é que evidenciam a vocação americana para manusear fatos. A história tem mostrado que Goebbels e George Orwell estavam certos quanto à maleabilidade dos fatos, ou pelo menos acertaram, um na ação e o outro na ficção, ao prever a dessacralização da verdade. À ausência de armas de destruição no Iraque, George Dubya responde dando de ombros. Como Turner responderia à indignação causada pelo vestido roxo de uma figurante a desfigurar Casablanca. O fato é que o fato é maleável. A verdade passa a ter dono.

Quando se chega a esse ponto, é prudente pensar que o próximo passo pode ser uma verdadeira ruptura: se podemos acreditar que democracia é, no fundo, o compartilhamento da verdade, no momento em que a verdade é confiscada ou privatizada, a democracia desaparece. A partir daí, dá para começar a compor um quadro mais apocalíptico e é inevitável juntar idéias. Apenas para constar: em 1804, um estrangeiro fêz-se imperador da França, tomou a Europa e fez um império. Queria o mundo. Em 1933, um estrangeiro fêz-se líder da Alemanha, tomou a Europa e fez um império. Queria o mundo. Estamos a ponto de ver um estrangeiro tornar-se líder nos Estados Unidos - um império. E o mundo, vai querer?

Que mêda!



10.10.03

And the winner is LadyB. A visitante # 300 do Dito Assim vai ser contemplada com um texto exclusivo, especial, perfumado, inspirado e, acima de tudo, secreto.




Imagem cabulosa da cidade tempestuosa ontem, capturada diretamente do Catarro Verde, do Sergio Faria.





Está chegando o visitante # 300. O feliz e arredondado entrante ganhará um conto exclusivo, oferta do dito assim. Tenho dito. Assim.




Serra acima

Voltar da praia. Para quem mora em São Paulo, esse é um momento em que se põe em dúvida a ligação entre fim-de-semana e descansar. Voltar da praia sem stress era tudo o que ele queria. Por isso, renunciou até a umas horas a mais com a família e saiu mais cedo.
Do lugar onde estava, tinha um quilômetro e meio de estrada a percorrer no sentido contrário para, então, fazer um retorno em nível. Retorno em nível é um daqueles balõezinhos na estrada, em que você entra à direita, toma um semicírculo que o leva a cruzar a pista, atravessa-a e percorre a outra metade, o segundo semicírculo, para, então, tornar à pista certa e seguir viagem.
Como naquela hora havia pouco movimento, feito o primeiro semicírculo, ele olhou rapidamente para os dois lados. Nenhum veículo. Pronto: entrou direto na estrada sem completar o balão. Engatou segunda, terceira, ia desembraiar para a quarta quando viu a figura junto à pista. Alto mas não muito, não mais que três metros, três e dez no máximo. Casaco de couro, apesar dos 38 graus à sombra, quepe estilo "carabinero" e um braço que, ao sinalizar a ordem de parar, pareceu chegar até a faixa do meio do asfalto.
Prudente, obedeceu a ordem do guarda, parou, abriu o vidro e esperou.
- Documentos do veículo.
- B-bom dia - respondeu, apalpando o porta-luvas para, rápido e solícito, entregar a carteirinha de plástico.
- Habilitação.
- Minutinho... pronto. Meio velhinha, troco no ano que vem, o senhor sabe...
Sabia nada, ficou mudo, granito. Em severo silêncio, foi examinando os papéis e balançando a cabeça como se o documento revelasse os registros ocultos de suas contravenções passadas, um sinal vermelho aqui, um 140 ali, a marcha-a-ré de duzentos metros do outro dia.
E pausa, muita pausa depois, ele fala, baixo e grave como é dos homens de três metros.
- O senhor fez o retorno irregularmente.
- Fiz, mas...
- O senhor não viu a placa no acostamento?
- Vi.
- O senhor não viu a sinalização de solo?
- Vi.
- O senhor não viu a placa no outro lado do balão?
- Vi.
- Se o senhor viu, por que virou direto?
- Porque eu não vi o senhor.
Acabou indo embora sem multa. O guarda sabia que o caminho de volta a São Paulo seria punição suficiente.



8.10.03

O primeiro link, a gente nunca esquece. Sil, já estou quase nerd. Que orgulho!




Catarro Verde rides again. Vale a pena dar uma olhada em nota de hoje que comenta uma noite em Serra Negra, referida em spam descrito em nota de ontem.




Poliglota

Bem antes da popularização de Orlando e de Canal Street, no tempo em que se fazia escala em Dacar para pousar em Paris, e as senhoras de boa família falavam francês, ela encerrava uma temporada em Nova York. Senhora da melhor sociedade paulistana, quase avó, resolve ir a uma das boas lojas da cidade para comprar os últimos presentes.

Quando o vendedor se aproxima com seu "may I help you", ela devolve o que sabe: AI-DONTS-PI-QUINGLISH. Até aí, pouca novidade, em lugar tão cosmopolita. Ela então continua:

- Por isso, vou falar beeeeeem deeeevaaaaagaaaaar.
Acompanha a frase com gestos muito precisos. O vendedor tenta não mudar de expressão.
-Eeeeeeeuuuuu...
Bate os dois indicadores no peito, ele arregala os olhos, tenta buscar algum significado naquilo.
- ...teeeeenhooooo...
Ele, paralisado.
- ... trêêêêssss...
Ela agita três dedos, isso ele entende. Três o que, meu Deus?
- ...gêêêêênnnnnnn-rroooss.
Geléia, mangueira, ele tenta buscar uma pista no que ela fala, montar um quebra-cabeça. Ela segue didaticamente ajudando com as mãos.
- Um é aaaaaalllllll-tô.
Todo dedão?
- O outro, maaaisss-ooouuuu-mênos.
Camundongos-coruja-ameaça? Ela baixa um pouco mais a mão, palma para baixo.
- E o outro, baaaaai-xiiiiiiin-nhô.
Compre-lustro-bocejo. O que essa mulher quer?
Ela faz uma pausa, sorri e conclui, abrindo os braços com estilo:
- Cashmere para todos!

Na volta a São Paulo, o suéter do genro baixinho acabou ficando grande e o marido nem chegou a notar sua fluência em inglês.



7.10.03


Primeira tentativa de inserir imagem. Se der certo, é mais um passo na conquista tecnológica. A próxima é criar links. Na foto, G. Kuja (à dir.) e eu deliberamos algo importante para os destinos do planeta, registrados pelo Albertão. Nos dois casos, cabia um link. Mas um dia eu chego lá.




Essa historinha aí embaixo é uma daquelas que eu ouço desde moleque, nem sei quem foi o primeiro que contou. Meio Pedro Malasartes, mesmo.




Pelo telefone

Algumas personalidades têm uma curiosa gravitação para lendas e casos. Tornam-se uma espécie de Pedro Malasartes da história, atribuindo-se a eles fatos e lendas até então sem autor ou personagem definido. Assis Chateaubriand era um caso assim. Entre as várias histórias que se contam sobre ele, há uma célebre, cuja omissão no livro Chatô, do Fernando Moraes, reforça a idéia de que seja uma lenda.
Em uma alta madrugada que seguira uma noite mais ou menos sossegada, a redação do Diário de São Paulo estava vazia, salvo pela presença do guarda noturno, que roncava a sono solto. Lá pelas 3 da manhã, toca o telefone. O guarda, contrariado, acorda, percorre lentamente o corredor até chegar ao aparelho e atender.
- Alô...
- Olha, eu preciso falar com o plantonista na redação. É urgente.
- O senhor sabe que horas são?
- São três e vinte e eu preciso falar com o plantonista na redação.
- Plantonista, não tem não senhor.
- Então eu preciso falar com alguém na redação. Agora.
- Como assim agora? A essa hora não tem ninguém, não, liga depois das 7.
- Você não entendeu...
- Quem não entendeu foi você! São 3 da madrugada, vai dormir, infeliz!
- Infeliz?!? Você sabe com quem está falando?
- Eu não!
- Aqui é o Assis Chateaubriand, eu sou o dono do jornal!
- E o senhor, sabe com quem está falando?
- Eu não, ora essa!
- Graças a Deus!
E desligou.



6.10.03

Antes de dizer boa noite, os versos que desvendam o nome do blog, e que eram cantados, e muito bem cantados, pelo saudoso Cyro Monteiro. Lá vai:

Beija-me (Roberto Martins-Mário Rossi)

Beija-me!
deixa o teu rosto coladinho ao meu
beija-me
eu dou a vida pelo beijo teu
Beija-me!
quero sentir o teu perfume
Beija-me com todo o teu amor
se não eu morro de ciúme

Ai, ai, ai, que coisa boa
o beijinho do meu bem
dito assim parece à toa
o feitiço que ele tem
ai, ai, ai, que coisa louca
que gostinho divinal
quando eu ponho a minha boca
nos teus lábios de coral!





Ia colocar no texto de hoje mais um comentariozinho sobre o uso da língua (a portuguesa, não o hipoglosso). Mas mais uma tragédia cotidiana no Oriente Médio me levou a recuperar o texto que segue. É um texto que já tem dois anos. O problema que ele trata só se agravou, o que torna o que era um texto pesado quase leve. Mas mesmo correndo o risco de ser menos dramático do que a conjuntura pede, quero compartilhar essas impressões com vocês. Uma forma de tentar puxar um coro que diga adeus aos ódios. Amanhã, voltamos aos crontos.

Canaã

Costumo brincar, em conversas com amigos, sobre a certeza de que fui judeu na outra encarnação. Começa com meu nome, Jayme, o mesmo de meu pai, que se casou com Ruth, que teve, depois de mim, Leão: nos prenomes, uma pequena família judaica. No sobrenome da família de meu pai, Pinto Serva, um nome cristão novo.
Minha avó materna, protestante, me contava, no lugar de contos de fadas, histórias do Velho Testamento, o que pôs Abraão e Isaac, Moisés e o Faraó, David e Golias, Salomão e Absalão como protagonistas do meu imaginário de criança.
O severo senso de justiça e a peculiar posição política de meu pai - um socialista que admirava Churchill e De Gaulle - faziam da luta contra o fascismo um tema obrigatório nas conversas em que ele nos apresentava o mundo. O holocausto foi uma das primeiras tragédias humanas de que tive notícia e seus agentes, a revelação de que o mal existia além dos livros, e muito mais cruel.
Passada a infância e inaugurada a época em que os amigos se tornam nosso grande patrimônio, tive a alegria de ter, entre eles, gente que tinha lá nas suas carteiras de identidade nomes quase sempre cheios de consoantes e trava-línguas. Nickelsburg, Schwartsman, Puterman, Wajskop, Zilbersztejn, El Kobbi, Poppovic, Serber, Levy, Kon, Zamijowsky, Teivelis, Diament, Schneider, os não menos judaicos Brandão e Fausto, todos formaram e formam boa parte da minha lista de pessoas queridas.
Com meu pai, aprendi a admirar a experiência da fundação do Estado de Israel, os feitos do povo que transformou o deserto em Canaã, que construiu a utopia na experiência dos kibutzim, que conquistou com suor e sangue seu pedaço de terra e, com ele, o reconhecimento como povo autônomo. Só muitos anos depois vim a acrescentar temperos além dos românticos a esta história. O que, de resto, é amadurecer. Mas nunca deixei de admirar e, à minha maneira, amar esse povo.
É exatamente por isso que vejo em Ariel Sharon um dos maiores desastres já perpetrados pela História. O ministro fascista de Israel senta no mesmo lado da sala que abriga Mussolini, Stálin e Hitler. A atual política do Estado de Israel para com os palestinos vai ser contada aos nossos netos no mesmo tom de horror com que meu pai nos contava a história do Holocausto.
É evidente: as proporções são diferentes e as causas próximas também. No caso da perseguição nazista contra o povo judeu, as motivações para a crueldade, a brutalidade e os atos de extermínio eram completamente intangíveis e baseados em um nauseabundo caldo de preconceitos, habilmente manipulados para cultivar e alimentar ódios em uma escala que pudesse dar legitimidade à barbárie.
Já na Palestina, houve atos de guerra na origem dos conflitos. Isso, no entanto, já não justifica sua permanência e seu recrudescimento. Só um projeto genocida pode explicar a escalada constante da violência das tropas israelenses contra a população palestina e a completa ausência de canais de interlocução, deliberadamente destruídos um a um. O argumento da retaliação como recurso dissuasivo é pífio: a morte não intimida um povo cujos homens e mulheres se dispõem a usar seus próprios corpos como armas. A radicalização, portanto, só faz sentido em uma perspectiva que vislumbre a solução final. Extermínio obviamente faz parte das alternativas da administração Sharon para o conflito.
O mundo, a começar pela comunidade judaica, não pode mais aceitar a continuidade deste projeto de destruição. Pode-se levantar o argumento de que tal conflito traz o risco de desestabilização de toda a região, levando o mundo a níveis de alerta semelhantes aos do auge da Guerra Fria. É um argumento insuficiente e tímido, embora verossímil. O centro da questão é: existe um povo, com direito reconhecido de autodeterminação, sendo massacrado em seu próprio território. Existem gerações de palestinos que nunca viram a paz. As mais novas não sabem se verão netos. Tudo isso apesar de haver propostas de variadas origens para se chegar a algum nível de conciliação. O mundo sensato espera uma solução que contemple a constituição de um estado palestino autônomo, com fronteiras claramente definidas e gerido por seu povo, por sua vez com respeito absoluto aos direitos do Estado de Israel. É preciso trazer àquela região e a seus povos a esperança de que um dia renasça ali a terra prometida e celebre-se de novo a fundação de Canaã.





Chegamos às 100 entradas no blog. A madrinha do Dito Assim, Sil Curiati foi a centésima entrante. Merecida láurea.




Bom, começa a segunda semana deste modesto espaço de protoliteratura. Começo a conseguir domar os rudimentos. Apenas começo, e se não fosse a ajuda tremenda da Sil, ainda estaria remetendo os leitores para um hotmail distante. Mas hei de evoluir. O Nishi (http://dessascoisas.blogger.com.br/) generosamente me diz que eu não sou o pior manejador dessa tecnologia. Em mais ou menos 18 meses, eu acho que estarei mais ou menos. Ok, até a hora do almoço tem cronto novo. Sim, cronto, mistura de crônica com conto.



4.10.03

Aquilo sim era uma dupla de criação. Experientes o suficiente para entregar um grande trabalho na agência, jovens o bastante para encarar todas as baladas fora dela. E juntos, porque quando uma dupla dá certo, continua dupla fora do escritório.
Um tinha carro, o outro andava a pé. Por isso, no fim das baladas, o diretor de arte levava o redator para casa. Um dia, a caminho de casa, o redator contou que decidira se casar. Foi aquela confratenização meio ébria mas emocionada, com o carro em movimento e os postes se esquivando. Logo depois, o redator aponta:
- Vai ser naquela igreja.
Lá estava o templo majestoso, mais pelas duas ou três doses do que pela arquitetura. A partir daí, era todo dia:
- É aquela igreja.
- Eu sei, você já me contou.
- Você vai no meu casamento e vai sentar na frente, hem?
- Claro, claro.
Dias, baladas, semanas, o tempo passa a jato: chegou o dia do casamento. O diretor de arte enfeitou-se todo, terno, gravata, perfume e toca para a igreja.
Avenida, passa o primeiro viaduto, primeira à direita e lá está - não, lá não está a igreja. Caramba, era ali, avenida, viaduto, primeira à direita. Voltas no quarteirão, procura daqui, procura dali, nada. Dez para as sete. Cinco para as sete. Sete. Tudo bem, a noiva sempre atrasa. Sete e cinco. Ele muda o método de busca. Volta sistematicamente para a avenida e tenta começar o caminho do zero. Nada. Sete e dez. Avenida, viaduto, primeira à direita, segunda à direita, terceira à direita, sete e quinze. Suor no colarinho engomado. Cadê a igreja?
Quarta à direita, nada. De repente, o insight: um boteco na esquina. Pára o carro, entra apressado, sete e vinte, dois frentistas no balcão olham estranho para o ser engravatado.
- Conhaque. Duplo.
Vira o copo de uma só vez, franze o rosto todo, devolve o copo vazio, deixa o troco para o belconista e volta para o carro. Sete e vinte e cinco.
Sete e vinte e sete, a igreja. Ele conseguiu chegar antes da noiva e acenar para o parceiro que, nervoso, esperava a doce amada.
Sentou ao lado de uma convidada, parente aparente do amigo, que puxou assunto:
- Já conhecia a igreja?
- Sóbrio, ainda não.
E foram felizes para sempre.



3.10.03

Durante o fim-de-semana, o primeiro do recém-nascido blog, creio que seu autor preservará o domingo, como ensina a tradição católica. Amanhã, porém, procurarei saudá-los com mais algumas maltraçadas.




Enquanto esperamos: este blog, oportunamente, vai contar com a contribuição dos textos cáusticos de Gustavo Dias Leite. Quem viver verá.




Enquanto esperamos: eu acho esse texto um pouco azedo, mas é um assunto que me fascina, esse do uso da língua, da evolução do que se fala e escreve. Acho que é possível até tomar posição no assunto, como fazem os galegos, que brigam e têm visões variadas a respeito dos caminhos que sua língua deve tomar. Há até uma galera lá que quer considerá-la uma variação da língua portuguesa, colocando a Galícia entre os países "lusófonos". Bom, tudo isso pra dizer que esse assunto não deve preponderar aqui.




Um termo de posse

De tempos em tempos, aparece na língua portuguesa falada no Brasil uma novidade qualquer que se espalha como doença e se afirma como verdade incontestável. Foi assim com a abolição do risco de vida e sua canhestra substituição pelo esquisitíssimo ´´risco de morte´´, foi assim com a entrega a domicílio que, de uma hora para a outra, virou ´´em domicílio´´. Ninguém mais espera, todo mundo ´´aguarda´´, ao obrigado não segue mais o de nada, mas um enfeitado ´´por nada´´. A última onda, agora, é a progressiva extinção do verbo ter. Sim, cada vez menos se usa ter, substituindo o tão básico verbo por ´´possuir´´. Este caso é mais sério, porque, a rigor, ter e possuir não são exatamente sinônimos, se considerarmos o campo semântico de cada um, mais amplo no ter, mais restrito no possuir. Possuir é ter posse de, ter é ter. No entanto, na linguagem escrita que o computador recolocou em pauta, quase todo ter vira ´´possuir´´. Assim, lemos que ´´fulano não possui filhos´´, ´´beltrana não possui o direito a férias´´, ´´é preciso possuir cargo de confiança´´ e assim por diante.
É quase sempre impossível determinar de onde vêm estas ondas. A Folha de S.Paulo mudou unilateramente a regência do verbo assistir, e embarcou rapidamente na onda do ´´risco de morte´´, ajudando muito a difundi-la. Mas esta não é a regra. Na verdade, estas ondas revisionistas parecem ter a mesma origem dos boatos, produto industrial mais farto e eficiente desta nação. Alguém corrige alguém que corrige mais dois alguéns em um elevador cheio e aí, a novidade grassa.
Não sei não, mas não colocaria minhas fichas na sobrevivência de duas corriqueiras expressões: a simpática e cortês ´´pois não´´ e a azeda e quase irônica ´´pois sim´´. Os implacáveis corretores da língua não suportarão por muito tempo tal contradição. Acredito que antes da década de 20 deste século, pois não terá sido substituído por alguma excrescência como ´´pois claro´´, ´´pois sempre´´ ou qualquer empolamento equivalente.
Antes disso, veremos cenas como a do malandro que, colocado na parede pelo delegado, contraporá: ´´Imagina, doutor, eu não possuo nada a ver com isso, não´´.
Salve-se quem puder.



2.10.03

Enquanto esperamos: este blog está trabalhando abertamente pela candidatura do blog Salón Comedor, da Sílvia Curiati, para o Prêmio Ibest. Entrem: http://saloncomedor.blogspot.com . É o blog mais bem-feito e mais bem-escrito hoje no ar. Votem e façam com que se faça justiça.




O estimulante fim de uma era

De repente me veio a sensação clara e empolgante de estar assistindo ao fim de uma era. Falo de sensação, não de ciência. Veio em uma aborrecida reunião em que eu representava a agência de propaganda em que então trabalhava, e uma moça muito bonitinha defendia seus interesses próprios, usando o pretexto da empresa cliente. Muito determinada a implementar um projeto que lhe permitisse testar os fatores de eficiência de malas diretas e ganhar a admiração do seu diretor, descreveu-me como havia iniciado o processo que eu deveria ajudá-la a continuar.
Com uma planilha na mão e os dedos da outra girando a santa na correntinha do pescoço, ia me contando como havia testado três diferentes possibilidades, com três peças diferentes, enviadas em três semanas diferentes para três públicos de diferentes perfis. Até aí, os resultados tinham sido mais ou menos os mesmos, e igualmente ruins. Depois de ouvir a descrição toda do processo, perguntei quanto ela havia gasto com o tal teste. Curiosidade, aleguei. Ela recitou um valor que não sou capaz de lembrar, mas seguramente manteria minha casa por alguns meses. Em seguida, me perguntou o que eu proporia para continuar o projeto.
Durante alguns segundos, fiquei sem saber o que dizer. O teste da moça não testava nada, pela simples razão de que tentava testar tudo ao mesmo tempo, sem nenhum controle. Mas como é que eu diria isso a ela? Quem, acima dela, haveria aprovado esse projeto errático? Como é que eu diria isso a ele, se fosse preciso? Como é que eu iria dizer à empresa que a continuação de seu estratégico projeto de testes deveria ser começar tudo de novo, agora do jeito certo? O que implicaria eu dizer que o outro jeito estava errado? Como eu iria dizer que um erro tão primitivo havia sido cometido com assentimento de gente de vários níveis hierárquicos e que alguns cheques polpudos haviam sido assinados para pagar algo completamente inútil?
Acho que acabei paralisado por tempo demais, porque a minha interlocutora tocou-me o braço e repetiu a pergunta. Olhei-a bem nos olhos, imagino que com uma expressão sincera de admiração, e respondi:
- Patrícia, eu acho que hoje eu fiz uma descoberta muito importante.
- É mesmo? Oba, conta aí.
- Eu senti o fim de uma era.
- Chi, fica calmo, eu tenho antiácido na minha gaveta e acho que sobrou um Lexotan na bolsa. Güenta aí.
- Não, não, não se preocupe. Eu só tive um insight, de repente entendi os caminhos do capitalismo, eu saquei que a gente tá exatamente no meio da transição para uma outra era.
- É?
- Acho que sim.
- E eu com isso?
- Como?¿
- E o meu projeto?
- Não se preocupe. No fim, dá tudo certo.
E antes que ela dissesse qualquer coisa, peguei minha pasta e saí, repetindo, como se estivesse abobalhado, adjetivos admirados, incrível, revelador, novo, abestalhado, aurífero, teleférico, e assim por diante.



1.10.03

Enquanto esperamos: alguns meses atrás, Gustavo Dias Leite me brindou com um livro de um autor sobre quem eu jamais havia ouvido falar, João de Minas. O livro se chama "A mulher carioca de 30 anos". Só não digo que é imperdível porque este é o mais nefando neologismo já criado em nossa pobre flor do Lácio, ganhando longe de parabenizar e no fotochart de acessar. Pois bem, o meu sebeiro (como se chama o livreiro do sebo?) descolou um (Gus, apenas um, vamos ter de dividir) exemplar de "A mulher carioca de 22 anos". Raridade que depois comento.




Às armas

A., 17, é um garoto da periferia de São Paulo, talvez o lugar do mundo onde a miséria mostre suas perversidades de forma mais expressiva. Como tantas outras, a família de A. é, de fato, um agregado de famílias, no caso duas, onde, em uma mesma casinha de bloco aparente com uma caixa d¿água no teto, moram duas irmãs com seus maridos e filhos, em um sala e quarto, com um puxadinho recente, vitória rarefeita em uma história de reveses.

A mãe de A. trabalha há muitos anos como empregada doméstica em uma mesma casa de família, de bairro de classe média alta em São Paulo. Ali, vive aquela situação tipicamente brasileira, em que, embora haja clareza sobre quem é patrão e quem é empregado, há, ao mesmo tempo, atos de acolhimento e pequenos favores que transbordam a simples relação de trabalho. Vão desde a compra eventual de alimentos e o repasse de roupas usadas até serviços a que o empregado não teria acesso por seus próprios meios, mas que a família propicia valendo-se das atividades de seus componentes e agregados. Assessoria jurídica aqui, aula particular ali, um médico conhecido acolá. Assim, vai se remendando um tecido frágil.

No caso de A., o emprego da mãe abriu-lhe uma oportunidade única de romper o ciclo da miséria, de construir uma carreira e uma cadeia de relações que o poderiam içar da pobreza aos confortos da classe média, quem sabe mais. A patroa de sua mãe conseguira para A. uma vaga de pegador de bola nas quadras de tênis de um importante clube da Capital. Talentoso para o esporte, A. rapidamente foi aprendendo os primeiros segredos do tênis e parecia poder seguir um caminho que vários garotos haviam trilhado antes, tornando-se batedor de bola e, depois, professor. Com esforço e um pouco de sorte, poderia ganhar em um dia o equivalente a um mês de salário de sua mãe.

A vida de A. passou a oscilar entre dois pólos. No bairro chique, catava as bolas, juntava as gorjetas. Na periferia, cabulava aulas e juntava encrencas. O clube exigia que ele freqüentasse a escola para mantê-lo no programa de assistência até os 18 anos. Os amigos do bairro o levavam para a marginalidade que morava ao lado, e ele se perguntava se a escola servia para alguma coisa além do salvo-conduto para as quadras de saibro.

Um belo dia, no fim da tarde, foi encontrar os amigos na frente de um bar que juntava a molecada heterogênea e cheia de hormônios. Não tardou para que uma discussão entre dois garotos degenerasse em briga. Havia uma diferença de porte entre os dois, um levava vantagem evidente sobre o outro. A. decidiu interferir para separar os dois. Como resposta, o brigão mais forte desferiu-lhe um tapa no rosto. Tapa na cara é mais do que um golpe de agressão, é um símbolo de humilhação. A. gelou por alguns segundos, enquanto a turma do deixa-disso afastava seu agressor.

Não percebeu quanto tempo passou até que a voz ao lado disse: ¿É, mano, isso não pode ficar assim. Tapa na cara, mano, só com bala na cara¿. E lhe passou o revólver que trazia no bolso. A. cresceu em raiva e disposição. Sentiu um prazer prévio pelo poder subitamente adquirido. Correu até onde estava seu agressor, ainda cercado pelos pacificadores de plantão, e não vacilou. Disparou 5 tiros.

Ninguém explica como o garoto sobreviveu a tanta bala. Não era sua hora. Era, sim, a hora de A.. Dali do miolo da favela, fugiu, sumiu, foi procurar a ajuda de parentes, da mãe, por tabela da patroa da mãe. Em vão. Não havia muito o que fazer. A. tinha matado seu futuro com 5 balas de 38. Escolheu o caminho. Selou uma sentença macabra. Morrerá jovem, mais dia, menos dia. Talvez na cadeia, talvez fora dela. Sabe disso.

Se não tivesse uma arma tão perto, talvez a bênção da dúvida lhe tivesse preservado uma chance.




Depois de meses olhando blogs de amigos e desconhecidos, decidi assumir. Sim, sou um escritor em gestação, um palpiteiro sem canal ou um sonhador interessado no sucesso repentino que terei quando um editor milionário, passeando ao acaso pelo cyber space, der de cara com meu conteúdo precioso. Por enquanto, vou avisar dois ou três leitores, que, rapidamente, em progressão geométrica, abarrotarão este site público. A quem, aliás, aconselho: invista em expansão.