dito assim parece à toa |
|
|
Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
Disse assim: Out 2003 Nov 2003 Dez 2003 Jan 2004 Fev 2004 Mar 2004 Abr 2004 Mai 2004 Jun 2004 Jul 2004 Ago 2004 Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Jul 2005 Ago 2005 Set 2005 Out 2005 Nov 2005 Dez 2005 Jan 2006 Fev 2006 Mar 2006 Abr 2006 Mai 2006 Jun 2006 Jul 2006 Ago 2006 Set 2006 Out 2006 Nov 2006 Dez 2006 Jan 2007 Fev 2007 Mar 2007 Abr 2007 Mai 2007 Jun 2007 Jul 2007 Ago 2007 Set 2007 Out 2007 Nov 2007 Dez 2007 Jan 2008 Fev 2008 Mar 2008 Abr 2008 Mai 2008 Jun 2008 Jul 2008 Ago 2008 Set 2008 Out 2008 Nov 2008 Dez 2008 Jan 2009 Fev 2009 Mar 2009 Abr 2009 Mai 2009 Jun 2009 Jul 2009 Ago 2009 Set 2009 Out 2009 Nov 2009 Dez 2009 Jan 2010 Fev 2010 Mar 2010 Abr 2010 Mai 2010 Jun 2010 Jul 2010 Ago 2010 Set 2010 Out 2010 Nov 2010 Dez 2010 Jan 2011 Feb 2011 Mar 2011 Abr 2011 Mai 2011 Jun 2011 Jul 2011 Ago 2011 Set 2011 Out 2011 Nov 2011 Dez 2011 Jan 2012 Fev 2012 Mar 2012 Abr 2012 Mai 2012 Jun 2012 Jul 2012 Ago 2012 Set 2012 Out 2012 Nov 2012 Dez 2012 Dizem por aí: Alex Senna Anna V. Anunciação Beatriz de Carvalho Blog da Milk Carne Crua Catarro Verde Cristiana Críticas e Reflexões Cyn City Drops da Fal Filosoclics Frankamente Guga Alayon Idelber Avelar Imprensa Marrom Infinito Positivo Josimar Melo Ledusha Lord Broken Pottery Lucia Guanaes, fotos Marina W. Meg (Sub Rosa) MM Leite, fotos Muié Na Minha Rolleiflex Nóvoa em Folha Observador Pecus Bilis Pérola Negra Perplexo Inside Peri S. Coppio Quase Pouco Ricardo Hida Salón Comedor Talvez sim, talvez não Taxitramas Terapia Zero A Vida em Palavras Zeitgeist |
5.4.12
Você sabe a diferença entre "eficiência" e "eficácia"? Pois bem, vou lhe contar, e de graça: é a mesma diferença que existe entre 6 e meia-dúzia. Por que, então, tantas escolas de marketing, tantos sites na internet, tantos palestrantes gabolas empostam o tom e gastam tempo precioso falando dessa baboseira? Porque lá pelo fim dos anos 70, começo dos 80, um marketeiro daqui pegou um texto lá da terra do tio Sam que versava sobre "the difference between 'efficiency' and 'effectiveness'" e traduziu do jeito que lhe pareceu melhor (ou que estava a seu alcance). Daí, uma ideia que pára em pé -- a diferença entre eficiência e efetividade, entre capacidade e realização, entre potencial e fato -- virou uma esquisitice que até hoje assusta os alunos das faculdades de comunicação e preenche um bom tempo de seus professores. O pior é que, daqui a uma ou duas gerações, aquilo que hoje é dicionarizado como sinônimo terá de fato agregado ao seu significado a baboseira espalhada -- eficiente e eficaz, então, deixarão de ser sinônimos. Como se vê, o hábito do telefone sem fio por aqui é muito anterior à internet e os milhares de textos atribuídos a Jabor e Quintana -- e agora, certamente, a Millôr e Chico Anysio. 28.3.12
Faço Mamãe, sem os braços! Não sei mais assobiar mas ainda canto (mal, e até quando?) Mamãe, sem os braços e num pé só! Quando eu canto, não sei mais, não recito. Mamãe, sem os braços. Sem a partitura, sem os dedos, não sei dos anéis. Não me culpe. Mamãe, sem os braços me sinto com asas. Sem as asas me sinto só perna. Mamãe, quanto tempo. 8.2.12
Tio Aroldo acordou depois de 8 anos em coma. Foi logo perguntando ao sobrinho predileto o que estava fazendo ali naquele quarto estranho, cheio de luzinhas em volta. -- Chiquinho, onde estou? -- Tá no hospital, tio Aroldo, o tio nos deu um baita susto, ficou sem sentidos por muito tempo. -- Quanto? Mais de um dia? Uma semana??? -- Oito anos... -- Meu Deus! Tudo isso? O que há de novo? Como está a política? -- Bom, aqui em São Paulo vai ter eleição pra prefeito. Um candidato já tá escolhido, foi imposto pelo ex-presidente. -- Esse Fernando Henrique nunca me enganou! -- Não, tio, não foi o Fernando Henrique, foi o Lula. O PT queria fazer prévias, mas o Lula impôs um candidato... -- Bom, é um operário, pelo menos, alguém que conhece a periferia. -- Não, tio, outro dia ele falou pros habitantes do Itaim Paulista que tava muito feliz por conhecer o Itaim Bibi. -- Meu Deus! E quem é que o FHC escolheu como candidato tucano? -- Não escolheu, o PSDB vai fazer uma prévia, vai consultar seus 40 mil militantes na cidade. Eles é que vão escolher o candidato. -- Prévia? Militantes?? No PSDB??? -- É, tio Aroldo, mas isso não é tudo. O pessoal da renovação carismática da igreja vai lançar candidato também. -- Ora, mas isso não vai adiante, eles não têm partido, imagine um carola desses fazendo frente, por exemplo, a um candidato do PMDB! -- Tio Aroldo, ele É o candidato do PMDB? -- Como?? -- O carola, tio. É o candidato do PMDB, membro da renovação carismática. -- Chiquinho, chama a enfermeira. -- Por que, tio, tá sentindo alguma coisa? -- Tô precisando de um remedinho. -- Pra que, tio Aroldo? Que é que o tio tá sentindo? -- Tô sentindo que preciso voltar pro coma. E rápido! 12.1.12
Um oportunista acanalhado
O líder do PT no Senado, Humberto Costa, disse, na tribuna, que as acusações que recaem sobre o ministro da Integração Nacional se devem ao fato de ele ser nordestino. De novo essa canalhada autoproclamada progressista vem jogar gasolina nessa fogueira. O ministro aplicou mais da metade do orçamento de sua pasta em seu Estado natal. Há uma versão (ou um critério de cálculo) que dá conta de que o montante seria próximo dos 90%. Mas vamos pela hipótese menos escandalosa, que sejam apenas 50% dos recursos. Não é um escândalo? Só faria sentido dar 50% dos recursos para um único Estado em quatro hipóteses: 1) se a metade das calamidades qque atingiram o Brasil tivesse ocorrido em Pernambuco; 2) se o Brasil só tivesse 2 Estados; 3) se Pernambuco tivesse 50% da população do Brasil; 4) se Pernambuco fosse o Estado mais pobre do País. Nenhuma dessas hipóteses é mais do que pilhéria. Portanto, hove malversação de dinheiro público, sim, e isso não tem nada a ver com o fato do picareta ser nordestino, sulista, paulista ou barriga-verde. Quando um ser acanalhado como esse Humberto Costa lança mão de um argumento porco como esse, sabe que está jogando para uma plateia que, não sem razão, se sente discriminada pelo sul-maravilha (há, sim, muito débil mental por aqui que desrespeita e discrimina nordestino). Tenta, então, potencializar esse sentimento e com isso dar voz ao que é nada mais que pilantragem e má administração de dinheiro público. O que ele faz é mais ou menos o mesmo que alegar que Fernandinho Beira-Mar está em cana por ser negro. É repugnante e mostra o jeito fétido com que certos petistas fazem política no Brasil de hoje. E são cada vez mais a regra e menos a exceção. 10.11.11
Soneto sobre sonetos Quem sabe se sou eu quem aqui fala? Quem sabe quem sou eu? Eu sei: não sei. O que me cabe é rés, sequer me abala, se sigo na primeira, sigo rei. Mas como dizer "eu" se o eu se cala? De fato, haverá eu havendo hei? Herói, talvez me meça em outra escala. Real, nem sei se existo ou já passei. Poemas são a fala de outro eu. Não há poeta são que não confesse o que não fez, o que era não ser seu. Se eu fosse só poeta, se pudesse dizer o que de fato é sempre meu, diria: é só você o que permanece. 5.9.11
Fragmentos de "O Preço do Peixe", # trinta e qualquer coisa -- Essa sua caminhonete gasta muita gasolina, num gasta? Eu sei como é, o dono da Santo Antônio tamém tem uma, é gastona que só ela. Tamém, em estrada de terra, o bicho tem que ter motor, se tá seco é por caso do areião, se chove é por caso da lama, não dá pra confiar em caminhão, caminhonete, trator que não seja pronto pro tempo que vier. É, eu guiava pro dono da Santo Antônio aquela bichão, era uma beleza em qualquer estrada, asfalto, terra, lama, até mato, se não fosse assim mato fechado, ela abria mesmo. Mas tamém, ia daqui até Catanduva, e na volta o ponteirinho já tava pedindo mais, que o tanque já tava esgotado memo. Três marcha, assim que nem a sua, mais a marcha-ré. Olha, a bicha gastava tanto, que uma vez eu precisei ir até Taquaritinga, tratá de um assunto lá meu, coisa de dinheiro. Pois o menino lá do dono da Santo Antônio gostava que gostava de andá na caminhonete, sempre que eu saía com ela, ele queria vir junto, e naquele dia foi a mesma coisa. E lá fui eu levando o garoto comigo, ele feliz da vida, menino de 6 ano, que saber tudo, "Que-que-é isso?" pra cá, "Que-que-é isso?" pra lá, até que nós chegou. Era em Taquaritinga, mas não na cidade, era uma chacrinha logo ali na entrada. Eu cheguei, puxei o breque-de-mão e ainda deixei a marcha engatada. Pedi pro menino "Olha, fica aqui me esperando no carro, que o assunto lá é de dinheiro, conversa de gente grande, me espera aqui, e não mexe em nada". Ele só me perguntou se podia sentar no lugar do motorista, e eu disse "Pode, mas não vai mexê em nada", e ele ficou feliz da vida, lá, virando a direção que nem se tivesse guiando uma jamanta. Eu entrei na casa do homem com quem eu tinha de conversá um assunto de umas leitoa que eu criava por conta, era na Santo Antônio, mas era minha, as leitoa, e eu acabei vendendo pro home ali, e ele me pediu uma semana pra pagá, e já tinha quase um mês, e nada. Ele chorou as pitanga, disse da saúde da mulher, do comprador do milho que não tinha pago, até do imposto ele falou. O senhor não é do governo, né, moço? Ah, bom, então, ele reclamou, se lamuriou, acabou me dando metade do dinheiro e prometendo a outra metade só pro fim do mês, e eu aceitei, fazer o quê?, melhor um passarinho na mão, depois eu vinha cobrá de novo. Voltei pra caminhonete e, olha só, o menino continuava ali, virando a direção e imitando o barulho do motor, já tava até suado, imagina, mais de uma hora brincando! Entrei pelo lado do motorista, o garoto foi pro lado do passageiro e já foi logo pedindo "Quando chegá na fazenda, posso brincá mais?" e eu disse, "Aí, lá, é com seu pai, que é o dono da caminhonete", e ele feliz da vida. Bom, liguei a chave, apertei o botão da partida, e nada do carro pegá. E aperta, e nhé-nhé-nhé, o motor de arranque girando, e nada do bicho pegá. E dá-lhe girar aquele negócio, e nada! Eu cocei a cabeça, pensei um pouquinho "Será que afogou?", mas não podia, e eu fiquei inquisilado. Aí foi que eu senti um cheiro conhecido, vindo do lado de fora, e eu vi que o cheiro tava forte: era cheiro de gasolina! Mas forte mesmo, viu, moço, aquele cheiro de gasolina vindo do lado de fora, o que será isso? e eu desci da caminhonete pra ver o que era. Quando eu olho pro chão, aquela manchona embaixo do carro! Gasolina, pura gasolina empapano a terra. E eu pensei "Donde vem essa gasolina, meu Deus?", e aí passou uma coisa pela minha cabeça. Eu abri aporta e perguntei: "Ô, menino, como é que ocê tava brincano aí enquanto eu tava lá dentro?" "Ué, eu tava brincano de guiá, ora" "Então, brinca mais um pouquinho pra eu vê". Pois o menino veio até o lugar do motorista e mostrô: ele ficava virano a direção e pisano no acelerador! E não é que ele pisou e tanto que pisou que desvaziou o tanque? É sério, moço. Opa, já tô chegano no meu canto, pode pará logo ali na porteira. Muitobrigado, viu? Uma beleza sua caminhonete! 4.7.11
Sobre Paulo Renato
Li um texto longo de um cara que eu admiro, que é o professor e blogueiro Idelber Avelar, um mineiro que hoje é professor titular de literatura latinoamericana na Tulane University, no estado da Louisiana, EUA. Ele desce o sarrafo em um dos caras que eu considero dos mais importantes na história recente do Brasil, que é o Paulo Renato Souza, recém-falecido e ministro da Educação nos 8 anos do governo FHC. O texto de Idelber é injusto, historicamente impreciso e, de modo geral, sacana. Por que sacana? Porque cumpre uma missão, antes de fazer uma avaliação abalizada. Mas isso é sacana? É, quando você finge que faz um testemunho isento e, na verdade, está fazendo discurso partidário. Idelber, infelizmente, cumpre uma missão. Empoeira, assim, seu talento, sua capacidade intelectual e sua verve (diga-se, é um dos melhores textos a se ler na internet, e um linkador exuberante: sabe tudo do que passa ao redor no cyberspace). Apenas como exemplo: uma vez, Idelber escreveu em seu blog um longo texto defendendo o fim do Senado Federal e um regime unicameral no Brasil. Mandei a ele um email ponderando que o Senado, no Brasil, era um fator de equilíbrio, de compensação das desigualdades entre as unidades da Federação. Idelber me respondeu que isso era de menor importância, uma vez que a Federação não era relevante para o projeto de Socialismo que ele tinha para O Brasil. Opa! Paulo Renato virou um alvo do petismo e, de resto, da esquerda brasileira que orbita pelo PT. Foi um ministro da Educação que mudou paradigmas, direções, prioridades. Criou, com isso, uma raiva adicional, junto aos sindicalismos de sempre, raiva que já teria pelo simples fato de ser ministro do Presidente que derrotara Lula. Se fizesse uma gestão "café-com-leite", já seria malhado. Mas não. Paulo Renato tomou as rédeas da Educação como nenhum ministro, desde os tempos de Anísio Teixeira, teve a coragem de fazer. Com a verba possível, decidiu priorizar o ensino fundamental. O Brasil passou, em 8 anos a ter 97% das crianças em idade escolar na escola. Uma crítica que o petismo faz a Paulo Renato é a de não ter dado verbas suficientes às universidades federais. Outra é o de uma suposta priorização ao ensino privado, ou à privatização da educação (cada petista dirá de um jeito). O fato é que o governo FHC primou pelo que foi chamado responsabilidade fiscal. O tempo não era de vento a favor, portanto não sobrava para as universidades mais dinheiro do que já vinha das gestões anteriores (qualquer comentário leal, Idelber, traria um quadro das federais de Figueiredo em diante). O que ocorreu é que, de algo como 1,5 milhão de estudantes universitários em 1990, o Brasil saltou para quase 3,5 milhões. Os críticos de Paulo Renato no PT dizem que isso foi uma insidiosa privatização do que seria atribuição pública. Só que o fato objetivo é que dobrou a oferta de educação universitária no Brasi. Ah, mas o PT critica isso, não é? O santo governo Lula renega essa iniciativa pecaminosa, certo? Errado. o ProUni, programa do governo do PT pra colocar estudantes sem recursos na Universidade, tem como base para aquisição de cadeiras as mesmas universidades privadas que tanto criticou. E mais: o governo do PT PAGA por essas vagas. O fato é que Paulo Renato fez do limão uma limonada. É execrado pelos professores universitários federais de esquerda, que, no entanto, não conseguem explicar por que, depois de 9 anos de governo do PT, a realidade das Federais continua suada e dura. Provavelmente, ainda põem a culpa em Paulo Renato e FHC. É mais fácil assim. Eu só gostaria de lembrar dois feitos de Paulo Renato, e colocá-los em discussão: antes dele, havia 90% das crianças entre 7 e 11 anos na escola. Depois dele, há 98%, virtualmente todo mundo. Outro feito, execrado pelos petistas: antes de Paulo Renato, havia algo como 1,5 milhão de estudantes universitários no Brasil. Depois dele, são quase 3,5 milhões, mais do que o dobro. "Ah, mas se privatizou o ensino!" Sim, e daí? Se ofereceu a um público sem perspectiva de ter ensino superior a possibilidade de ter uma cadeira universitária. Pergunte a uma família dentro do público-alvo do PT se ela é contra isso. O fato é que Paulo Renato mudou para melhor a Educação no Brasil. Como Anísio Teixeira, entendeu que era preciso mudar e enfrentar interesses. Fez isso, pagando o preço de uma maledicência militante que sempre o perseguiu. Uma querida amiga minha, educadora, me disse uma vez que "a única chance do Brasil seria ter um ministro da Educação sem projeto político futuro, porque, se ele tentar mudar o que está lá, vai ser bombardeado". Paulo Renato foi quase isso. Não sei se ganharia hoje uma nova eleição. Mas que se saiba: foi um homem importantíssimo para a Educação em São Paulo e no Brasil, independente dos partidarismos com que se tenta julgar seu legado.< 2.7.11
Soneto de Alice Alice, linda, meio Mona Lisa no que sorri. Meio Goya no olhar, não olha, no entanto, pra quem avisa que a olha por uma fenda do ar. Pequena a fenda, é imenso o que visa: como se olha o que não faz estar? Alice, real, parece que é brisa, mas logo faz-se vento ao seu olhar. Eu olho Alice com um olho só -- logo Alice, tão tridimensional -- Minha visão é pouca, de dar dó. Se alguém olhar Alice e disser oh! terá entendido parte do total. Alice, conto, fada, ser melhor. 8.4.11
Numerologia Quinze minutos. De fama, de cama, de glória. Não sou trezentos, não sou trezentos e cinqüenta. Sou pouco mais que eu mesmo, mesmo assim, sou pouco. Em português claro, sou oblíquo, obscuro. Seja, talvez quinze. Mais conta o que não sou. Quinze passam, doze, será? Não sou trezentos, não sou trezentos e cinqüenta, e se nem treze sou, três e meio me parece justo, por inexato, pouco e sequer ímpar. 6.4.11
Um livre Há o poema, há quem o faça. Mas que desfaçatez fazer poesia do que passa. Seria poesia desfazer, seria melhor esquecer. Melhor, mesmo, emudecer (menos um dedo). 2.4.11
Quadras ao gosto dos fatos Sem baboseira, assim é a vida dora pra frente. Declarações barnabé ficam de fora. Da gente, o bottom-line: o que é seu seu fica, o que foi nosso se vê: desapareceu. O meu? Tão pouco esse troço... Combinamos: sem te-amos. Se em certo momento der, voltamos e conversamos (isso é coisa de mulher). Sem baboseira, assim é: você fala que eu sou bravo, lembra Dover e Calais, mas fala daquele cravo. O cravo (como esqueci?), o vinho pra impressionar, o amor, a pérola, o lar. Voltar, jantar, Meriti. 21.3.11
Aforismos (para não perder o costume) * A diferença entre o arrogante e o embusteiro é de apenas um engano. * Reunião é como vinho: com parcimônia, integra e alegra; em excesso, atordoa e paralisa. * A maldade é como o veneno: bem aplicada, às vezes cura. * Precisão é o nome da aproximação que nos convém. * O mundo se constrói com as virtudes dos maus alunos, as maldades dos bons alunos e os aplausos dos demais. * Pena é o equivalente moral da esmola. 12.3.11
Pensar é fácil? Ando preocupado. Pensar anda muito fácil. Depois de ter entrado nas tais redes sociais -- o que nos dá a alegria de "falar" com um monte de gente -- pude constatar uma coisa curiosa e preocupante: todo mundo tem posição política. Firme, forte, fechada. Como se fosse time de futebol. "Sou petista": isso significa que o mensalão não existiu, que quem fala mal do PT é fascista e conspirador, inimigo, em suma. "Sou tucano": isso, significa que Lula foi um picareta embusteiro, que tudo o que o governo do PT conquistou foi graças a FHC (coisa, aliás, que o próprio FHC admite que não é verdade, em entrevista gravada), que o Brasil vai afundar num tsunami soprado pelo Guido Mantega. "Sou liberal": significa que tanto petistas quanto tucanos são farinha do mesmo saco intervencionista, amigos do vilão Estado, causa de todos os males. Só que ninguém ouve o Guido Mantega -- ou o Malan ou o Delfim, amigão de Lula, ou os liberais -- com ouvidos desarmados e independentes. É tudo na base da torcida. Se FHC falou, é neoliberal (uma das maiores injustiças desses últimos tempos, diga-se de passagem, se olharmos com um mínimo de fundamento econômico colegial o que foram os anos FHC). Se Lula falou, é populista (outra injustiça colegial, a distância entre Lula e o populismo, como definido pela ciência política, é mais ou menos a mesma que há entre Marta Rocha e Roberta Close). Se o coitado do Bornhausen falou, claro, é fascista (as pessoas andam chamando de fascista qualquer coisa que habite o campo da direita, esquecendo da diferença entre os fundamentos horrorosos do verdadeiro fascismo e os fundamentos liberais, suficientemente razoáveis para entrar em uma mesa de discussão equilibrada e madura). Onde fica o pensamento independente, aquele que é mais difícil de montar, porque implica ler/ouvir os vários lados? Onde fica a discussão civilizada entre posições, aquela em que a gente tem trabalho pra compor o que pensa, põe em dúvida, sempre, as ideias prontas? Onde fica a civilidade? Opa! Será que civilidade é de direita? O fato é: parece que falta pensar e sobra torcer. Pena pro Brasil. Nos anos 80, a militância petista bradava "Arraes, caduco, Pinochet de Pernambuco". Não fazia aliança com ninguém e tinha uma proposta clara de mudança estrutural na sociedade brasileira e em sua economia. O tempo foi obrigando o partido a ter posturas mais pragmáticas, para chegar ao poder. Primeiro, fazendo alianças no campo socialista e trabalhista, indo do PCdoB ao PDT. Depois, mais tarde, chegando ao governo com uma chapa PT-PL -- um petista que tivesse entrado em coma em 1989 e acordado em 2003 preferiria voltar ao coma. A partir daí, a agenda, a plataforma, a prática, tudo no PT se atucanou. Hoje, depois de governar com uma agenda social-democrata temperada com vigorosas ações assistencialistas, o PT não tem mais conexão clara com o que pregava até 1986. Esse papel foi tomado pelos dissidentes que formaram o PSOL e os partidos mais radicais como o PSTU e o PCO, de origem trotskista. De seu lado, Lula e o PT (mais aquele do que este) tomaram para si a agenda do PSDB. Com o sucesso do governo Lula e a partir da vitória de Dilma Rousseff, essa guinada é definitiva. O megaempresário Jorge Gerdau é o nome que Dilma quer para ser o Gilberto Gil de seu ministério, a estrela de fora a fazê-lo brilhar. Palocci, a vanguarda pragmática dentro do PT, ficará mesmo na Casa Civil. Pouco restará à esquerda do partido -- e mesmo a Zé Dirceu, ironicamente, o artífice da moderação petista. Com isso, ganha o Brasil. Mas perde a política, na medida que o PT, embora atucanado, mantém um sotaque ainda semelhante ao dos anos 80. Faz um discurso antiprivatização (Dilma teve o desplante de dizer que só não revia as privatizações porque isso configuraria quebra de contrato; que contrato, cara-pálida?) e deixa o barco correr. Veste o boné do MST, mas assenta menos que FHC. Coopta os sindicatos e mantém a estrutura que, em sua origem, o PT queria desconstruir. Abraça um projeto que tem lemas como a cidadania e o desenvolvimento rumo ao primeiro mundo -- há agenda mais tucana do que essa? Pois agora, isso apenas não basta. A próxima tarefa do PT será cooptar os tucanos originais. O discurso que apontei rapidamente na nota anterior pode ser visto com frequência cada vez maior entre petistas formadores de opinião. "Mário Covas? Esse era dos nossos". Ao mesmo tempo, Lula declara com todas as letras, ainda meses antes da eleição que topava qualquer aliança -- menos com o PSDB. Por que? Por ter sido o PSDB radical demais na oposição? Ora, todos nós vimos como foi a oposição do PSDB. Tirando o episódio da CPMF, que contou com puxadas de tapete dentro da "base aliada", o PSDB foi quase sorridente com o governo Lula. A leitura óbvia é: hoje, disputam o mesmo espaço. E o PT quer ganhar essa parada. De qualquer maneira, ganha o Brasil com uma agenda que vise o desenvolvimento e a erradicação da pobreza -- hoje, as duas metas principais do PT e do governo Dilma. Mas seria didático, para a formação política das novas gerações, que o partido do presidente da República assumisse de público essa guinada, reconhecesse a adoção de uma plataforma que não era sua -- e que ele, de resto, rejeitava -- e desse os créditos a quem preparou o terreno para seu inegável sucesso. Mas não se pode querer tudo. Até porque, lá do lado dos tucanos, não se sabe mais o que dizer. Afinal, se for para seguir à risca o que o partido propunha em sua origem, só lhe restará ser situação, ou tentar retomar a autoria do que realmente é seu. Mas para isso, é preciso tempo de reflexão e amadurecimento, que a eleição de 2010 mostrou que ainda são escassos no PSDB. Quem poderia imaginar que Lula seria capaz de tal façanha? Pensar é fácil? Ando preocupado. Pensar anda muito fácil. Depois de ter entrado nas tais redes sociais -- o que nos dá a alegria de "falar" com um monte de gente -- pude constatar uma coisa curiosa e preocupante: todo mundo tem posição política. Firme, forte, fechada. Como se fosse time de futebol. "Sou petista": isso significa que o mensalão não existiu, que quem fala mal do PT é fascista e conspirador, inimigo, em suma. "Sou tucano": isso, significa que Lula foi um picareta embusteiro, que tudo o que o governo do PT conquistou foi graças a FHC (coisa, aliás, que o próprio FHC admite que não é verdade, em entrevista gravada), que o Brasil vai afundar num tsunami soprado pelo Guido Mantega. "Sou liberal": significa que tanto petistas quanto tucanos são farinha do mesmo saco intervencionista, amigos do vilão Estado, causa de todos os males. Só que ninguém ouve o Guido Mantega -- ou o Malan ou o Delfim, amigão de Lula, ou os liberais -- com ouvidos desarmados e independentes. É tudo na base da torcida. Se FHC falou, é neoliberal (uma das maiores injustiças desses últimos tempos, diga-se de passagem, se olharmos com um mínimo de fundamento econômico colegial o que foram os anos FHC). Se Lula falou, é populista (outra injustiça colegial, a distância entre Lula e o populismo, como definido pela ciência política, é mais ou menos a mesma que há entre Marta Rocha e Roberta Close). Se o coitado do Bornhausen falou, claro, é fascista (as pessoas andam chamando de fascista qualquer coisa que habite o campo da direita, esquecendo da diferença entre os fundamentos horrorosos do verdadeiro fascismo e os fundamentos liberais, suficientemente razoáveis para entrar em uma mesa de discussão equilibrada e madura). Onde fica o pensamento independente, aquele que é mais difícil de montar, porque implica ler/ouvir os vários lados? Onde fica a discussão civilizada entre posições, aquela em que a gente tem trabalho pra compor o que pensa, põe em dúvida, sempre, as ideias prontas? Onde fica a civilidade? Opa! Será que civilidade é de direita? O fato é: parece que falta pensar e sobra torcer. Pena pro Brasil. 30.11.10
O PT se atucana. Viva o PT
Nos anos 80, a militância petista bradava "Arraes, caduco, Pinochet de Pernambuco". Não fazia aliança com ninguém e tinha uma proposta clara de mudança estrutural na sociedade brasileira e em sua economia. O tempo foi obrigando o partido a ter posturas mais pragmáticas, para chegar ao poder. Primeiro, fazendo alianças no campo socialista e trabalhista, indo do PCdoB ao PDT. Depois, mais tarde, chegando ao governo com uma chapa PT-PL -- um petista que tivesse entrado em coma em 1989 e acordado em 2003 preferiria voltar ao coma. A partir daí, a agenda, a plataforma, a prática, tudo no PT se atucanou. Hoje, depois de governar com uma agenda social-democrata temperada com vigorosas ações assistencialistas, o PT não tem mais conexão clara com o que pregava até 1986. Esse papel foi tomado pelos dissidentes que formaram o PSOL e os partidos mais radicais como o PSTU e o PCO, de origem trotskista. De seu lado, Lula e o PT (mais aquele do que este) tomaram para si a agenda do PSDB. Com o sucesso do governo Lula e a partir da vitória de Dilma Rousseff, essa guinada é definitiva. O megaempresário Jorge Gerdau é o nome que Dilma quer para ser o Gilberto Gil de seu ministério, a estrela de fora a fazê-lo brilhar. Palocci, a vanguarda pragmática dentro do PT, ficará mesmo na Casa Civil. Pouco restará à esquerda do partido -- e mesmo a Zé Dirceu, ironicamente, o artífice da moderação petista. Com isso, ganha o Brasil. Mas perde a política, na medida que o PT, embora atucanado, mantém um sotaque ainda semelhante ao dos anos 80. Faz um discurso antiprivatização (Dilma teve o desplante de dizer que só não revia as privatizações porque isso configuraria quebra de contrato; que contrato, cara-pálida?) e deixa o barco correr. Veste o boné do MST, mas assenta menos que FHC. Coopta os sindicatos e mantém a estrutura que, em sua origem, o PT queria desconstruir. Abraça um projeto que tem lemas como a cidadania e o desenvolvimento rumo ao primeiro mundo -- há agenda mais tucana do que essa? Pois agora, isso apenas não basta. A próxima tarefa do PT será cooptar os tucanos originais. O discurso que apontei rapidamente na nota anterior pode ser visto com frequência cada vez maior entre petistas formadores de opinião. "Mário Covas? Esse era dos nossos". Ao mesmo tempo, Lula declara com todas as letras, ainda meses antes da eleição que topava qualquer aliança -- menos com o PSDB. Por que? Por ter sido o PSDB radical demais na oposição? Ora, todos nós vimos como foi a oposição do PSDB. Tirando o episódio da CPMF, que contou com puxadas de tapete dentro da "base aliada", o PSDB foi quase sorridente com o governo Lula. A leitura óbvia é: hoje, disputam o mesmo espaço. E o PT quer ganhar essa parada. De qualquer maneira, ganha o Brasil com uma agenda que vise o desenvolvimento e a erradicação da pobreza -- hoje, as duas metas principais do PT e do governo Dilma. Mas seria didático, para a formação política das novas gerações, que o partido do presidente da República assumisse de público essa guinada, reconhecesse a adoção de uma plataforma que não era sua -- e que ele, de resto, rejeitava -- e desse os créditos a quem preparou o terreno para seu inegável sucesso. Mas não se pode querer tudo. Até porque, lá do lado dos tucanos, não se sabe mais o que dizer. Afinal, se for para seguir à risca o que o partido propunha em sua origem, só lhe restará ser situação, ou tentar retomar a autoria do que realmente é seu. Mas para isso, é preciso tempo de reflexão e amadurecimento, que a eleição de 2010 mostrou que ainda são escassos no PSDB. Quem poderia imaginar que ele, Lula seria capaz de tal façanha? 22.11.10
O efeito do tempo e a transformação da imagem
Tenho ouvido e lido uma multidão de petistas, ultimamente, elogiando rasgadamente o falecido governador Mário Covas. Acho que Covas foi um dos grandes, na política brasileira, não apenas no PSDB. Covas foi um expoente na resistência à ditadura militar, foi um grande parlamentar, foi um prefeito exemplar de São Paulo, logo após a redemocratização e em plena recessão dos 80, foi o governador que saneou as finanças de São Paulo depois da gestão arrasa-Estado do seu antecessor, chegou a ser uma esperança de comando para o Brasil, o que o destino e o câncer cuidaram de barrar. Mas foi justamente por conta de sua ação saneadora que os petistas o tratavam a xingamentos -- quando não a agressões físicas, como ocorreu em uma manifestação em que ele não se deixou intimidar, encarou uma turba petista e quase se deu mal. Enquanto estava vivo, Covas não mereceu do petismo e dos petistas nada mais do que oposição implacável, no mesmo estilo do que o PT fazia com seu "Fora FHC". Apoiou Lula no segundo turno de 89, o que foi esquecido logo depois, quando foi ao segundo turno com Francisco Rossi em 94 e com Maluf em 98. Agora, faça o teste: pergunte ao petista ao lado o que ele acha de Mário Covas. Ouvirá só elogios. "Esse sim sabia governar" (sem lembrar que foi ele que começou o atual -- e correto -- ciclo de concessões de rodovias à iniciativa privada). "Esse era progressista" (sem lembrar que, quando ele fez os cortes de orçamento em 95, era acusado de neoliberal para baixo). Se você lembrar a um petista que ele xingava Mário Covas em 95, ele dirá: "Quem, eu? Imagine!" O petismo é assim. Muda fingindo não mudar. É por isso que eu acho que a boa notícia é que há uma chance de reconciliação entre as duas tendências social-democratas. A má notícia é que ela só se dará no céu. 3.11.10
Senhores passageiros, chegamos ao Brasil do PT
Um raro e bonito momento de emoção da presidente eleita Política é uma das mais importantes atividades humanas, é ela que, mal ou bem, define os caminhos que uma sociedade seguirá. Qualquer sociedade. A atividade política do Brasil pós-ditadura foi muito marcada por dois fatores distantes e distintos: as telecomunicações e o PT. O tempo de TV, desde a primeira eleição pós-ditadura, vem sendo cada vez mais o fator que rege a busca de alianças nas eleições majoritárias, notadamente a de presidente da República. Também desde 1989, o grande fenômeno político é o PT. Nenhum outro partido conseguiu (não sei se sequer quis) tanta penetração na sociedade quanto o PT. Enquanto os outros todos -- inclusive o até hoje maior deles, o PMDB -- eram agremiações de políticos profissionais ou de burocratas ligados à política, o PT arregimentava uma multidão de filiados apenas cidadãos. Gente como você e eu interessada nos destinos do país, ou ao menos nos destinos de sua classe ou categoria. O PT foi capaz de fazer uma oposição sentida pela sociedade como legítima. Falava a língua de quem queria limpeza, acenava com justiça e igualdade, mostrava-se inflexível em seus princípios. A malsã campanha de Collor de Melo conseguiu um efeito curioso, uma compensação a nós derrotados (então, ainda éramos nós): fez de Lula um mártir vivo. Deu ao povo a chance de redimir o enforcado, o esquartejado moralmente pela injustiça, pela infâmia. Depois de duas eleições em que o povo, pragmaticamente, escolheu Fernando Henrique, na primeira escorregada do projeto da soi-disant social-democracia brasileira, Lula ocupou o espaço que já lhe vinha sendo desenhado desde 89 e se elegeu Presidente da República. De quebra, em quatro anos ocupou o espaço que seria do PSDB na realização de suas políticas públicas. Ocupou, operou e superou. No campo social, em que a parte mais próxima do liberalismo acha que, com a economia em ordem, a solução simplesmente virá, Lula atuou forte e interveio positivamente. Serra provavelmente teria feito o mesmo, sempre foi intervencionista, o temor dos empresários em relação a ele era justamente esse. Em 8 anos, o PT tomou para si a social-democracia incipiente, que o PSDB não foi capaz de assumir e defender, empurrou os tucanos para a direita, espremendo-os entre eles mesmos e o DEM -- hoje um aliado inútil, a não ser pelos minutos de TV -- e fundou uma nova onda de simpatizantes na camada mais pobre da população, tradicionalmente mais reticente ou resistente ao partido. Barba, cabelo e bigode. Agora, com a vitória de Dilma e a conquista de maioria nas duas casas do parlamento, nasce de fato o PT no poder. O Brasil do PT começa agora. Começa bem, crescendo, distribuindo renda, inovando (vale ver a matéria sobre Luciano Coutinho e o BNDES na última Piauí). Mas há também um PT atrasado, retrógrado e esquemático, no que diz respeito à defesa de ideias de uma esquerda antiga e que perde sentido no mundo da informação. Dilma Rousseff disse à Época que o governo Lula só não desfez as privatizações porque seria quebra de contratos. Sabemos que não é verdade, mas o sinal é péssimo. A Presidente diz também que a política do câmbio livre é a melhor para o Brasil, atribuindo o controle de câmbio ao governo que o desfez, o de FHC, e esquecendo que figurões de seu partido, como o senador Mercadante e o hoje ministro Mantega defendem a intervenção. Mas tudo agora é conjectura. FHC dizia à boca pequena, em 85, que Tancredo, sobrevivendo, seria um imperador. O economista Mercadante garantia que o Plano Real ia ruir em poucos meses. Dúzias de tucanos diziam que o primeiro mandato de Lula só serviria para trazer FHC de volta em 2006. Outras dúzias de jornalistas diziam que Lula, fraco, seria fantoche do PMDB, se eleito em 2006. Tancredo morreu, o Plano Real refez o Brasil, Lula foi o sucesso que se vê e o PMDB hoje gira em torno dele e de Dilma. Não dá para comemorar a vitória de alguém que mais parece um fantoche. Não dá para lamentar, tampouco, a derrota de alguém que se prestou a papéis inacreditáveis para quem tinha tal reputação, tal carreira no passado. Sem comemorar nem lamentar, resta esperar que venha o melhor, torcer para que o Brasil siga melhorando e, o que é mais divertido, assistir às surpresas que a mudança sempre traz. Que sejam as melhores. Filme triste, 2
Resnais moço Um corretor de imóveis oferece apartamentos a uma executiva, que quer comprá-lo para se casar com o namorado indolente, banido do exército por uma razão grave que não se revela, que afoga suas mágoas no bar de um hotel, cujo bar-man mora com o pai doente, permanentemente acamado, cujo único gosto é aterrorizar suas enfermeiras, que jamais permanecem na função, até que aparece por lá uma voluntária, que se dedica por sacrifício a atender o velho ao longo das madrugadas, mas que, durante o dia, é a aplicada secretária protestante do escritório do corretor de imóveis, que tem uma quedinha por ela e é irmão de uma trintona solteira que, por meio de um desses sites de encontros, acaba por conhecer e encantar o ex-soldado beberrão. Essa corrente, que pode parecer um tanto bizarra da forma como é aqui descrita, flui com perfeição quando o narrador é competente como o diretor francês Alain Resnais (de "Hiroshima Mon Amour", "O Ano Passado em Mariembad" e mais uma portentosa filmografia). "Medos Privados em Lugares Públicos" é a versão para cinema de uma peça do inglês Alan Ayckbourn, em que o recurso dramatúrgico de se montar uma corrente de personagens que se conectam indefinidamente é usada à farta, com mais de 50 personagens. Resnais os reduz a seis e leva a narrativa de Londres a Paris. Mas mantém a abordagem teatral. Não nenhuma cena em qualquer dos lugares monumentais da capital francesa. Quase tudo é cenário, e o que é locação é em lugar corriqueiro e em plano fechado. Se a estrutura -- a composição de uma corrente casual -- não é nova, tampouco o tema o é: a dificuldade do relacionamento entre pessoas em geral, homens e mulheres em particular. Mas o tratamento que Resnais dá ao filme destaca as sutilezas, dissolve as obviedades e surpreende no comum. A corrente que se monta é esperada, o desfecho, tão pouco esperado como pouco esperada é a vida real com suas armadilhas. Meu amigo Zé Octávio diz que todo mundo deveria assistir, ao menos uma vez por ano, "Hiroshima Mon Amour", um filme triste. Depois de ver, com mais de um ano de atraso, "Medos Privados em Lugares Públicos", acrescentaria à recomendação do Zé o conselho de que se assista a pelo menos mais um Resnais a cada ano. 9.9.10
O Serra em que eu voto
José Serra, presidente da UNE, ao lado do presidente João Goulart Não voto no mesmo Serra em que votam vários eleitores cujas manifestações pululam na internet. Tenho visto as manifestações mais repulsivas de gente que diz votar em Serra e que, quando defende algo, é um sub-ideário conservador próximo da mais pura estupidez. Mas no mais das vezes, essas pessoas não defendem nada. Apenas manifestam medo de um eventual governo do PT e um ódio irracional pelo partido, por Lula e por Dilma. Normalmente, as mensagens dessa gente têm uma característica comum: muitos pontos de exclamação acompanhando termos alarmistas como "Perigo!!!!", "Não podemos ficar parados!!!!!", "Espalhe!!!" O Serra em quem voto e por quem faço proselitismo até exagerado, segundo alguns amigos já enfastiados, não é aquele que os raivosos anti-Lula defendem apaixonadamente. Não é objeto de sequer um ponto de exclamação. O Serra em quem eu voto é o Serra que foi presidente da UNE, que foi exilado no Chile e, lá, defendeu como pôde companheiros perseguidos pela ditadura cínica que havia usurpado o poder no Brasil. O Serra em quem eu voto é o que foi secretário da Fazenda do governo Montoro e que, em dois anos, saneou o caos financeiro que a quadrilha de Paulo Maluf havia estabelecido no Estado de São Paulo. O Serra em quem eu voto é o deputado constituinte que criou o Fundo de Amparo ao Trabalhador, fazendo de uma ficção, que era a versão brasileira do seguro-desemprego, virar um benefício de verdade. O Serra em quem eu voto é o cara que conseguiu entender o novo papel da esquerda no mundo pós-Gorbatchov e a função da iniciativa privada no nosso Brasil tão confuso na definição do que é público e do que é privado. O Serra em quem eu voto é o que criou o programa da AIDS e conseguiu colocar os grande laboratórios multinacionais a serviço do combate à epidemia, muitas vezes valendo-se de ultimatos firmes, sempre levando a melhor nessas disputas. Por fim, o Serra em quem eu voto não tem nada a ver com a legião de desinformados e acomodados que chamam Dilma Rousseff de "terrorista" e Lula de "vagabundo". Dilma lutou contra uma ditadura criminosa, e se cometeu algum ato de violência -- o que não é comprovado que tenha feito -- isso deve ser qualificado como legítima defesa. Já Lula, com todas as críticas que se possa fazer a ele -- e há um caminhão delas --, é a maior figura da história dos movimentos populares no Brasil, é um gênio da política e tem uma história pessoal que o faz merecer todo o respeito da população, sobretudo de gente tratada a Danoninho e que, adulta, administra pouco mais que o próprio sobrepeso, embora adote um discurso arrumadinho smithiano. Voto em José Serra porque ele é mais capaz de continuar o que FHC começou, unindo responsabilidade e criatividade, realismo e visão, eficiência e sonho. Serra é um gênio da administração pública no Brasil, como já mostrou exaustivamente, ao menos desde 1983. Enfim, o Serra em que eu voto é progressista e conseqüente, além de sobejamente preparado para a função. Política e administrativamente, ele supera de longe a candidata (legítima e com uma história pessoal e política rica) do PT. 1.9.10
Sobre pesos e medidas
Existe um curioso moralismo que vem dos tempos da ditadura e, se lá se justificava, hoje é anacrônico e perigoso. Trata-se do pudor que as pessoas têm de comparar atitudes da esquerda e da direita. Parece sempre que o mesmo gesto, se perpetrado por um fascista, é condenável, se levado a cabo por um socialista, é perdoável a priori. Como se intenção e gesto fossem tão facilmente separáveis. Assim, violar segredos ilicitamente de um adversário político é odioso, se perpetrado por um fascista, e de certa forma aceitável, se feito por um "socialista". Defender a censura é um crime, se for um fascista quem o faz, mas é uma idéia, por que não?, se embalada por um "socialista" no papel de seda azul de um "controle social". As invasões de terra do MST são um motor da libertação dos povos; as invasões de terra estimuladas por Joaquim Roriz são exploração do povo como massa de manobra. Eu prezo -- e cada vez mais -- a democracia. Aquela que prevê representação parlamentar, poder judiciário eficiente e equilibrado, executivo legitimado por eleições e atuando em harmonia com os outros dois poderes, liberdades civis, prevalência da lei. Em uma democracia, gente que invade arquivos confidenciais do órgão público em que trabalha para fuçar a vida alheia e buscar dividendos políticos com isso é mais do que execrada. É presa. A ditadura fuçava a vida alheia. A companheirada petista se iguala a ela quando também fuça. Em uma democracia, censura à imprensa é inaceitável, bem como sua versão edulcorada, batizada pelo eufemismo de "controle social da mídia". A ditadura fazia isso, e seu controle era tão "social" como aquele que pretendem exercer o companheiro Franklin Martins e sua representação da "sociedade". Em uma democracia, invasão de terra alheia é crime, seja ela feita por laranjas de grileiros, por massa de manobra de políticos conservadores ou pelos chamados movimentos sociais. Mas os movimentos sociais não serão mais legítimos do que os miseráveis manipulados por gente como Joaquim Roriz? Sob o meu ponto de vista, sim, mas uns e outros devem seguir a mesmíssima lei. Mas João Pedro Stédile não é mais "do bem" do que Roriz? Afinal, a massa de Stédile não sai desse processo mais "politizada" do que a massa de Roriz? Isso não importa rigorosamente nada, no que tange ao alcance da lei. Mauzinho e bonzinho não podem roubar. Ponto. Ah, mas e o esfomeado que rouba comida? A lei o protege, como, aliás, protege a todo aquele a quem seja impossível compreendê-la. Em nome daquele tipo de diferenciação extremamente subjetiva -- regras que valem para quem é "do mal" e não valem para quem é "do bem" -- é impossível legislar. A sociedade não será capaz de ter um senso comum sobre isso, e sem senso comum não há lei. Não pode haver uma sociedade em que o que é roubo para um de seus segmentos é apropriação legítima para outro, o que é espionagem para uns é vigilância legítima para outros ou o que é censura aqui é "controle social" ali. Democracia é muito mais simples do que isso. Se a lei é concebida de forma a não valer para todos, não é democracia. Isso vale para o jornalista canalha que matou a namorada e vale para o João Pedro Stédile que recebe dinheiro frio em sua entidade (pelo simples fato de que a própria entidade é fria). Na verdadeira democracia, o que é inaceitável para a sociedade é inaceitável para a esquerda e para a direita. O que é crime para a direita também é crime para a esquerda. Simples assim. Que, dentro da lei, esquerda e direita disputem seus espaços, espalhem suas propostas, debatam suas diferenças. Mas cumpram aquilo que não é de direita nem de esquerda, é (ou deveria ser) de todos. 20.8.10
Mãe é uma só, respeito é bom e eu gosto
Depois de ungir a moça, ele ainda quer que ela seja minha, sua, nossa mãe. Mãe? Qual não é o meu pasmo quando, depois de muitas eleições, depois de viver a ditadura, participar do movimento estudantil que pareceu renascer (depois gorou), ver a campanha das diretas, a Constituição de 88, a transição democrática, que teve um ponto alto nos caras-pintadas que ajudaram a defenestrar Collor de Melo, o plano Real, que livrou o Brasil de três décadas de inflação crescente, a eleição de Fernando Henrique, a estabilidade econômica, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a eleição de um operário para a presidência da República -- depois de tudo isso, uma campanha presidencial coloca sua candidata com "mãe do Brasil" e o presidente atual como "pai". Descemos ao Jeca Tatu ou toda a sensação de amadurecimento político do país foi mera ilusão? "Mãe" lembra Evita Perón, "Pai" volta a Getúlio Vargas. Pai e mãe remetem a um povo infantilizado, dependente, débil e imaturo. Pai e mãe remetem também a uma noção de ser iluminado, em oposição à massa obscura, de condutor, de duce, para lembrar o título de triste memória do fascismo. Ao colocar sua propaganda desta forma -- e não venham os marketeiros de plantão dizer que esta é a forma que as pesquisas indicaram, porque esta é uma opção ideológica --, o PT acaba de afundar naquilo que já se prenunciava nos tempos do escândalo do mensalão. Órfão de si mesmo, mudando de lado ideológico sem admitir isso, o partido do governo entra com tudo em uma fase de neurose, de histeria, de esquizofrenia. Brada por um país que é de mais alguém, não dele -- afinal, dele, PT, seria um país em que a iniciativa privada daria lugar ao controle do estado, em que a posse da terra seria coletivizada, em que os meios de comunicação não poderiam ficar na mão da burguesia, mas sim do povo. Povo este que seria representado pelo Estado, afinal não há tanto espaço assim para que todo mundo se expresse e gerencie. Não, o PT não chegou lá. A carruagem continuou andando, a política econômica foi rigorosamente mantida -- sua figura maior é um ex-presidente de banco multinacional egresso do PSDB --, o maestro da economia andou na contramão de seu partido e, explicitando elogios à gestão anterior, obedeceu radicalmente a política econômica de seu antecessor. Com isso, quem chegou lá, no lugar do PT, foi Lula. Sozinho. Ou melhor: muito e mal acompanhado. Sua figura pessoal, seu carisma e seu infinito pragmatismo permitiram que todo tipo de áulico grudasse em seu governo e o apoiasse. Ao mesmo tempo, o poder fez com que chegasse finalmente ao coração do povão, unindo em torno de si um eleitorado que não era do PT nem de ninguém, apenas estava esperando um novo líder carismático para venerar. André Singer, seu ex-porta-voz, explica bem isso em Raizes Sociais e Ideológicas do Lulismo. Esse ambiente pré-político leva naturalmente a uma regressão da discussão. Até aí, nenhuma novidade. Os 21 anos de ditadura melaram o tenro amadurecimento da democracia no Brasil. A volta deu em Collor e sua bandeira da "caça aos marajás". Era de se esperar. Mas a partir do impeachment, parecia que o país entrava em uma etapa de franco amadurecimento e superação de símbolos como Sarney e seu sucessor "caça-marajás". O Plano Real foi uma mostra impressionante de como a população, chamada a participar de um processo de evolução, reage maduramente. A Lei de Responsabilidade Fiscal mudou práticas antigas de abuso na função pública. A convivência democrática passou bem por provas difíceis. Parecia que chegávamos à maturidade -- o que foi reforçado pela eleição de um operário. E agora? Lá vem a candidata oficial posar de mãe e lá vem seu criador posar de pai. Voltamos aos anos 30. Voltamos a Urupês. Voltamos a dividir o país em dois, com o cinismo de uma "opção pelos pobres" que é pura mistificação (ou alguém com QI acima de 90 acha que Bolsa Família é fator efetivo de distribuição de renda?). Regredimos. Mas é imperativo resistir, é preciso mostrar a esses caras que ao menos uma parte do Brasil é diferente e não aceita ser chamada de limítrofe. Neste momento, como brasileiro, resta e importa reagir a essa debilização mental que o governo, seu duce e seu subproduto promovem. E antes que eu me esqueça, mãe é a mãe. 2.8.10
Ele continua espertíssimo
Deu na Folha: Um DVD pirata do filme Lula, o filho do Brasil poderia ser comprado, ontem, dentro do comitê de campanha do senador Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo, em Osasco, por R$ 10.. Mais uma do espertíssimo senador do PT. Em seu comitê de campanha, no último fim-de-semana, uma banquinha de DVDs piratas expunha alegremente sua mercadoria, só cessando o gaio mercadejamento quando a reportagem da Folha alertou um dos responsáveis pelo local. Não foi o mesmo senador que teve entre seus assessores mais próximos os tais aloprados, que resolveram comprar um "dossiê" com supostos segredos do candidato tucano a governador? Não foi ele que disse que não sabia de nada? Tempos depois, o senador, depois de defender o contrário do que seu partido defendia -- o PT queria salvar a pele do senador Sarney, envolvido em um caixote de escândalos --, renunciou de forma irrevogável ao posto de líder da bancada. Afinal, sua posição era oposta à dos companheiros que liderava. A renúncia irrevogável foi revista -- e a posição também -- depois de umas horinhas com o companheiro presidente. Quanto a esta última trapalhada, Mercadante pronunciou a pérola: Isso é o tipo de coisa que não pode acontecer em hipótese alguma. Claro que somos contra a pirataria. Verdade seja dita: o senador não vê o que passa à sua volta, mas nada abala sua cara de bravo e seu discurso de severidade. Eu não votaria nele para síndico do meu prédio (aliás, seria mais fácil eu votar no excelente síndico do meu prédio para governador), mas acho que ele teria um futuro promissor como escada do Renato Aragão no memorável "Os Trapalhões". Deixaria Dedé Santana no chinelo. 28.7.10
Dito Assim aposta: governador de Minas não muda até 2014.
Governador Antonio Anastasia, de Minas Gerais Por que essa afirmação, se Anastasia hoje tem 18% das intenções de voto, enquanto Hélio Costa tem 44%? Primeiro porque o ex-ministro, em eleições para o executivo, demonstrou ser cavalo de tiro: larga bem, lidera por meia pista, mas abre o bico na reta final. Segundo porque, dizem os pajés, um candidato a reeleição, se não errar ao longo da campanha, transforma entre 60 e 70 por cento de sua popularidade em votos. Fazendo a conta: o governador Antonio Anastasia tem hoje algo em torno de 60% de ótimo e bom nas pesquisas mais recentes. Se 60% dos que o aprovam votarem nele, isso representará 36% dos votos. Como esta é uma eleição totalmente polarizada, para que Anastasia ganhe os 18% que faltam, ele terá de tirar dos indecisos (23% hoje) e de Hélio Costa. Se tirar metade de cada grupo, o candidato do PMDB cairá para os mesmos 36%. Aí entra o fator Aécio Neves. O ex-governador, inventor de Anastasia, que era seu vice, teve algo em torno de 90% de aprovação de sua gestão. É o maior cabo eleitoral de Minas e um dos maiores do Brasil. Em um segundo turno duro como o hipotético acima, Aécio tem condição de dar um baile em Hélio Costa, da mesma forma que Hélio Garcia e Eduardo Azeredo já deram antes. Tudo isso, somado a uma certa blasage do candidato lulo-peemedebista -- que disse à imprensa que venceria levando sua campanha "no piloto automático" --, faz com que os 44 a 18 de hoje tendam a não permanecer. O que me parece muito bom para Minas. 14.7.10
O peso da vida real escancarada Entre as coisas aque faço na vida, há uma de que gosto muito: como redator, escrevo textos de cunho político-institucional, faço campanhas eleitorais, digo coisas que, acho eu, podem mudar de fato a vida das pessoas. A base é acreditar que estamos caminhando para um futuro melhor, mais razoável, mais produtivo e equilibrado. Tudo isso rui quando aparece à nossa frente um caso como o do goleiro do Flamengo e sua turma, que torturaram e mataram uma moça, cujo pecado foi seguir uma trilha ditada por um senso de oportunidade canhestro, que envolve sexo com a finalidade de procriar. No caso, procriar herdeiros. Ou seja: um enredo de horror puro. No entanto, levado a cabo não por um psicopata, mas por uma turma. Isso se pensarmos nos diretamente envolvidos. Se considerarmos a cena completa, veremos grandes festas envolvendo garotas de programa e rapazes no pleno viço sexual dos vinte e poucos anos, enfim, uma pequena e agitada multidão. Fico me perguntando para quantos frequentadores desses festins matar para queimar um arquivo representa um crime grave. Ou mandar surrar uma mulher e forçá-la a tomar abortivos. Ou simplesmente mandar surrar alguém. O país está crescendo sobre nenhum alicerce ético. A cicatriz deixada por duas décadas de ditadura, que desmoralizaram a arte de educar, mais uma onda de pragmatismo desmedido, como foi a era yuppie, tudo somado ao abandono completo da parte mais pobre da população pelas instituições que por ela deveriam zelar, animalizou uma parcela imensa da população. A palavra é essa mesmo: animalizou -- se é que isso não representa uma injustiça para com os animais. Dois dias atrás, num ônibus cheio, ouvi a conversa de três mulheres. Falavam de uma quarta, distante, que, ao que parecia, havia cometido alguma falseta com alguém. Uma das três, a que aparentemente era a mais velha, dizia: "Ah, é pra 'rancá os olhos dela assim com a mão. Ah, eu fazia isso sem me arrependê". Bravata à parte, o tamanho da perversão fantasiada, e dita em uma roda quase pública, dá uma noção do que vai pela cabeça de uma parte da população mais pobre do país. E a população mais rica? A resposta vem com outra pergunta: quem trouxe ao país seus rotweilers e dobermans? Quem colocou ao país que educação não importa, o que importa é se dar bem -- e se possível deixando o outro longe e engolindo poeira? O outro? Foda-se. Ou melhor e mais educadamente: sinto muito, mas foda-se. A elite educada e bem-alimentada, tratada a pã-de-ló e vestida a shopping-center "exclusivo" prefere deixar o mundo real atrás do vidro preto dos seus carros. Ninguém liga. Numa conjuntura marcada pela convivência entre opulência despudorada e miséria ganesa, o soalho ético e -- deixe-me usar a palavra difícil, porque mal interpretada -- moral cede e desaparece. Nada é impossível. Matar e desmanchar uma moça em frente ao filho bebê e oferecer seus restos a cães ferozes passa a ser plausível. O que virá? É deprimente querer prever. Mas no mundo do bigbrother e do valetudo, cada vez mais tudo é possível 2.7.10
Sobre as últimas pesquisas eleitorais
Hoje, quando saiu o resultado do Datafolha, colocando Serra e Dilma em empate técnico, com Serra numericamente à frente -- 39%, contra 38% de Dilma e 10% de Marina Silva --, ouvi de uma pessoa querida uma observação de desconfiança. Disse então o que vou dizer agora aqui: esquisito não foi esse resultado do Datafolha, e sim os resultados (idênticos!) do Ibope e do Instituto Sensus, que davam 40% a 35% para Dilma. Digo isso não por conta da esquisita metodologia do Sensus ter sido motivo de uma pendenga judicial ou por ser seu principal cliente apoiador de Dilma Roussef em Minas Gerais. Tenho, na verdade, dois motivos para concluir que o Datafolha tem resultado mais próximo do que deva ser a realidade do eleitorado brasileiro. Primeiro ponto: não houve qualquer fato político que justificasse a tão repentina quanto expressiva ascensão de Dilma Roussef de um empate técnico a uma dianteira de cinco pontos, atingindo o patamar dos 40%. Atribuir isso a sua maior presença na TV em maio e junho -- seja nos noticiários, inaugurando terrenos com Lula, seja na publicidade -- é ingenuidade ou torcida. Quem acompanha eleições há certo tempo sabe que não há subida como essa motivada por tempo de TV, a essa altura do campeonato e sem nenhuma escorregada do outro lado (aliás, se alguma pesquisa feita hoje desse uma queda de Serra, haveria um motivo objetivo, o pastiche da escolha do vice). Segundo ponto: fui testemunha de fato parecidíssimo com esse, dois anos atrás. Na eleição para prefeito de São Paulo, o candidato à reeleição, Gilberto Kassab, aparecia nas pesquisas oscilando entre 10 e 12%. Mais ou menos na mesma época do ano -- meados de julho -- saiu uma pesquisa do mesmo Ibope derrubando Kassab para 8%. Nenhum fato político justificava isso, mesmo porque a campanha corria de forma mais discreta do que a atual, àquela altura. Mas veio lá o Ibope apontando um tombo de 4% nas intenções de voto de Kassab (opa! Será mera coincidência a diferença ser exatamente a mesma?). Mais ou menos uma semana depois, não me lembro exatamente, saiu o Datafolha. Lá estava Kassab com 12%. Uma subida meteórica, 4% em poucos dias, sem nenhum fato que justificasse isso. Um amigo experientíssimo em campanhas políticas e que trabalhava na campanha de Kassab me disse: "Não aconteceu nada". "Como nada? 4% em uma semana é muito mais do que nada", respondi. Ele então colocou: "Ninguém no comando da campanha se abateu com os 8% do Ibope, e por isso mesmo ninguém está comemorando os 12% do Datafolha. O Kassab está onde sempre esteve. Com 12%." O correr dos dias trouxe as duas pesquisas seguintes do Ibope mostrando uma repentina ascensão de Kassab. Curiosamente, os números daquele instituto, daí em diante, foram ficando mais e mais parecidos com os do Datafolha. O resultado final, todos conhecemos. Não tenho dúvida de que o próximo Ibope trará novamente um empate técnico (provavelmente com Dilma numericamente à frente)*. Justificarão a oscilação invocando as mágicas das margens de erro ou de supostas guinadas da opinião pública. Se você se interessa pelo andar das tendências do eleitor, aconselho a preferir o Datafolha. (*) Atualização: hoje, 4 de julho, a Folha divulga novo resultado do Ibope: empate entre Serra e Dilma, em 39%. CQD. 29.6.10
Era Dunga
O Tempora, o mores. Ó tempos, ó costumes. O dito romano vale como nunca, ou como sempre. Tanto o velho Cícero como o velho Catilina devem estar, lá de cima, divertindo-se com os nossos tempos e nossos costumes. - O técnico da seleção brasileira xinga a imprensa, e o povo apóia enfaticamente. - O presidente da República fala rematadas tolices, mas fala-as aos brados, com ares de ira e, então, o povo aprova e apóia enfaticamente. - O país se desindustrializa, volta a ser exportador de commodities, não faz evoluir o setor de serviços na velocidade que precisa, mas, como hoje traz badulaques da China baratíssimos, todos aprovam e apóiam enfaticamente. - O violentíssimo Brasil votou por continuar sendo violento, quando teve a oportunidade de refrear um pouco isso com o plebiscito do desarmamento. - O Brasil se orgulha do crescente número de brasileiros fazendo sucesso no Exterior. Jogadores de futebol, médicos, cientistas de várias áreas, engenheiros, operários, modelos e até as chamadas moças de vida fácil, com suas vidas tão difíceis. Ninguém se lembra de que o sucesso que fazem nos outros países renderá frutos apenas para os outros países -- e para algum tipo de orgulho vão e infantil de quem ficou por aqui, algo na linha do "mais uma vez o mundo se curva ante o Brasil". - Temos o litoral mais belo do mundo que, no entanto, não tem nenhuma espécie de proteção legal, o que faz com que o que é belo hoje vá se tornar um horror em 15 anos, quando se sairá em busca de outro local lindo para que seja destroçado em outros 15 anos. Ninguém se dá conta que mesmo 8 mil quilômetros de praia são um número finito. - Ambientalistas, no Brasil, continuam achando que o ser humano não é parte do meio ambiente, enquanto ruralistas, no Brasil, continuam achando que o meio ambiente é que não faz parte do meio ambiente. - No Brasil, coisas como o CQC são vistas com simpatia, enquanto movimentos pró-direitos humanos são vistos com antipatia. - No Brasil, cartilhas são mais comuns do que ideias próprias. - Há compensações. Para cada Dunga, há um Dorival Caymmi. Não, para cada 100 Dungas há um Dorival Caymmi. Ainda assim, a troca continua valendo. 18.6.10
CQC: do oportunismo ao linchamento
Repórter do CQC força vítima a reagir contra si mesma Deu na Folha: deputado Nelson Trad, do PMDB do Mato Grosso do Sul, agrediu uma equipe do CQC que o fez inadvertidamente assinar um abaixo-assinado que pedia a inclusão de um litro de cachaça no Bolsa-Família. Para mim, é legítima defesa. Não conheço a carreira parlamentar do deputado, não sei o que já fez pelo Brasil e, só pelo fato de ser do PMDB de hoje, já tenho dois pés atrás. No entanto, o que os programas do gênero CQC, Pânico e correlatos fazem é linchamento, justiçamento moral. Para o "entrevistado", ou melhor, a vítima, não sobram chances maiores do que as que tem um touro na arena: minuto mais, minuto menos, o cara vai ser achincalhado. Isso serve para Trad como serve para Eduardo Suplicy, serve para José Serra como serve para Dilma Roussef, é uma generalização da completa falta de respeito ao cidadão ao lado, pelo simples fato de ser o cidadão ao lado famoso ou renomado. A situação não deixa margem de escolha: se o alvo do CQC se mantém receptivo e pacífico, será vítima de todo tipo de piada de mau gosto, ofensiva e invasiva. Se a vítima reage, o espeto em suas costas será a pecha de autoritário, intolerante, repressor ou, no mínimo, mal-educado. Se pede intervenção da segurança ou da polícia, será tachado de repressor ou de alguém que tem algo a esconder. Ou seja: é a cruz ou a caldeirinha, é a caçarola ou o fogo baixo. Não acho que o que fez o deputado Trad fez deva virar padrão, não se pode defender a violência. Mas é preciso denunciar justamente a violência que cometem esses oportunistas, travestidos de defensores da cidadania, mas que são tão simplesmente exploradores da ignorância alheia, sem dever nada a gente como Sílvio Santos, a bispa contrabandista ou as magas dos descarregos. Aliás, estes não saem por aí insultando ou ridicularizando quem quer que seja. Apenas ganham seu controverso dinheirinho (o que não é pouco, diga-se de passagem). O fenômeno CQC é tão típico de uma sociedade imatura quanto o linchamento ou a corrupção generalizada. O pior de tudo é que esse espetáculo deprimente, mostrado à exaustão em rede nacional, atrasa o amadurecimento geral, faz crer que esse tipo de procedimento é legítimo e justo. Não é. Vai chegar o dia em que merecerá serena e severa ação judicial. Até lá, seremos obrigados a assistir a esse lixo. 9.6.10
O futebol ficando mais chato
Sílvio Luiz como anticandidato a presidente da FPF, 1982 Hoje saiu no UOL a notícia de que Sílvio Luiz está se demitindo da Bandnews -- e sai rosnando. Sílvio Luiz é uma das figuras mais divertidas da crônica esportiva brasileira. Quando era ainda comentarista da rádio Jovem Pan, lá pelo fim dos anos 60, começo dos 70, de tanto falar mal e ouvir falar mal de juizes e bandeirinhas, foi fazer o curso de arbitragem da Federação Paulista de Futebol e chegou a bandeirar jogos da Divisão Especial (hoje 1a. Divisão) do futebol de São Paulo. Na TV Record, finalzinho da década de 70, passou a exercer a função de locutor, narrando o modorrento videotape das quartas-feiras à noite, quando a emissora paulistana passava a reprise do jogo que tinha acabado de acontecer. Como a audiência era meio traço, Sílvio Luiz não fazia muita cerimônia no que dizia. Acabou se tornando "cult" e cunhando alguns dos bordões mais famosos da crônica esportiva, como o "olho no lance" e o "pelas barbas do profeta". Transmitia os jogos tendo Pedro Luiz como comentarista e o jovem Flávio Prado como repórter de campo. Numa certa noite fria, transmitia um jogo do Pacaembu, público de meia dúzia de aficcionados, partida arrastada, quando lá pelos 40 minutos do segundo tempo -- portanto quase uma hora da manhã --, ele manda: "Ô Frango (apelido carinhoso que dava a Flávio Prado), já tem a renda?" "Tá aqui, Sílvio". "Então manda." Na moeda da época, que não me lembro mais qual era, o repórter pronunciou cuidadoso: "Para um público de dois mil oitocentos e quatro pagantes, renda de 31 mil, quatrocentos e doze cruzeiros e sessenta e nove centavos". "Sessenta e nove, Frango?" "É, Sílvio." "Sabe que 'cê me deu uma boa idéia?" E seguiu narrando o jogo até o final, depois de ter ele mesmo feito o melhor lance daqueles 90 minutos. Poucas pessoas perceberam que não havia centavos em uma renda que era a soma total da venda de ingressos cujo preço unitário era em cruzeiros redondos -- sem centavos, portanto. Em 1982, candidatou-se a presidente da Federação Paulista de Futebol, tendo o "Frango" Flávio Prado como vice, numa anticandidatura que culminou com uma chegada apoteótica à sede da entidade, no dia da eleição, com os dois candidatos desembarcando de uma carruagem, vestidos de fraque e cartola. No mesmo ano, a TV Globo comprou a exclusividade da transmissão dos jogos da Copa do Mundo, cedendo direitos apenas às TVs educativas e deixando os telespectadores sem opção, a não ser a de ouvir os jogos com o chatérrimo Luciano do Vale. Sílvio não teve dúvida: anunciou aos quatro ventos que transmitiria os jogos pelo rádio assistindo pela TV as imagens da concorrente. E foi o que fez, dando-se ao luxo de comentar os replays mostrados pela vênus platinada e elogiar a qualidade da transmissão. Boa parte dos torcedores de São Paulo viram aquela Copa assim: imagens da Globo e som do rádio, com Sílvio Luiz narrando. Neste ano em que o jeito Dunga de jogar prevaleceu e vai representar o Brasil na Copa, parece que a crônica esportiva acompanha o jeito mal-humorado e pragmático do treinador que dispensa dribles. À moda Dunga, a Bandeirantes não escalou Sílvio Luiz para ir à África do Sul. É pena. O mais antigo cronista esportivo em atividade no Brasil faria um belo contrapeso a esse futebol de resultados que seremos obrigados a ver. 28.5.10
Aécio não vem. Pode ser uma boa notícia
Aécio Neves voltou das férias e garantiu que não pretende ser candidato a vice de José Serra em uma chapa puro-sangue. Pode ser uma boa notícia, desde que o talentoso neto de Tancredo cumpra o que promete e se esforce para trazer votos seu colega de partido. Isso só ele sabe se fará. Se não fizer, terá suas razões objetivas, evidentemente dentro do jeito mineiro de raciocinar. Conta-se que, em um distante e calorento dia lá pela década de 30, Benedito Valadares encontrou, na estação do trem, um deputado de seu estado. Perguntou para onde ele ia e o outro respondeu: "Ao Rio, governador", e se afastou com uma mesura. Valadares, então, comentou com o assessor: "É, ele vai mesmo pro Rio." Ante o olhar de interrogação do outro, o lendário mineiro completou: "Ele disse que ia ao Rio pra eu pensar que ele ia a Uberaba, então ele vai é ao Rio mesmo." Mas há afirmações de Aécio que parecem óbvias: em campanha dentro de seu Estado, poderá trabalhar muito mais por seu candidato ao governo, seu sucessor Antonio Anastasia, e, se achar que deve, por Serra. Como vice, seria apenas um factóide, e ainda obrigado a cumprir uma cansativa agenda nacional, perdendo tempo precioso fora de Minas. Ali, a tarefa que se impôs é bastante árdua: superar o eterno favorito Hélio Costa em favor de seu ex-vice e pouco conhecido atual governador Anastasia. A única razão para o que resta da insistência de algumas lideranças para que Aécio saia para vice é que ele jamais "cristianizaria" a si mesmo. Para ter cargo em 2011 teria obrigatoriamente de batalhar votos para Serra. Candidato ao Senado, além do mais, Aécio tem eleição garantida. O enigma que resta, então, é como se monta o raciocínio de Aécio: apóia Serra, acreditando que poderá sair com uma candidatura certa para 2018 (ele terá 58 anos) ou mesmo para 2014 (caso Serra perca agora ou não queira disputar uma reeleição depois), ou faz corpo mole e se dedica só a Anastasia e a si mesmo, deixando correr solto o lulismo que tão bem se espalhou por Minas em 2006, crente que poderá montar uma candidatura forte para a sucessão de quem quer que seja no próximo pleito. Como se vê, a eleição do sucessor de Lula depende muito do que Aécio resolver fazer. Sua decisão de ficar em Minas é a melhor notícia para Serra, desde que o neto de Tancredo cumpra o que hoje promete e lute de fato pela candidatura do PSDB. O ex-governador transformou-se na única liderança regional que terá, sozinha, influência direta no quadro nacional. Coisas de Minas, como o pão de queijo e a supressão dos verbos reflexivos. |