dito assim parece à toa |
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Comentários, reflexões, declarações e acessos eventuais de fúria ou riso, relacionados com o desenrolar da história. ![]()
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20.8.08
Caymmi superando Caymmi
Fiquei tocado com a ida de Caymmi, com a ressalva de que não foi tristeza, foi nostalgia -- são sentimentos próximos, mas diferentes. O texto do Márcio e o vídeo do a. nos respectivos blogues me fizeram lembrar de uma resenhazinha que fiz uns 3 anos atrás daquele que foi o melhor disco de Caymmi, o que o transportou da baianidade para a universalidade. Em tempos sem tempo, aqui vai: Por razões que o coração explica, ouvi repetidas vezes o disco "Eu não tenho onde morar", de Dorival Caymmi, lançado em 1960 pela Odeon, e que tenho em uma versão CD, lançada em 1993, que traz também as canções de "Caymmi e seu violão", LP de 1959. Chama a atenção, desde logo, a capa de César Villela, que eu considero o Reid Miles brasileiro (Miles, para quem não é Pecus Bilis, foi o notável artista gráfico que fez a maioria das capas do selo Blue Note). É uma pena que a reprodução no CD não permita ver a qualidade do design de Villela. Com produção esmerada de Aloysio de Oliveira, "Eu não tenho onde morar" é uma pérola da música popular brasileira. Pouco depois, em 1963, Aloysio fundaria seu próprio selo, o Elenco, que marcou época com LPs famosos, como o de Tom Jobim "The composer of Desafinado plays", "A bossa nova de Roberto Menescal" e o obrigatório "Caymmi visita Tom", quase sempre com capas notáveis dele: César Villela. Em "Eu não tenho onde morar", Caymmi dá uma virada impressionante (é bom ter o disco anterior gravado no mesmo CD, pode-se comparar com facilidade). Os arranjos do Maestro Lindolfo Gaya são precisos, na medida em que agregam uma inédita modernidade às canções, antes um pouco temperadas demais de "baianidade" e frufrus, sem tolher a personalidade do compositor e intérprete, ao contrário, aproveitando o que ela tem de melhor. Caymmi aceita e vence um desafio ao reler "O que é que a baiana tem" superando de forma original a versão consagrada de Cármen Miranda, com um andamento mais apropriado à descrição de uma malemolente mulher da boa terra. Mas é nas canções mais lentas que o disco traz o seu melhor. "Acalanto", estréia de sua filha Nana em disco, é uma peça definitiva da canção brasileira. O samba-canção "Dora", uma homenagem ao "Recife dos rios cobertos de pontes", é inesquecível, ao tratar com tanta suavidade uma musa que é "rainha do frevo e do maracatu". Em "Adeus", Caymmi dá um show de interpretação que justifica seu lugar na história como primeiro compositor importante da canção popular brasileira a ter destaque também como intérprete. Há quem diga que outro samba-canção é o grande destaque do disco: "Marina". Outros chegaram a cometer a burrada de tachar Caymmi de machista por este retrato singelo e delicioso de um amor à moda antiga: "Eu já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual. Desculpe, Marina, morena, mas eu tô de mal." O resultado final de "Eu não tenho onde morar" é uma peça equilibrada, com delícias como a faixa título, os sambas "São Salvador", mais uma linda exaltação à Bahia, a brejeiríssima "O dengo que a nega tem", quase uma embolada, e "A vizinha quando passa", uma das canções mais inspiradas de Caymmi, que fala daquela mulher que, ao mexer as cadeiras, sem querer "mexe com o juízo do homem que vai trabalhar". O disco é uma realização primorosa de Aloysio de Oliveira e do maestro Gaya, que conseguem tirar o melhor de Caymmi, de forma talvez nunca mais repetida. Ali não tem "Saudade da Bahia". Isso, quem tem sou eu. 18.8.08
Vida empresarial
Reuniões são a melhor forma de combinar o que não vai ser feito. *** Empregado é o cara que dedica 8 horas por dia a fazer, dizer e ouvir o que não quer. *** O suporte de rede é aquele cara que não sabe bem qual é o defeito, mas tem certeza de que a culpa é sua. *** Executivo de sucesso é aquele que, depois de obedecer, faz todo mundo acreditar que deu a ordem. *** O presidente de empresa mais bem sucedido é aquele que consegue fazer todos os problemas passarem a seu sucessor. *** O jurídico é aquele cara cujo trabalho é vetar tudo o que lhe possa dar trabalho. *** Diretor é aquele que, depois da obra pronta, diz a quem a fez como ela deveria ter sido feita. *** Gerente é aquele cara que manda como empregado e obedece como diretor. *** Gestão é o conjunto de decisões que resultará na próxima lista de cortes. 13.8.08
Declarando meu voto
Outro dia, achei lá no Idelber um link para um teste desses que definem o que você é. No caso, sob o ponto de vista político. Depois de responder a umas 20 perguntas, o computador processou as respostas e tascou lá que eu sou um cara de esquerda, com tendências libertárias. Coloco isso como um anteparo às espinafraçãoes que possam vir da minha declaração de voto para a prefeitura de São Paulo. Voto pela reeleição do atual prefeito Gilberto Kassab. À primeira vista, parece ser a repetição de uma das manias nacionais, que é a de votar em pessoas e não em partidos. Talvez seja um pouco disso, mas às avessas: há um lado dessa decisão que é o de não votar em pessoas -- não tenho nenhuma vontade de votar em Marta Suplicy ou em Geraldo Alckmin -- mas manter uma idéia que é partidária: a da coligação que elegeu o prefeito de São Paulo em 2004. Naquele ano, o prefeito foi eleito por uma chapa que era encabeçada por José Serra, do PSDB, e tinha o atual prefeito como vice, resultado de acordo firmado entre o PSDB e o DEM. Em 2006, Serra deixou a prefeitura para se candidatar a governador e Kassab assumiu. A lógica da coligação seria o apoio de todos os seus participantes à reeleição de seu cabeça de chapa -- agora não mais Serra, e sim Kassab. No entanto, o ex-governador Geraldo Alckmin quis porque quis ser o candidato, dobrou o partido e se lançou, desfazendo unilateralmente o acordo anterior. Alegou sua viabilidade eleitoral, maior que a do prefeito -- argumento que ele mesmo não levou em conta ao impor-se candidato à presidência em 2006, quando estava bem atrás de Serra nas pesquisas. Agora, vale-se do mesmo Aécio Neves que o desprezou solenemente em 2006, para tentar ir se alavancando. Não dá para votar nisso. Mas não é só o aspecto político que me faz decidir o voto: administrativamente, a cidade vai bem. Alguns números são mesmo surpreendentes, como os da saúde -- cronicamente espinafrada, mas melhorando muito na atual gestão --, de obras viárias e a grana investida no metrô, quase 1 bilhão de reais (a prefeitura não punha um tostão no metrê há mais de 30 anos). A Lei Cidade Limpa é referência já mundial no assunto poluição visual. Kassab é, sim, um bom prefeito. No segundo turno, creio que vou poder repetir o voto do primeiro e ajudar a reeleger o candidato da coligação vitoriosa em 2004, Gilberto Kassab. Caso os astros, no entanto, coloquem na disputa final os que hoje estão à frente nas pesquisas, votarei com imensa tranqüilidade, e por eliminação: entre o Campos Machado e o Aldo Rebelo, preferir o segundo, quem não há-de? 8.8.08
Bôscoli (Ou: uma reprise em nome dos 50 anos da Bossa Nova)
Ronaldo Bôscoli (1928-1994) escreveu as letras mais controvertidas da bossa nova. Teve Roberto Menescal como parceiro mais freqüente -- o que faria qualquer letra soar maravilhosa, dada a qualidade de sua música. Mas isso não encerra a controvérsia. Nara Leão cujo primeiro namorado foi justamente Bôscoli, atribuía a ele, tempos depois, uma charlatanice sem tamanho. É uma versão a considerar. Basta ler a letra de "Você", uma das mais belas canções da "bossa-nova-além-joão": Você/ Manhã de todo meu/ Você/ Que cedo entardeceu/ Você/ De quem a vida eu sou/ E sei, mas eu serei/ Você/ Um beijo bom de sol/ Você/ De cada tarde vã/ Virá/ Sorrindo de manhã/ Você/ Um riso rindo à luz/ Você/ A paz de céus azuis/ Você/ Sereno bem de amor em mim/ Você/ Tristeza que eu criei/ Sonhei/ Você pra mim/ Vem mais pra mim/ Mas só. Coloquei-a inteira aqui para ilustrar a discussão. Cá entre nós: ou é um inalcançável James Joyce ou é um malabarismo verborrágico no estilo que anos depois consagraria Djavan (o sol e o dom/ quiçá/ um dia/ a fúria desse som/ virá lapidar/ o sonho/ até gerar o som??? Fala sério!). Ou talvez nem uma coisa nem outra, mas apenas um escriba talentoso a experimentar sua língua. Vá lá. Bôscoli é mais um daqueles caras marcados por suas contradições. Jornalista, gabava-se de conhecer todo mundo que valia a pena no Rio de Janeiro. Não escondia ser ranheta e reacionário. Como letrista, além de Menescal, teve parcerias com Chico "Fim-de-Noite" Feitosa e Carlos Lyra. Inventou os "pocket-shows", que deram o primeiro impulso à bossa-nova. Fez uma dupla famosa com o "soi-disant" debochado Miéle, produzindo com ele grandes shows, a destacar os de Roberto Carlos. Namorou, além de Nara Leão, a cantora Maysa e a modelo Mila Moreira, entre uma imensa fila de mulheres bonitas. Casou-se em grande estilo com Elis Regina, o que, se não vingou como relação, gerou João Marcelo, um craque, como o pai, em agregar talentos. Há uma autobiografia de Ronaldo Bôscoli, "Eles e Eu". Não a li, não creio que valha a pena, pelos trechos que experimentei. Mas parece ser uma dessas pessoas que o Brasil de vez em quando produz e que vêm para catalisar. Quando se fala em bossa-nova e se lembra dessa época de surpreendente inovação que varreu o Rio e o Brasil, não dá para esquecer Ronaldo Bôscoli, até mais como eminência parda do que como estrela -- embora não recusasse nenhum dos dois papéis. 5.8.08
notre dame amo-te, mas recôndito amo também teu príncipe por entregar-se tórrido quando o colheste lépida coras-te logo lúbrica dele serão tuas décadas meu o rogar um átimo tento compor tua música saio-me meio gótico não sei como ser lírico sou tão só teu quasímodo 4.8.08
Soneto da troca* É: pode parecer indelicado propor a você que faça uma troca, que pense na lógica do mercado. Mas quanto custa e vale o que lhe toca? Eu sei que isso não é mercadoria e que você nem mesmo dá valor. No fundo, se livrar preferiria: pra que manter o que provoca dor? Por isso, considere o que a impede e o que também impele-a a aceitar a troca, que eu faria sem spread. Proponho dar-lhe tudo, até meu ar; contrapartida simples, você cede a mim o que há de triste em seu olhar. (*) A ocasião pede que a proposta seja feita novamente. 30.7.08
Palíndromos Acho que todo mundo que escreve tem a tentação de compor palíndromos, aqueles escritos que podem ser lidos de trás para a frente, como os conhecidos e anônimos "Roma me tem amor" ou "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos" e o célebre "Até Reagan, sibarita, atira bisnaga ereta", do malabarista das palavras Chico Buarque de Holanda. É algo como a pelada de férias para o jogador de futebol ou o kart para o corredor de automóvel: um exercício lúdico de malabarismo, que, se não tem maior significado literário, traz a satisfação interna de pôr à prova uma habilidade. Um jogo, enfim, coisa de criança. Abaixo, uns de minha lavra: É, AMAMOS A MODA SADOMASÔ, MAMÃE. ELA, SE TOMA TODAS, ADOTA MOTE "SALE". OXE! SÓ DÁ SÓROR, AGORA, A ROGAR O ROSADO SEXO. A GENEROSO, O SÓ RENEGA. ROLAVA DEMAIS AMAR: AMÁSIA ME DÁ VALOR. A DOMADA GRASSA: PASSÁRGADA MODA. MECENAS AMÁLIA, LADRA MÁ: A AMAR DALAI LAMA, SANE CEM! 21.7.08
Sorry A freqüência com que novos posts chegarão a este espaço já esquálido deve diminuir bastante entre hoje e o dia 15 de novembro. A razão é: estou empenhado em uma tarefa hercúlea, que é a de ajudar a eleger um importante executivo para a administração pública desta nossa terra descoberta pelo conde Chiquinho. Não sumirei de vez, não agüento. Mas acho que mais de uma vez por semana, não conseguirei colocar nada por aqui. Bom, é mais ou menos o que eu vinha colocando nos últimos 5 anos (aliás, a serem completados em outubro; aceito velinhas e mimos). |